The Mediated Construction of Reality – Cap.7

Texto por Lorena Borges e Rodrigo Nejm

7 Dados

A proposta deste capítulo é analisar o envolvimento do processamento de dados por computadores e máquinas, que fazem isso por operações distintas dos pensamentos e ações cotidianas dos humanos e quais as consequências da profunda integração social do processamento de dados para a fenomenologia social, espacialmente revisando a obra  ‘A construção social da realidade’, de Berger e Luckmann (1966). O capítulo é um ponto chave para o livro. É pontuado logo de início a definição de sistema para os autores: configurações de fontes computadorizadas que permitem a atuação em larga escala de processamento e operação de informações para uma vasta extensão sem a intervenção humana direta, através de mediação automatizada via agentes de softwares. Berger e Luckmann assumem que a construção do conhecimento social é feita pelos humanos  e os autores levantam a questão de que no contexto dos processos de dados, essa atuação não é apenas humana. Para eles, dados são o material bruto simbólico a partir do qual, através de processos de acumulação, classificação e interpretação, é gerada informação para uso por determinados atores com finalidades específicas. Porém, ao se falar em dados brutos há um paradoxo, pois eles nunca são realmente brutos, isto é, não processados, mas de fato há certo grau de primariedade. Os dados são pré-condições para a vida cotidiana atual, e as seleções que são feitas em seus processamentos são consequentes para a vida social.

Pensando esse quadro, os autores levantam desafios contemporâneos para fenomenologia, a partir de reflexões sobre observações de Giddens: a capacidade dos processos automatizados que geram um fluxo constante de dados das ações e interações sociais, em um volume impensável para a capacidades humanas; o processamento de dados está a serviço das corporações do setor privado e os usos a que isso pode levar são de objetivos exclusivos do capital, ganhos que são externos aos modelos de produção do conhecimento social descrita na fenomenologia clássica, não estava previsto nas análises clássicas da fenomenologia, a datificação a serviços mercadológicos; e o processamento de dados guia e orienta a interação social por ser também conhecimento social. Os autores trazem a perspectiva de Gandy (1993) sobre os processamentos de dados: é uma tecnologia discriminatória que funciona através de três funções integradas, identificação (a coleta de dados de relevância administrativa), classificação (o resultado atribuição de indivíduos a grupos pré-formulados) e avaliação (a atribuição de indivíduos a determinados resultados de ação com base na comparação de como eles são classificados). Os dados compreendem uma porção importante do estoque de conhecimento social; mas a produção de dados é inerentemente assimétrica, ou seja, orientada para entidades em si mesmas e não na interação social, de um para um.  Os atores sociais estão envolvidos nessa coleta de dados, mas os impulsionadores primários dos dados como forma de conhecimento social são as instituições e corporações não diretamente envolvidas nas interações sociais. Um dos impulsionadores sobre essa produção de dados é a quarta onda, a midiatização profunda, ou seja, a interdependência entre a vida cotidiana e as tecnologias de mídia.

7.1 Dados e as premissas da fenomenologia social clássica

Os processos de dados estão abalando a ordenação da realidade e para os estudos atuais é importante entender como e qual ordenação está presente diante disso. O mercado financeiro e os governos tem como uma das dimensões fundamentais a coleta e processamento de dados, que não funcionam a partir de uma relação simétrica de troca de conhecimentos da interação social, mas na verdade por processos que não permitem uma ação humana reflexiva. Os atores sociais provavelmente irão buscar resistir a isso, porém se dará em parte já que a datificação é uma pré-condição de muitas ações humanas. As duas premissas principais de Berger e Luckmann são contestadas: a) apresentação da vida cotidiana como realidade interpretada por humanos e significativa como mundo coerente; b) o mundo não apenas é tido como realidade pelos membros da sociedade mas se origina e é mantido pelos pensamentos e ações. Isso porque a construção do conhecimento precisar integrar as ações dos processos de dados, em que o humano deixa de ser o único ator na interpretação da realidade, que passa a ser coerente não apenas para ele, assim como a manutenção dela não é sua exclusividade.

O capítulo tem um forte teor de atualização do livro de Berger e Luckmann ao postular que descreveram bem o papel da linguagem e como funciona a legitimação das ordens, produção de conhecimento das instituições e como ocorre o processo de institucionalização, porém não descrevem o papel do sistema, ao que os autores dizem que eles simplesmente não poderiam ter previsto, o seu papel de modelar e manter a ontologia das interações.  Os dados parecem ser uma necessidade social aos atores sociais na medida em que as possibilidades de alcance, acesso e circulação de informação por conta da internet são imensas, fato que apenas com as capacidades humanas não seria possível. Por isso, pensar a infraestrutura atual  de comunicação inclui os processos de dados como uma parte crucial do que Berger e Luckmann conceituam como objetivação, porém operam com regras diferentes das descritas por eles.

A pressão contra a ordem tinha uma garantia: os universos simbólicos, que permitiam a explicação de realidades muito distantes dos atores sociais dentro de uma hierarquia relacional (Berger e Luckman, 1966); entretanto o potencial disruptivo dos dados se dá por seus processos serem automatizados e em larga escala, geram novas formas cognição; além de que boa parte do conhecimento social que era mantido por humanos, agora é domínio de formas impessoais e distantes (o sistema). Os conhecimentos de alcance de informação e interação não estão sob o controle único do indivíduo. Apesar da relação de produção e troca de conhecimento não ser recíproca, a sensação de que há uma reciprocidade significativa entre processos automatizados e humanos é importante. Seria o papel dos dados uma reificação nos termos de Berger e Luckmann? Em algum nível, nos processo de dados há envolvimento humano, que por sua vez produz institucionalizações particulares do conhecimento, através de uma materialização, e portanto,  uma  nova reificação, em que a ampliação das agências extrapola os humanos.

7.2 Novas instituições para o conhecimento social

Como a infraestrutura de dados é uma estrutura para o conhecimento social, ela precisa de uma explicação explícita de seu papel na construção do mundo social. O processo de institucionalização do conhecimento pelos dados se dá pela materialização de uma rede de redes, que não pode ser pensada como Berger e Luckmann pensaram, uma única força/lógica, pois é muito complexificada. As expectativas de operabilidade social das infraestruturas são inseparáveis dos ganhos nos negócios, em seu sistema de oferta e serviço, que estão diretamente atreladas a data-tracking (rastreamento de dados). As inovações tecnológicas têm efeitos parecidos com atos legislativos ou constituições políticas que estabelecem um marco para a ordem pública.

Banco de dados (database) e classificação social

A database é a habilidade de ordenar informações sobre entidades em listas, classificando-as, sendo esse processo uma chave para o poder estatal e científico. Esse poder de seleção do que é ou não armazenado de um jeito específico, princípio de exclusão, é chamado por Bowker (2008) de jussivo (aquilo que é imperativo, ordenado), pois tem o efeito final de que o que não é classificado torna-se invisível. O conhecimento produzido pela database provém da seleção feita por ela, a partir de características significativas para gerar adaptação dos dados. Segundo os autores, esse desenvolvimento pode ser uma possível nova quarta onda de midiatização: a datificação. Os objetivos da coleta e classificação de dados não são neutros, mas discriminatórios, pois coordenam e controlam os acessos aos serviços e produtos da economia capitalista. Esse poder de seleção está atrelado também a distribuição de poder, e no caso dos processos de dados, que são de larga escala, os autores trazem o conceito de quantificação (Porter, 1995): uma tecnologia de distância motivada pela exclusão de julgamento. Essa motivação permite que os julgamentos do mundo social a partir dos usos dos processos de dados refaçam a realidade às imagens do ator da investigação. Além disso, permitem a governabilidade de instituições para o controle de realidades distantes.

Ao conectar as abstrações inerentes às operações de dados com os processos de experiência atrelados a eles, registra-se o seu potencial de violência. Isso por conta da sua opacidade, ou seja, as configurações desses processos não são explícitas aos seus usuários. A transformação da realidade social pela inserção dos dados passa a ser organizada por sua lógica. Porém, essa tradução apresenta uma sombra sobre os domínios do mundo social que falham em ser codificados em dados. Isso tudo é uma mudança nas relações humanas com a infraestrutura: o paradoxo do que a infraestrutura digital se tornou, que era uma ferramenta para ação humana, não pode mais ser desafiada ou anulada, são ferramentas que nos usam (tipificam os humanos) na medida em que nos rastreiam algoritmicamente, para gerar dados para o mercado (anunciantes e profissionais de marketing), num quadro em que a partir da funcionalidade delas, ignora-se os mecanismos envolvidos nesse funcionamento de objetos automatizados. Esse processo é chamado pelos autores de reversibilidade da ferramenta.

Categorização

Atualmente, a ordem de causalidade está revertida, com as categorias contribuindo para a produção do conhecimento social (reversibilidade da ferramenta). A categorização é um dos processos importantes para o processamento de dados. Para abstrair a sociabilidade em banco de dados, são necessários quatro processos: 1- a abstração precisa ocorrer, a estrutura dos dados brutos precisa estar programada para executar tarefas; 2- organização prévia, o projeto de uma estrutura de banco de dados para extrair os dados neles localizados da maneira mais rápida e efetiva possível; 3- combinar níveis de dados e permitir um processamento mais complexo: camadas de abstração- um programa que integra diferentes funções, fazendo informações heterogêneas serem possíveis de se aglutinar juntas em grupos e 4- os processos de cálculo realizados nos dados devem ser automatizados através do uso de algoritmos.

Assim como as ferramentas nos utilizam quando as utilizamos, os processos de categorização humana pelos dados interagem com os humanos que estão sendo categorizados. Segundo os autores, a categorização é crucial para a organização social, pois sem ela a interação efetiva com o mundo não seria bem sucedida. As interações com a infraestrutura não ocorrem de forma aleatória, são moldadas e ligadas aos propósitos da coleta de dados. Eles ressaltam que a atitude humana em relação aos sistemas automatizados é de naturalização da presença de uma economia baseada nos processos de dados, ignorando os mecanismos e configurações que operam tudo isso, com o argumento de manutenção dos eventos cotidianos e da produtividade diária.

Traduzindo dados em práticas

São apresentadas 5 maneiras em que a codificação da sociabilidade se traduz em estrutura para a prática social. Primeiro, há uma naturalização das práticas organizadoras do espaço da rede, que tem uma infraestrutura automatizada e calculativa, a qual tem um papel constitutivo atualmente, através da sensação de que plataformas de mídia sociais são meramente espaços em que se encontram e se interagem com outros. Segundo, agimos como se o tempo online fosse natural e a interação entre humanos apenas os envolvesse, mas sem a infraestrutura de dados não haveria espaço-tempo das plataformas e portanto, interação; os dados ditam e marcam o ritmos sociais, por isso seriam metrônomos. Terceiro, as implicações para o self se dão, principalmente, em relação ao gerenciamento de impressões, em especial aquelas que são conflitantes, além de que cada movimento na rede gera um duplo, os dados duplos, que está constantemente sendo rastreado, e partir disso pode-se pensar o que é a identidade de alguém; esse fluxo de dados pode gerar impressões conflitantes ou um perfil que não alimenta suficientemente a rede, pode ser invisibilizado. Quarto, as operações sobre as coletividades: os dados geram agrupamentos de indivíduos, em que são tratados como pertencentes ao grupo, e os indivíduos aderem a eles, apresentado ações própria e características do grupo, onde emergem novas normas de ações e reações, ao menos dentro do processo de geração de dados. E quinto, as implicações para organização e ordenações: uso dos dados para tomada de decisões a nível de governos e grandes corporações, por exemplo monitorar perfis de potenciais terroristas e com a importante função de fazer isso prevendo o futuro a partir dos dados. Essas práticas acontecem a partir de categorizações baseadas em dados, que são exemplos de figurações de figurações, circunstâncias que uma fenomenologia materialista deve entender.

7.3 Como estamos num mundo social com dados

As mídias online apresentam aparências que parecem ser naturais, mas que na verdade são moldadas por imperativos econômicos e externos à essas plataformas. Quando se pensa como estamos em um mundo social com dados, é importante lembrar que há normas e expectativas de legitimidade, que são moldadas por infraestruturas motivadas por ganhos corporativos.

Monitoramento

A presença das plataformas onlines tem estendido a vigilância não apenas para os governos, mas também para as interações sociais de para um, desde questões básicas a interesses mercadológicos. Por isso, os autores adotam de Nissenbaum (2010) o termo  monitoramento, que abrange mais esferas sociais, já que as affordances de monitoramento envolvem níveis diferentes de práticas sociais. Esses monitoramentos, inclusive o de si mesmo e o auto-rastreamento, podem ter objetivos tanto positivos, como negativos para o indivíduo. Segundo os autores, aceitaremos a organização de um mundo social caracterizado pelo contínuo e aprimorado monitoramento mútuo: um novo ponto de partida para pensar o social. A produção do conhecimento e os processos de construção da social da realidade não são feitas apenas por humanos, agora os processos automatizados desempenham novas formas de institucionalização, principalmente a partir das mudanças na temporalidade e em que falas rotineiras, agora registradas continuamente como dito por Jose van Dijck (2010), ganham um valor diferente.

Datificação

Medir e contabilizar, ou fazer uma metrificação do mundo social a partir de dados é uma fonte de valor econômico. A opacidade dessa métrica não retarda os processos de dados, que tornam-se enredados a aspectos cognitivos e emocionais do cotidiano dos humanos. Algoritmos se tornam uma forma de objetivação, a partir desse entrelaçamento com aspectos humanos, trazendo a promessa de avaliações objetivas, sem erros, acuradas, imparciais e sem subjetividade. O outro generalizado (Mead, 1967 [1934]), que regula a ação social, é agora cada vez mais sustentado por um fluxo comercialmente encorajado de trocas on-line. Os algoritmos interferem na forma como as pessoas buscam informações, como percebem e pensam sobre os contornos do conhecimento e como eles se entendem no discurso público e através dele. Em outras palavras, a infraestrutura dá legitimidade a instituições de poder.  A datificação ocorre independentemente se sabemos ou não, ela molda comportamentos, ações, interagimos com as redes sociais como se fossem sites para categorização e normalização social. Entretanto, diante de tudo isso, as antigas referências de construção da realidade e do conhecimento social não vão ruir pois dois aspectos restringem isso, mas não impedem a datificação do mundo social nem de seus potenciais problemas normativos: a tendência das instituições de manter coerência de significados quando eles tornam-se muito distintos a partir do feedback circular, referente ao conceito de habitus de Bourdieu, e o descompasso entre a semente da experiência social e como ela aparece online, que será contestada pelos atores sociais.

Dados e seus desafios para o conhecimento social

A complicação da fenomenologia se dá por conta de seu dever de registar como como os atores cotidianos estão envolvidos em trazer o funcionamento as ferramentas digitais automatizadas que medem o comportamento e a atividade on-line para a consciência cotidiana. No que se refere a categorização de dados, a ordem moral e social provavelmente será contestada. A remodelação da construção social da realidade se dá para os atores no papel dos dados nas plataformas de mídia social: a sociabilidade ao ser codificada em dados está adequada para compor os circuitos de cálculos e da personalização. Esses processos ocorrem não apenas nas plataformas, mas há muito mais quando se pensa na Internet das Coisas, cujas consequências para o mundo social são incertas.

A questão da socialização agora não depende exclusivamente dos humanos. Os processos de dados, na lógica de McDowell (1994) seriam uma terceira natureza (a primeira é a expressão biológica do ser humano, e a segunda, as instituições sociais; a socialização), já que são exteriores ao processo de conhecimento social que a fenomenologia clássica concebeu; uma natureza impulsionada pelos imperativos econômicos das indústrias de dados e por todas as metas mais amplas do capitalismo. Essa natureza exige uma adaptação: a produção de entidades que possam funcionar como sujeitos dentro deste novo tipo de ordem social. E essas entidades são os humanos, uma vantagem para fenomenologia materialista.

Assim sendo, na onda da datificação, as novas formas de produção do conhecimento social tem dois aspectos importantes: 1- produzem de forma exterior aos processos cotidianos da criação de sentidos humanos, de forma automatizada. 2- orientados por objetivos mercadológicos amplos, que divergem dos objetivos individuais, em geral. A nova ordem social é racionalizada por uma forma já racional, que não pode ser integrada as reflexões humanas individuais de forma confortável, ou seja, não refletimos sobre esse processo sem incômodos. O resultado disso é uma socialidade “computada” ou “plataformada”, que modifica os pontos de partida para a reflexividade cotidiana e a reflexão sociológica. Leituras desta nova sociabilidade podem ser positivas, mas não devem ignorar a fissura existente na produção do conhecimento social e que por conta disso alguns pedem a desconexão, porém o reparo dessa fissura pode se dar através da agência da vida social em diferentes níveis, tema que será explorado nos próximos capítulos.

Karla Cerqueira Freitas

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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