The Mediated Construction of Reality – Cap.5

Texto por Allana Gamas e Marcel Ayres

Parte II – Dimensões do Mundo Social

No capítulo cinco os autores dão início a segunda parte do livro, abordando sobre Dimensões do Mundo Social, mais especificamente, o espaço.

Mesmo afirmando que o entrelaçamento entre espaço e comunicação não é algo novo, os autores destacam três aspectos de como o espaço é um meio importante pelo qual a comunicação contribui para a construção do mundo social, que são:

a) A criação de novas interações de primeira ordem, provenientes das conexões entre indivíduos distantes fisicamente possibilitadas por tecnologias de transmissão.

b) Os novos elos entre as interações de primeira ordem, que são estabelecidas por relações comunicativas de segunda ordem

c) A mudança de possibilidades de interação provocadas pelas relações comunicativas de segunda ordem, que eles trazem como exemplo a Internet.

Os autores ressaltam que a cada nova forma de comunicação a distância (seja ela carta, pombo, ou a televisão), novos tipos de espaços sociais foram constituídos. “A espacialidade da mídia sempre opera em segundo plano, deslocando a realidade social em várias maneiras.” (Couldry e McCarthy, 2004, pp.4-5). Segundo Couldry e Hepp, a mídia diversificada e a incorporação de plataformas “sociais” na interação cotidiana, envolveram um grande aprofundamento da primeira mudança, em relação às comunicações à distância. O que acarreta no problema do excesso comunicativo, que ocorre quando o volume de comunicações emitidas e recebidas, em um ponto no espaço, tornam-se muito grande de maneira arbitrária em relação à capacidade de processamento disponível. Os autores chamam atenção para o ato de que paradoxalmente, a prática das comunicações online de “agrupar” atores e processos no espaço (e no tempo) podem minar a ordem mais ampla dos hábitos e práticas da sociedade. Tendo em vista que seu “conjunto” normativo para “manter-se com as coisas” não é mais uma questão de melhorar a eficiência da resposta com uma interface, mas sim como gerir o excesso de comunicação em múltiplas plataformas independentes entre si. Os autores afirmam que, mesmo entendendo que tempo e espaço são afetados pela mesma midiatização progressiva e profunda do mundo social, separaram esses temas em capítulos diferentes para tornar a apresentação do seu argumento mais administrável. Apesar disso eles afirmam que o que importa são as relações interconectadas do tempo-espaço (Massey, 1992, pp. 79– 84).

5.1 Mídia e a mudança da espacialidade no mundo social

Os autores destacam que a mídia, principalmente as múltiplas formas midiáticas da digitalização, mudaram algo fundamental sobre a espacialidade no mundo social. Que a comunicação online não é um complemento às interações face a face, mas sim uma das maneiras básicas pelas quais nos deparamos e conhecemos as pessoas. E citam Zhao, para afirmar que nesta perspectiva, vivemos um “lá e agora” (Zhao, 2006, pp. 459-460) que complementa o “aqui e agora” da interação face a face descrita pela fenomenologia clássica.

Para os autores as duas consequências básicas disto seriam:

1º: “a internet [. . .] expandiu o mundo da vida ‘para incluir o domínio online (Zhao, 2007, p.156)

e 2º não é mais a situação face a face’ o caso prototípico da interação social ‘(Zhao, 2006, p. 417, comentando Berger e Luckmann, 1966, p. 28). ”

Ao entender que os consorciados online “tornam-se ‘fonte legítima [s] de conhecimento mútuo’ (Zhao, 2007, p. 149; contraste entre Berger e Luckmann, 1966, p. 32), muda-se a dinâmica de como aprendemos como atores sociais.  Para os autores tais mudanças na forma de configuração dos processos e recursos sociais não podem ser entendidas se pensarmos só no consumo e na produção de mídia, centrada na mídia e não no media space*. Ou seja, quando a disponibilidade (mais ou menos) contínua de um Mitwelt muda a “concepção do ‘espaço’ onde as pessoas se encontram” (entrevistado por Jansson, 2013, p. 283), então aspectos mais amplos da coordenação social também mudam.

Os autores aderem uma perspectiva geográfica porque, para eles, ela olha para as desigualdades na distribuição de recursos espaciais que podem não ser visíveis a partir de locais específicos. Eles argumentam que atender ao “espaço” significa pensar sobre a materialidade das relações. Considerando que a base do espaço nas relações materiais significa que o espaço não pode ser entendido sem alguma referência também ao tempo, o espaço não pode ser entendido exclusivamente em termos de lugar ou localidade. O espaço, na medida em que é relacional, é uma conquista dos próprios atores, à medida que constroem novas conexões materiais entre localidades que podem ser incorporadas em contextos de ação (Latour, 2005, p. 184). O argumento de Couldry e Hepp não é que o lugar, a localidade e as relações escalares desaparecem completamente, mas que eles não são o único tipo de relação espacial em um mundo de “múltiplas geografias de pertencimento” e “múltiplas espacialidades de organização” (Amin, 2002, pp. 395–396). Desta maneira, eles ressaltam que não temos escolha senão agir a partir de uma determinada localidade, já que elas não se dissolvem. Mas essas localidades mudam seu significado em um mundo social composto por conexões translocais cada vez mais complexas, e o resultado disto, é que a complexidade espacial se torna intrínseca ao mundo social: essa complexidade é encenada através das operações das figurações.

Mídia e organização do espaço social

Os autores refletem sobre a relação entre mídia e a organização do espaço social, argumentando que os locais de experiência social variam enormemente em sua organização espacial, e que a mídia desempenha um papel na formação do espaço e do território. Segundo os mesmos, a nação moderna no “Ocidente” e fora do “Ocidente” (Anderson, 1983; Thompson, 1995; Giddens, 1990; Larkin, 2008; Spitulnik, 2010) sempre foi um espaço “translocal” sustentado em parte pela produção e circulação de mídia e pela melhoria interligada de outras coisas materiais e corpos (transporte). Para os autores, a mídia digital apresenta desafios para nossa compreensão do espaço social, como as novas formas de comunicação translocal -sobretudo, via internet – que intensifica a complexidade das relações espaciais e criaram novos tipos de desigualdades espacial. ***

-“”Escada”””

Partindo da perspectiva de que as novas tecnologias de comunicação não abolem o espaço, os autores alegam que o importante para o mundo social contemporâneo é o que Boden e Molotch entendem por “distribuição ajustada de co-presença”.  Ou seja, considerando que a história das relações espaciais sempre foi uma história de exclusão, não há razão para entender que uma era de midiatização profunda seja diferente. Neste ponto os autores refletem sobre a relação entre os padrões mais amplos de ação e as restrições ocultas que moldam a distribuição de espaço. Ao abordarem sobre Espaços aumentados, os autores entendem que a possibilidade de utilização de hiperlinks e a possibilidade de diferentes caminhos ou recursos intensifica a complexidade da relação das pessoas com o espaço, pois estas podem ser diferenciadas a partir dos seus variados usos de mídia. E destacam para o fato de que por mais que a grande parte das comunicações assume algum nível de acesso à Internet, não quer dizer que todas as pessoas tenham o mesmo nível de acesso.  O resultado desse fato é que o modo de ordenação do espaço social mudou. Eles trazem como exemplo o processo de mídia locativa, o qual fornece informações relacionadas ao espaço, mas também sinaliza as posições dos atores no espaço para sistemas que rastreiam isso, criando realidades aumentadas ,processos integrados e mistos que mesclam territórios eletrônicos e físicos, criando novas formas e novos sentidos de lugar ”(Lemos, 2009, p. 96). Os autores ressaltam também o pensamento de Humphreys, o qual afirma que as noções de “mobilidade, socialidade e medialidade” convergem.

5.2 Práticas comunicativas e Relações Espaciais

Nesse tópico os autores refletem sobre “onde estamos” com e através da mídia. Se, antes da era digital, estávamos onde nossos corpos estavam, como nos localizar no contexto de midiatização profunda?

Para eles, mesmo que os indivíduos não estejam numa situação de imersão em algum game, eles ainda assim podem estar envolvidos através da mídia em um número significativo de interações não-lúdicas com outros indivíduos distantes. Mesmo estando sentadas em uma sala, ou em um café, as pessoas podem estar comentando e interagindo no Twitter, Facebook, chat, e-mail etc, ou seja, espaços de interação “ao vivo” envolvendo um fluxo de outros, mas com conteúdos midiáticos mais tradicionais sendo assistidos em segundo plano. Os autores argumentam que o ‘onde’ do mundo social pode estar mudando para os locais sustentados por plataformas de mídia e interações das pessoas com e através deles.  E refletem sobre as consequências destas extensões em exemplos como o da telemedicina, onde a reorganização espacial das pessoas, recursos e fluxos de informação no complexo processo de cuidar de pacientes a distância física. Eles consideram também como vários atores, coordenados por múltiplos sites, podem se co-orientar para uma realidade distante de todos eles, através de um processo que Schutz e Luckmann chamavam de “representação”, isto é, a percepção de algo “como presente quando não temos experiência original dele” (ver Campangnolo et al., 2015, discutindo Schutz e Luckmann, 1973). ” Segundo os autores, a transformação das práticas de trabalho pelas tecnologias de mídia tem paralelos na prática familiar, mesmo para as famílias que não estão sempre espalhadas pelo espaço, as TIC e as mídias móveis permitem que elas coordenam suas atividades e seus pensamentos e intimidades, enquanto suas trajetórias espaciais são temporariamente dispersas (Wajcman et al., 2008; Green, 2002). Contudo, os autores ressaltam que se essas várias formas de laços intensificados são, em geral, positivas para as famílias é uma questão muito mais complexa: Christensen já observou o “duplo papel” das tecnologias da mídia em “integrar e dispersar famílias” (2009, p. 439). Para os autores ao estender o espaço (e o tempo) quando a pressão dos pares pode ser comunicada e modulada aumenta o escopo da vigilância mútua. Problemas relacionados ao aumento da intimidação em ambientes digitais, juntamente com os benefícios que os acompanham, importam porque transformam relações de significado, como deixa clara a pesquisadora mexicana Rosalía Winocur: ‘não é a convergência digital em si que provoca as transformações nos reinos da sociedade e comunicação, mas a forma como as suas possibilidades são imaginariamente transpostas para as diversas condições socioculturais da vida quotidiana dos jovens [. . .] [pela] confluência de significado que ele organiza ”(Winocur, 2009, p. 184, acrescentou ênfase).

-Transformações mais complexas

Ao refletir sobre transformações mais complexas, Couldry e Hepp afirmam que os meios de comunicação de base tecnológica permitem tipos inteiramente novos de espaço de trabalho e de relação de trabalho e, assim, ajudam a sustentar novas práticas de trabalho.  O resultado —- (13) é uma transformação do que conta como realidade para os milhares de atores envolvidos: “a tela não é simplesmente um” meio “para a transmissão de mensagens e informações. Ou seja, é a criação de um novo espaço não apenas de visão, mas de ação. Os autores utilizam do argumento de Hartmut Rosa  para afirmar que por estar mais conectado através da mídia digital, podemos nos tornar mais auto-suficientes em qualquer lugar e, portanto, menos necessitados de mobilidade, ainda assim  o tempo de comunicação face a face ainda conta muito, esse paradoxo é provavelmente mais aparente do que real. Considerando que as telas atuam filtrando os múltiplos fluxos de eventos, dados e ações organizadas em um fluxo contínuo de ‘informação’ e desta forma fornecem o foco compartilhado de atenção para micro interações entre atores em múltiplos locais, o que traz  ‘o territorialmente distante e invisível’ próximo a “Aos participantes, apresentando-os de forma interativa ou de resposta” (Knorr-Cetina and Bruegger, 2002, p. 392). Os autores argumentam sobre “meios escópicos” os quais apresentam e projetam visualmente eventos, fenômenos e atores que, de outra forma, seriam separados pela distância e não seriam visíveis de um único ponto de vista” (Knorr-Cetina, 2014, p. 43), refletindo sobre a transformação do que conta como realidade para os milhares de atores envolvidos: “a tela não é simplesmente um” meio “para a transmissão de mensagens e informações. É um local de construção em que todo um mundo econômico e epistemológico é erguido” (Knorr-Cetina e Bruegger, 2002, p. 395). Destacam também a questão da mídia locativa, que segundo os autores, pode ser incorporada ao comportamento coletivo, mas sempre contra o pano de fundo de normas e histórias culturais distintas, ou seja, dadas as atitudes culturais, a plataforma permite uma forma de coordenação social através do espaço. E destacam as variadas formas de uso, em diferentes lugares dos recursos de tecnologias, consideram também das diferentes circunstâncias econômicas, regulatórias e culturais, e afirmam que por estar mais conectado através da mídia digital, podemos nos tornar mais autossuficientes em qualquer lugar e, portanto, menos necessitados de mobilidade. Contudo, eles destacam que a comunicação face a face ainda conta muito e afirmam que é enganoso ver todas essas transformações como envolvendo apenas o espaço, pois a trajetória de todas essas transformações não é apenas aumentar a mobilidade, mas também aumentar a capacidade das pessoas de agir.

5.3 Software e espaço social

Neste tópico os autores refletem sobre como a experiência do espaço social está agora sendo transformada pela incorporação de TICs e processos de dados de profunda midiatização.

Afirmando que o espaço social está sendo transformado pela capacidade de “outros invisíveis (ou sistemas invisíveis) nos verem de uma distância variável, se estamos parados ou se movimentando. Para os autores, atualmente existem muitos espaços (os chamados “códigos / espaços”) que são constituídos apenas e inteiramente através da operação do software e que a incorporação deste na organização da vida cotidiana é de grande importância ainda maior, mas é menos claro se mostra que o espaço está mudando como está. O mundo social está cada vez mais sujeito a um controle diferenciado através dos sistemas de softwares cada vez mais exigentes, e este controle afeta o movimento físico mas pode segregar e ordenar espaços não físicos. Os autores finalizam o capítulo refletindo que o espaço cotidiano na era digital não é apenas mediado, mas “conectado”, isto é, suas possibilidades de ação são estruturadas pelo trabalho hierárquico e diferenciador das redes informacionais. A superfície espacial da realidade cotidiana desenvolve novas tecnologias que ligam conjuntos de pessoas a certas possibilidades de ação, mas cortam outro conjunto de pessoas dessas mesmas possibilidades e afirmam que as condições espaciais de auto formação na realidade cotidiana estão mudando significativamente.

Karla Cerqueira Freitas

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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