The Mediated Construction of Reality – Cap.6

Texto por Paula Paz e Lisi Barberino

No capítulo 6, os autores prosseguem sua abordagem sobre as dimensões do mundo social, desta vez detendo-se sobre o Tempo. Já de início, compreende-se a importância desta dimensão, uma vez que através o tempo é uma dimensão fundamental da vida, pois através do tempo compreendemos o processo da vida cotidiana. É necessário ressaltar que o tempo tratado aqui não será o tempo interior, subjetivo, da medida de passagem do tempo e mais o tempo enquanto parâmetro social. Cabe pontuar também que a dimensão do tempo jamais poderá ser fragmentada da esfera do espaço, conforme tratado no capítulo 5, já que a relação do tempo-espaço é que sujeita os indivíduos a uma percepção de simultaneidade, que pontua as experiências humanas. Vem desta relação a definição que os autores trazem acerca do tempo:

Time – the experience of time moment-by-moment – is therefore, in this sense, the vehicle through which individuals experience the relatedness of life, the costs and benefits of such relatedness, and the connection between such relatedness and the underlying organization of space. (p. 118)

Mais à frente, os autores retomam este tema quando afirmam que o tempo desempenha um papel ainda mais decisivo do que o espaço na formação da modernidade, porque os aspectos espaciais da vida cotidiana são mais fixos e inflexíveis, enquanto as dimensões temporais são mais fluido.

O tempo sempre foi pensado em formato relacional. A exemplo, temos as religiões com suas organizações do calendário e também os relógios. Couldry e Hepp salientam, neste ponto, o quanto os relógios são fundamentais para a compreensão da relação dos sujeitos com as mídias por três razões:

  1. as instituições de mídia operam de acordo com o tempo do relógio;
  2. a mídia é uma das instituições mais importantes para reforçar nossa consciência da passagem do tempo;
  3. a mídia faz parte da infraestrutura do tempo na modernidade em torno de pontos de referência compartilhados, como os telefones celulares.

Reforçando este postulado, os autores citam Durkheim, Beniger e Scanell, enfatizando que o tempo, no sentido de simultaneidade no espaço, é parte do que as instituições de mídia sustentam e este seria o seu mais importante papel. É esta relação que é denominada de “ordem figurada” no capítulo 1.

Outra dimensão intimamente relacionada com o tempo é a comunicação, sendo ele a única dimensão restritiva para que a comunicação seja construída no mundo social e também responsável pela sua pontuação para que haja interlocução (“agora”, “mais tarde”, etc).  O tempo é a principal dimensão pela qual a própria ordem social é trabalhada através da comunicação, os únicos limites sendo sua aceitação pelas pessoas no espaço como um exercício de poder de outro lugar. Por fim, destaca-se que, neste capítulo serão enfatizadas as pressões do tempo exercidas pela internet e sua estrutura conectiva.

Aqui se inicia o ponto “6.1 Mídia e Temporalidade do Social”, com a evocação do conceito de intersubjetividade de Schutz –  a necessidade de ser “orientado” para com os outros – e o papel das tecnologias da comunicação na manutenção da simultaneidade, sendo as relações de tempo as principais responsáveis pela operacionalização do senso de tempo que organizam as relações sociais e abstraem a subjetividade do senso de tempo interior nas interações sociais. A mídia seria o “’metrônomo social do cotidiano”, ela torna o tempo concreto: tempo individual, tempo social e os pontos de referência (por exemplo, as medição do tempo) nos quais o tempo individual e o social se baseiam, como reforça Elias:

This ‘tempo’ is in fact nothing other than a manifestation of the multitude of intertwining chains of interdependence which run through every single social function people have to perform [. . .] the tempo is an expression of the multitude of interdependent actions, of the length and density of the chains composed by the individual actions, and of the intensity of the struggles that keep this whole interdependent network in motion. [. . .] a function situated at a junction of so many chains of action demands an exact allocation of time; it makes people accustomed to subordinating momentary inclinations to the overriding necessities of interdependence; it trains them to eliminate all irregularities from behaviour and to achieve permanent self-control. (Elias, 1994 [1939], p. 457, added emphasis)

Para que as estruturas temporais dos indivíduos sejam normatizadas, é necessário também um ajuste à passagem de tempo acelerada da era da mediatização profunda, denominada por Rosa como “modernidade tardia”, e que esta coordenação seria necessária para impedir a ordem e desordem dos indivíduos na construção de elos sistemáticos entre atores e sistemas.

Couldry e Hepp, então, iniciam a seção “A distinção da simultaneidade em uma época de profunda midiatização” unificando os conceitos já apresentados argumentando o papel histórico das instituições de mídia ao sustentarem o senso de união e a coordenação prática das coletividades cada vez maiores. Para eles, hoje, com profunda midiatização, as infraestruturas de mídia e informação mantêm relações de co-consciência através do espaço e do tempo, já que a construção do acesso à Internet em muitos telefones e dispositivos móveis significa que a simultaneidade não precisa ser orquestrada apenas a partir de um centro institucional de produção, estão em rede. O resultado disso é uma aceleração relativa da transmissão digital de informação, pois os usuários não precisam se locomover através do espaço para troca de informações, estando limitados apenas com o tempo.

Essa aceleração pode ser segmentada em três diferentes fenômenos, segundo Rosa: aceleração técnica, aceleração do ritmo de vida, aceleração da mudança social e percepção da mudança social. Porém, compreendemos que o mundo social e suas figurações podem agir com força contrária ou a favor na cooperação desta aceleração, e neste equilíbrio também atua a mídia. As infraestruturas de mídia e informação alcançam além da “aceleração técnica”, elas realmente moldam as figurações através das quais essas relações intensificadas de interdependência são encenadas e, portanto, as possibilidades de ordem social através de figurações. É por isso que estes não são apenas processos de aceleração: eles sinalizam o descompasso entre as figurações do mundo social e a assimilação de uma realidade acelerada, resultando em uma sensação de “pressão contínua do tempo” e suas angústias modernas.

O tema continua na sessão seguinte, e em “Mídia e a ‘velocidade’ em mudança do desenvolvimento social” Couldry e Hepp irão iniciar com seu entendimento construção mediada do tempo enquanto socialmente construído de forma contínua.

“[t]he question of time is centred on a series of relations’ in terms of how two or more events are conceived as constituting some sort of series. […] Clocks certainly help us to measure something: nevertheless, this something is not exactly time, which is invisible, but something which is very tangible like the length of a working day or the eclipse of the moon, or the speed of an athlete who runs the 100 meters.’ The spatial extensions of our social world through social media platforms also change the durations and sequences that are considered measurable (the ‘time’ of a Facebook newsfeed is one very recent, but now pervasive, construction of sequence).”  (Cipriani, 2013, p. 14)

O fato é que a mídia, através de seu papel em possibilitar novas figurações de figurações, mudou a maneira pela qual formas particulares de processo acelerado estão interligadas com outras formas. Isso afeta a velocidade geral em que nosso senso social de tempo parece ser transformado. Um novo ritmo do mundo social se desenvolveu historicamente ao longo de várias gerações, em outra velocidade. Mas, com a incorporação de normas das plataformas de mídia social na vida cotidiana, podemos estar testemunhando uma transformação mais rápida, em uma única década, com implicações para as relações entre gerações e entre gerações (Rosa, 2013, p. 110). Para seguir, alertam os autores, não é possível esquecer das pressões universalizadoras desta nova constituição de tempo.

Ao longo da seção “6.2 Losing Time and Making Value”,  Couldry e Hepp se concentram nas mudanças nas práticas pelas quais as pessoas ‘estão no tempo’ e o papel da mídia em sustentar essas relações temporais.  Pontos importantes nessa discussão são as consequências para o mundo social das mudanças no equilíbrio da comunicação face a face  para formas de comunicação espacialmente dispersas e não-sincrônicas. Os autores apresentam as noções de “tempo denso” e “tempo fino” de Ellison (2013) para pensar nessas mudanças em termos de transição. De acordo com a autora:

‘increasing instantaneity and simultaneity [. . .] can be associated [. . .] with a concept of thin time. [. . .] Owing to the complex ways in which time becomes packeted in the digital universe, individuals have to become accustomed to processing, communicating and acting on information across a wide range of “fields” literally “instantaneously” and “simultaneously”’ (Ellison, 2013, p. 58).

A partir desse ponto, Couldry e Hepp adentram na discussão sobre “déficits de tempo”. Em como em algumas culturas midiáticas há uma senso crescente na experiência cotidiana de um déficit de tempo: “not ever having enough time to do what one has to do”. Para os autores, não se trata apenas de um fenômeno causado pela aceleração tecnológica, mas de uma mudança nas inter-relações entre práticas econômicas, culturais e sociais, afetando os mais diversos atores. A internet intensificaria esse processo por seu potencial de conexão efetivamente ilimitado, impactando, inclusive, na noção de presente: “our delineation of the everyday as a sphere of action and planning during which we are entitled to assume ‘no further change’”.

De maneira complementar, os autores passam a discutir a noção de ‘multitarefa’: “The changing distribution of work across space increases possibilities for ‘still doing’ multiple tasks even if one has moved away from the location originally associated with that task”. O senso de presente seria impactado pela multitarefa facilitada pela comunicação à distância. Um único fluxo de tempo seria gerado, com obrigações relacionadas ao tempo de diversas atividades.

Os arranjos de comunicação, portanto, tendem a gerar, a todo momento, demandas de tempo para indivíduos. Tais demandas múltiplas e impossíveis de serem cumpridas podem não ser problemáticas em um contexto de “tempo fino” – no qual não há uma estrutura normativa mais ampla para ordenar sequências de ações, mas serão profundamente problemáticas em “tempos densos” – no qual a calibração temporal de obrigações dentro de configurações particulares é intensificada.

A fim de superar a análise de nível geral, os autores apresentam práticas sociais específicas para se pensar tais transformações. Consideram a prática digital de arquivamento bom ponto de partida: “We are, through digital infrastructures, archiving all sorts of information, images and other traces of life-processes more easily”. As implicações amplas desse processo são complexas: maiores capacidades institucionais de memória requerem melhores meios para interpretar e ordenar pilhas de informações que se acumular. Por outro lado, também se torna mais complexo o descarte de incidentes e informações embaraçosas e/ou comprometedoras que aumentam riscos para os indivíduos.

Em resposta à nova intensidade dos desafios de tempo recebidos através da mídia, estaríamos desenvolvendo práticas de seleção: processos pelo qual nós paramos de fazer certas coisas que sempre costumávamos fazer; processos pelos quais nós selecionamos drasticamente do ambiente com o qual devemos interagir para torná-lo mais gerenciável.  No A fim de lidar com tais pressões, procuramos maneiras de “selecionar” a partir de nosso ambiente de comunicação, mantendo a ilusão de que ainda estamos totalmente conectados.

Selecting out is increasingly delegated to technological interfaces such as the smartphone, which offer gateways to media that are the result of intense prior selection. By choosing from a vast range of ‘apps’, people screen out much of the infinite media environment and create a ‘chosen’ interface that is both manageable and seemingly personal: this is the double level of the ‘media manifold’ in action.

Há potencial aqui para as nossas experiências se tornarem fragmentadas, mas novas formas de ligação entre diferentes locais de experiência também estariam se desenvolvendo. Há também um ponto mais amplo sobre coordenação. O problema não é apenas o de falta de tempo para reação às comunicações, mas falta de tempo para a interpretação, isto é, para ter um sentido narrativo do que se supõe estar atualizado.

Ao pensar mais sobre a ordem figuracional, os Couldry e Hepp passam a considerar as transformações derivadas da mídia nos domínios sociais do trabalho. Lee e Sawyer fazem uma distinção fundamental entre os ambientes de trabalho policrônico e monocrônico:

Individuals working polychronically place less value on temporal order, accept events as they arise and are likely to engage in multiple activities simultaneously. In contrast, people working monochronically seek to structure activities and plan for events by allocating specific slots of time to each event’s occurrence. (Lee and Sawyer, 2010)

De acordo com os autores, a maioria das organizações, por se concentrar em sistemas e objetivos comuns, assume um modo de trabalho monocrônico, mesmo se os indivíduos que operam dentro deles também operarem policronicamente: isso intensifica as pressões normatizantes das estruturas temporais. Manter um ambiente de tempo comum para o trabalho torna-se mais difícil no trabalho distribuído que, por sua vez, é facilitado em um nível geral pelas tecnologias de comunicação à distância. Esse tipo de trabalho envolve o desenvolvimento de formas eficazes de coordenação e colaboração entre pessoas que talvez não tenham trabalhado juntas antes ou que já tenham se visto antes.

Ainda seguindo o raciocínios de Couldry e Hepp, há uma tendência para a dinâmica temporal dos sistemas de comunicação sobrepor a dinâmica temporal de outros processos nos quais os atores que recebem as saídas desses sistemas podem estar envolvidos. As plataformas de mídia social parecem carregar seu próprio senso de tempo e obrigação relacionada ao tempo, como vários comentaristas notaram (Fuchs, 2014; Kaun e Stiernstedt, 2014; Weltevrede, Helmond e Gerlitz, 2014).

O problema aqui para análise é discutivelmente mais difícil do que o de apreender a ordem de domínios sociais complexos (como salas comerciais globais) construídos em muitas configurações interligadas orientadas para comunicação compartilhada e fluxos de dados. Pois esses domínios carregam suas próprias narrativas de ordem e, embora sua realidade deva ser vivida por esses trabalhadores, podemos dar sentido à ideia de que tais domínios operam dentro de limites que sustentam sua eficácia. Mais difíceis de analisar são os casos em que imperativos do sistema ligados a infra-estruturas de comunicações generalizadas surgem na vida cotidiana dos indivíduos, e onde as narrativas para dar sentido às rupturas resultantes não estão disponíveis

Por fim, os autores discutem a transformação do “aqui e agora” a partir de uma certa “perda”  da consciência associada ao “aqui agora” baseada na conexão contínua midiática.

A banal, indeed parochial, example can speak to the sort of problems emerging in many places. In the UK in September 2015 it was reported (Guardian, 4 September) that an unnamed 14-year-old boy who flirted with a girl by sending her a naked picture of himself is now recorded in a police crime database, and will remain so for at least a decade. He sent the image, presumably not thinking of its archived after-life (he might not have expected that the recipient would be quick enough to circulate the image on to others).

Karla Cerqueira Freitas

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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