Visualizando as dinâmicas espaço-temporais do Instagram

O que se pode perceber sobre as dinâmicas culturais de uma determinada sociedade ao tomar seus rastros digitais? Que diferenças e similitudes são possíveis de se captar ao compararmos diferentes cidades? O que se pode visualizar especificamente, levando em consideração tempo, espaço e deslocamento, a partir da coleta de imagens publicadas no Instagram? São questões nesse sentido que Lev Manovich e sua equipe buscam responder no Instagram Cities, projeto em que aglutinam e comparam milhões de fotos públicas postadas nessa rede social.

Ferramentas como o Instagram – a exemplo de Foursquare, Twitter e mesmo o Facebook – têm, potencialmente, certa capacidade de nos prover de dados que revelam bastante de nós mesmos. Até aqui nada novo, mas as dinâmicas de self disclosure e todos os processos interacionais que lhe cercam possuem, há alguns anos, uma variável crucial para a compreensão de como nos dispomos e usamos o espaço que nos diz respeito. Trata-se do dado georreferenciado, o qual agrega, automaticamente, informações sobre localização específica daquilo que está sendo produzido – desde uma foto até um tweet, por exemplo.

Em artigo publicado no First Monday, Nadav Hochman e Lev Manovich buscam esclarecer como é possível visualizar as produções efetuadas em redes sociais, bem como trazer à tona aquilo que elas podem prover para a compreensão de padrões temporais, espaciais e culturais. No artigo em questão, os autores comparam as “assinaturas visuais” de 13 distintas cidades ao redor do mundo, com foco posterior nas imagens tiradas em Tel Aviv, de modo a compreender de que formas elas podem oferecer ideias sociais, culturais e políticas em relação às atividades daqueles situados na cidade.

Alguns modos de visualização podem ser apreciados nas imagens abaixo. Para além do belíssimos quesito estético que elas apresentam, as formas encontradas trazem à tona padrões de práticas espaço-temporais bastante reveladoras e curiosas. Vejamos.

Ritmo visual em relação às horas

Na imagem a seguir, aglutinaram-se imagens de acordo com o horário de upload para o Instagram. Dessa forma, é possível perceber as diferenças de luminosidade (dia ou noite).

A tonalidade das fotos é marcada por maior ou menor incidência de luz, bem como a coloração que fluorescência e incandescência podem gerar sobre a imagem.

A tonalidade das fotos é marcada por maior ou menor incidência de luz, bem como a coloração que fluorescência e incandescência podem gerar sobre a imagem.

Rotinas visuais

No exemplo abaixo, é possível notar as rotinas individuais de alguns usuários (também em Tel Aviv). Cada plot representa um indivíduo, e os pontos são fotos tiradas de acordo com o lugar e o horário (verde para manhã, amarelo para tarde, vermelho para noite). As linhas que unem os pontos demarcam duas ou mais fotos tiradas numa mesma hora.

rotinas-visuais

Algumas ideias que se percebem: poucos usuários tiram muitas fotos num só local, outros se movimentam bastante, alguns só tiram fotos em determinados horários, vários só tiram uma foto por hora…

diferencas-horarios

Notória a diferença de uso do Instagram entre as duas pessoas representadas nessa imagem. A da esquerda é absurdamente matinal. A da direita, parece funcionar plenamente mais à noite. Que apontamentos em relação a aspectos representacionais e interacionais tais dados podem nos mostrar?

Mapeando momentos de crise

A imagem abaixo mostra o momento exato de crise maior durante a ocorrência do Furacão Sandy em Nova York, em outubro do ano passado. Às 22:23 é possível perceber uma parada abrupta do registro da tempestade – o que vinha ocorrendo vastamente até então – já que foi nessa hora exata que faltou energia para boa parte da cidade, de acordo com o The Atlantic Cities. Na iminência de ficar sem bateria, supostamente as pessoas passaram a utilizar seus celulares para outras atividades, talvez poupando energia, talvez ligando para parentes e amigos.

Acabou a luz, acabou a diversão?

Acabou a luz, acabou a diversão?

O que tudo isso nos diz, afinal?

Para acompanhar as discussões sobre o que o acúmulo e a leitura de dados, vale a pena acompanhar as discussões e resenhas realizadas no Lab 404 sobre o livro Big Data, de Viktor Mayer-Schönberger e Kenneth Cukier. Ainda que Manovich não se utilize do termo para descrever suas atuais pesquisas, é notória uma aproximação entre as abordagens – ou seja, no sentido de compreender atividades e padrões sociais por meio da coleta de rastros digitais.

 

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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