The Mediated Construction of Reality – Cap.9

Texto por Lisi Barberino e Patrícia Luz

O objetivo central desse capítulo é discutir o impacto da midiatização profunda para as ‘coletividades’. Logo em sua abertura, os autores definem uma coletividade como “any figuration of individuals that share a certain meaningful belonging that provides a basis for action- and orientation-in-common”. Couldry e Hepp, no entanto, chamam atenção para diferenciações do ‘pertencimento significativo’:

It can be a feeling of a ‘common we’, as with traditional face-to-face communities (Knoblauch, 2008). It can be based on a ‘shared organized situational action’, as in the case of smart mobs (Rheingold, 2003). Or it can be based on processes of datafication like the collectivities of ‘numeric inclusion’ (Passoth et al., 2014).

A principal característica das ‘coletividades’ é seu caráter significativo para os atores envolvidos, Couldry e Hepp destacam o importante papel que os meios de comunicação desempenham na contrução de tal significado.

No tópico “9.1 Groups, Collectivities and Deep Mediatization”, os autores se dedicam  a explicar os processos fundamentais de construção de ‘coletividades’ dentro de grupos.  Defendem a idéia de que relações sociais baseadas em ‘sociabilidade em rede’, envolvem primariamente uma troca de dados (Wittel, 2008, p.157). Traçam em seguida uma crítica sobre o binarimo que associa a sociabilidade em rede a perda e esvaziamento da noção de ‘comunidade’. Para os autores, as ‘coletividades’ estão sendo tranformadas por diversos caminhos imprecisos e com fronteiras difusas: “the variety of collectivities has expanded through the use of media technologies”.

Existem ‘coletividades’ para quais as mídias são constitutivas, no sentido de que não podem existir sem ela: ‘coletividades baseadas na mídia’; e coletividade para as quais a mídia não é constitutiva, mas é cada vez mais influenciada pelas comunicações relacionadas a mídia: ‘coletividades midiatizadas’.

De acordo com Couldry e Hepp, a mídia pode constituir ‘coletividade’s de duas maneiras distintas: 1)  oferecendo, por seu conteúdo, um quadro de relevância para a construção de tais ‘coletividade’s; 2) oferecendo o espaço de comunicação em que essas ‘coletividades’ são construídas, independentemente do conteúdo real que atenda a seus quadros específicos de relevância. No primeiro caso, a mídia é constitutiva no sentido de construir as fronteiras significativas dessas ‘coletividades’. No segundo caso, a mídia é constitutiva no sentido de apoiar as práticas de comunicação através das quais essas ‘coletividades’ sempre são construídas. Os exemplos mais claros de ‘coletividades’ baseadas em mídia são aqueles que se reúnem em torno de determinado conteúdo de mídia (Friemel, 2012): pessoas que acompanham jogos esportivos de televisão, cerimônias, espetáculos populares extraordinários ou “eventos” comparáveis ??que são comunicados como fonte de identificação coletiva

Mesmo ‘coletividades’ cuja existência e formação são independentes da mídia podem formar o que os autores chamam de  ‘coletividades midiatizadas’: famílias, grupos de pares, grupos migrantes ou grupos de excluídos atualmente são ‘coletividades’ cujas formas de pertencimento significativo são, em parte, construídas através do uso de mídia.

When family photos are shared on online platforms and through that a family memory is constituted (Lohmeier and Pentzold, 2014; Pentzold et al., 2016, p. 2), or when family relationships are articulated by digital media use (Cardoso et al., 2012, pp. 49–70), it is the whole media ensemble that is

A mediatização da família possibilita novas formas de figuração da família, especialmente famílias separadas por longas distâncias e, que ao mesmo tempo, mantêm estreita relação com seus familiares (Greschke, 2012; Madianou e Miller, 2012, pp. .128–135).

Relacionado ao que nomeiam como princípios emergentes, Couldry e Hepp destacam três pontos relevantes:

  1. Os conteúdos da mídia tornam-se recursos importantes para a definição de ‘coletividades’ quando o conteúdo da mídia se torna o “tópico” em torno do qual essas ‘coletividades’ são construídas.
  2. Os meios de comunicação são meios para construir ‘coletividades’, especialmente para grupos on-line que dependem constitutivamente de seu espaço on-line de comunicação, mas também para aqueles grupos de pares e famílias que se relacionam ao uso de mídias como smartphones
  3. Media trigger dynamics nas ‘coletividades’. Um único meio de comunicação importa pouco. É fundamental levar em conta todo o conjunto de meios de comunicação. Ter acesso a certas mídias pode se tornar fundamental para se tornar membros de uma ‘coletividade’.

Posto isto, os autores ressaltam que, antes da disseminação dos meios de comunicação de hoje, as ‘coletividades’ humanas envolviam a co-presença, na qual todos se conheciam, as práticas tipicamente eram compartilhadas e os conhecimentos centrais eram distintivos de toda a ‘coletividade’. Esta é a concepção de comunidade encontrada em escritos clássicos sobre comunidades (Tönnies, 2001 [1935]). Mas, com as sucessivas ondas de mecanização, eletrificação e digitalização da midiatização, outros tipos de ‘coletividades’ ganharam relevância, no que chamam de “coletividades da comunicação multimodal”. Baseadas e moldadas por um conjunto diversificado de mídias, menos enraizadas na experiência direta, mas em processos compartilhados de comunicação mediada, essas “coletividades da comunicação multimodal” tornam-se comunidades quando constroem estruturas “comuns” e de longo prazo.

Na Seção seguinte, intitulada “The Political Project of Imagined Collectivities”, Couldry e Hepp propõem discutir coletividades que são construídas a partir de certas formas de representar essa ‘coletividade’. Históricamente, as coletividades imaginárias estiveram relacionadas a comunidade religiosa e a narrativa mídiatica sobre nação. Os atores que construíram essas coletividades eram tipicamente poderosos: igrejas, instituições políticas do Estado e seus representantes. No entanto, com a midiatização profunda, a “imaginação” da ‘coletividade’ tornou-se um campo cada vez mais contestado e em constante disputa.

Originally, the nation as an ‘imagined community’ involved the idea of national public media as crucial to the construction of this imagined community. In his enlightening analysis, Benedict Anderson emphasized ‘the novel and the newspaper’ as ‘the technical means for “re-presenting” the kind of imagined community that is the nation’ (Anderson, 1983, p. 25).

A mídia eletrônica complementou esse processo – principalmente rádio e televisão – que deu “aliados impressos indisponíveis há um século” (Anderson, 1983, p. 135). Desta forma, os processos de comunicação que permitiram a construção da nação foram intensificados. Esse processo de construir o mundo como um mundo de nações continua, por exemplo, em plataformas on-line que não estão necessariamente vinculadas a um território nacional (Hepp et al., 2016, pp. 112-121; Skey, 2014). Para vários tipos de atores políticos – políticos, partidos, governos e jornalistas – a comunidade imaginada da nação continua sendo o ponto de referência para a construção da ordem social. .

Os autores defendem que com a midiatização profunda, criou-se uma variedade de outros públicos e ‘coletividades imaginadas’ que, em parte, entram em conflito e se conectam parcialmente entre si (Baym e ??Boyd, 2012, p. 321). Isso começa com ‘públicos pessoais’ (Schmidt, 2013, p. 121) ou ‘esferas privadas’ (Papacharissi, 2010, p. 161) agrupados em torno de certos indivíduos e termina com os ‘públicos em rede’ (Benkler, 2006, p. 11; boyd, 2008, p.61) de plataformas digitais que se caracterizam por uma arquitetura comunicativa particular que possibilita essas esferas de comunicação (Loosen e Schmidt, 2012, p. 6).

A “blogosfera” (Shimidt, 2007, p.1409) é definido como um espaço de construção de coletividade. Há um interesse do blogueiro e dos usuários numa temática. Apontam como característica desse universo: a inter-relação entre os blogueiros criando uma “multidão online” e o surgimento de uma “arena de discurso”, o que gera estruturas de práticas afetivas.

Os movimentos sociais sempre foram uma maneira de construção de coletividade. No entanto, o apoio da mídia é oportunidade para que os movimentos sociais intitulados como “novos” ultrapassem qualquer fronteira política ou de nacionalidade visando transformações em escala global. Apesar de enxergar a força propulsora que as mídias oferecem aos “novos movimentos sociais”, os autores também apontam desafios para a construção de coletividades. Há um tensionamento entre as formas individualizadas de fazer política e as novas formas de construir coletividade política.

Com o uso das plataformas digitais é possível distinguir três tipos de configurações dos movimentos sociais:

  1. Ação coletiva promovida e gerenciada por uma organização. As tecnologias servem para acompanhar, medir e direcionar as ações;
  2. Ação conjunta com uma coordenação mais flexível. O uso das mídias digitais permitem uma personalização das ações;
  3. Ação conjunta sem uma estrutura organizacional na qual os participantes usavam ativamente as mídias digitais com foco na pessoa ou situação emergente.

Ainda neste tópico, há o exemplo dos movimentos sociais que confrontam as mídias. Fato observável desde a década 1970, atualmente é possível ver as ações de grupos que se unem a favor do acesso livre e gratuito, como por exemplo “movimento hacker”, “movimento de código aberto” e o “movimento open source”.

No tópico 9.3 “Collectivity without communitization”, os autores abordam a existência de coletividades contemporâneas que têm como característica a ausência de comunitarização. A existência delas está baseada nas diversas formas de comunicação mediada e muitas existem com uma finalidade comercial como por exemplo as “comunidades de marca”. São coletividades construídas em torno de certos produtos ou mesmo das próprias empresas produtoras.

Outra forma de coletividade é aquela que se constrói através da datification, ou seja surgem a partir do uso de base de dados e gerenciamento de informações. Portanto, trabalham para construir coletividades que ‘não seriam possíveis sem as avaliações de medição e atividades delegadas a algoritmos e programas estatísticos’”.

Karla Cerqueira Freitas

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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