Um mapa para cada um?

Um tweet curioso do Enabling City chamou minha atenção recentemente. Dizia ele: “Meu mapa ou o seu? Plano do Google para personalizar mapas poderia acabar com o espaço público da maneira como conhecemos”.

Ainda que o tom da mensagem seja um tanto pessimista e determinista, o espanto, de certa forma, parece fazer algum sentido. A coisa toda baseia-se numa entrevista dada por Daniel Graf ao blog TechCrunch em que ele dizia não estar bem certo, numa espécie de teasing desafiante, sobre os termos de objetividade de um mapa. “Se você olha para um mapa e eu também, ele deveria ser o mesmo para você e para mim?”, questionou o diretor do Google Maps. A resposta parece estar vindo cada vez mais no desenvolvimento de recursos de visualização e navegação personalizadas, conforme anúncio do próprio Google, no seu blog LatLong, no último maio, em relação à nova interface do Maps: “o novo Google Maps se modifica instantaneamente para destacar as informações que mais importam”.

Mas o que importa e a quem?

Como diz o post da revista Slate, há algo de bastante conservador nessa proposta. A ideia de novidade, de serendipity, de acaso é praticamente inexistente numa lógica como essa. Potencialmente, somos inseridos num processo de equalização: ainda que o sistema busque prover resultados amplamente únicos, singulares, voltados com tanta exclusividade que nenhum funcionário poderia jamais dar, tornamo-nos aqui iguais pela diferença. Nesse sentido, é necessário convencer que eles realmente sabem o que queremos.

To succeed with advertisers, it needs to convince them that its view of us customers is accurate and that it can generate predictions about where we are likely to go (…).The best way to do that is to actually turn us into highly predictable creatures by artificially limiting our choices. Another way is to nudge us to go to places frequented by other people like us—like our Google Plus friends. In short, Google prefers a world where we consistently go to three restaurants to a world where our choices are impossible to predict.

Existem pontos aí que dizem respeito ao mundo dos negócios, e talvez sejam mesmo questões majoritárias. Sabe-se que o Gmail utiliza algorítimos para “ler” os emails dos seus usuários e, a partir da extração de determinadas palavras-chave, montar anúncios meticulosamente voltados para o indivíduo. Tendo em vista que o sistema de login do Google é integrado, potencialmente aquelas informações capturadas serviriam para montar mapas personalizados – o que, a princípio, parece ultrapassar a mera noção do marketing. Parece que tudo já não se trata apenas de exibir anúncios, mas de montar uma base cartográfica que corresponda mais à visão de mundo do utilizador que à bird eye que realmente se poderia ter com um vôo de balão – vide o fato de as favelas terem sumido do Google Maps. Nessa perspectiva de extrema customização, é impossível não citar o perigo dos filtros-bolha, trazido por Eli Pariser.

Experiências urbanas e aspectos interacionais: como ficam?

Se, partindo da visão explorada, nem o mapa nem o espaço urbano são o mesmo para todas as pessoas – pelo menos no sentido da experiência, especialmente a mediada – então como ficam recursos baseados na interação? O que significaria, por exemplo, marcar pessoas no Foursquare, à maneira como se faz no Facebook ou no Instagram? Que tipo de experiência presencial-porém-mediada em comum teriam duas ou mais pessoas no mesmo local (ou não, já que os marcados não precisam estar necessariamente ali) agora que a própria ideia de espaço parece entrar em cheque? Quais os sentidos das marcações georreferenciadas (check-ins) e das recomendações de lugares se não houver uma compreensão em comum sobre os lugares? Como ficam as informações dispostas pelo Waze as cooperações em potencial dentre seus usuários?

De mais a mais, é necessário perceber a situação de maneira não-apocalíptica. Há mudanças em andamento, e elas merecem ser observadas. Além disso, longe de velhas querelas sobre o suposto papel neutro e objetivo dos mapas, o que entra em colapso nesse é a ideia de comum e, talvez, a experiência interacional que daí possa decorrer. O anúncio citado no LatLong é efusivo, positivo demais, e, de fato, outro caráter não poderia ter – já que se trata de um veículo oficial do Google. A ideia de desconhecido, a flanêrie (se é possível), o ato de deambular e se deixar perder não existem nos programas de ação desse tipo de sistema. Tudo é formatado de modo a dar os melhores destinos e as mais eficazes rotas – a eficiência e a performance aparecem como palavras de ordem. Entram em jogo correlações de dados que deixam a compreensão humana e a subjetividade de fora – ou mesmo esta está presente, mas como elemento por vezes resultante, não como ingrediente. No fundo, não é que tenhamos de tratar tais questões negativamente a priori, mas há uma diferença entre andar pela orla marítima e a parte central de uma cidade, em propor encontros em certos lugares e com quem. O que o Google Maps, o Foursquare ou o Waze saberiam sobre isso?

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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2 comments to “Um mapa para cada um?”
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