The Mediated Construction of Reality – Cap.4

Texto por Mayara Carvalho e Maurício Moura

4. Como vivemos com a mídia

Nesse capítulo o foco dos autores é dissertar sobre a maneira como as relações têm sido estabelecidas com as mídias. Couldry e Hepp iniciam com um questionamento acerca de como tem sido a convivência diante da complexidade advinda da “interdependência institucionalizada” nas ações diárias com a mídia, haja vista que a mesma viabiliza uma distinta forma de “complexidade social”.  Para tanto, utilizam também o termo “mídia múltipla”,  como forma de melhor elucidar tal contexto.

Os autores chamam atenção ainda para a necessidade de que seja ampliado o conceito, advindo das ciências sociais, de “configurações”. E insistem que os termos mais recorrentes, “redes” e “assemblage”, para tratarem da questão têm sido inadequados para compreender os diferentes processos de institucionalização, próprios da vida social “em condições de profunda midiatização”.  

Couldry e Hepp assumem enquanto desafio o desenvolvimento do conceito de figuração, de Norbet Elias, na condição de ferramenta analítica capaz de auxiliar na compreensão dos muitos níveis de complexidade que advém da vida social. Para tanto, fará uso do conceito estendido de “configurações de figurações”. Salientam ainda a importância da compreensão acerca da sistematicidade (Walby, 2007), de modo que se faz necessário “refletir sobre a natureza profundamente interconectada de infraestruturas e processos organizacionais”.

Considerando ainda que é indispensável aprofundar no que se refere ao entendimento do que o conceito “sistema tecnológico” pode significar em um contexto social. Os autores notam também que tratar o mundo social em termos de “topologia” traz implicações um tanto problemáticas, ressaltando que, confusamente, no entanto, a noção de topologia foi adotada na ciência social como um substituto para a fluidez, não invariância.

Sendo assim considera-se a topologia relevante para compreender o mundo para além da matemática se for para viabilizar uma “tradução técnica” ou “mapeamento funcional” no que tange ao campo da “atividade matemática” e “social”, ou atividade cultural. (Phillips, 2013, p.13)

Os autores defendem que são necessários entendimentos alternativos acerca da complexidade da nossa vida contemporânea com os meios de comunicação que não funcionam por meio de metáforas, mas enfatizam as preocupações centrais da teoria social.  

O sociólogo Norbet Elias construiu uma teoria social como forma de descrever um mundo social cada vez mais complexo, de forma que não fosse reduzido à uma descrição funcional ou metáfora pura. Elias entendia o mundo entendia o mundo social por meio de suas formas cada vez mais complexas de entrelaçar seres humanos em relações de interdependência, as quais ele nomeou como “figurações”. Elias traz ainda que: “os índices de complexidade apresentados aqui talvez possam ajudar a fazer com que os assuntos do dia-a-dia pareçam bastante estranhos. Isso é necessário se quisermos compreender por que o campo de investigação da sociologia da investigação ‘os processos e estruturas de entrelaçamento, em síntese, as sociedades’ é um problema comum a todos.” (Elias, 1978, p. 103).     

4.1 Além de redes e montagens

Couldry e Hepp trazem que, no que se refere aos conceitos de “rede” e “montagem” ambos visam capturar relações estruturais mais complexas e assumem alguma noção de como o mundo social se mantém de forma regular e ordenada. A ideia de analisar redes remonta há muitas décadas e gerou um importante ramo da metodologia das ciências sociais.      

“Rede” é uma metáfora estrutural para descrever as relações dos atores humanos dentro de uma determinada entidade social (grupo, família, etc.) e entre essas entidades. A pesquisa em rede se desenvolveu muito antes da internet e dos processos contemporâneos de midiatização profunda.

Barry Wellman (1997) aplicou o conceito de rede para entender como os “grupos eletrônicos” operam: à medida que a intensidade da infraestrutura conectiva da internet se desenvolvia, também as noções de individualismo em rede ”(Wellman et al., 2003, p. 3) e a possibilidade de conceber o próprio social como baseado em um novo“ sistema operacional ”(Rainie e Wellman, 2012). A sociedade aparece como uma rede grande e complexa: “sociedades – como sistemas de computadores – têm estruturas em rede que fornecem oportunidades e restrições, regras e procedimentos” (Rainie e Wellman, 2012, p. 7).

Castells defende que as redes são “estruturas complexas de comunicação” (Castells, 2009, p. 21) as quais são transformadas, à medida que as próprias tecnologias de mídia mudam, tornando possível o que ele chama de “autocomunicação de massa” (Castells, 2009, p. 55), como indivíduos cada vez mais, se muito desigualmente, têm acesso à capacidade de ‘broadcasting’ (radiofusão) que anteriormente era reservada às instituições.

Trabalhos mais recentes desenvolveram mais o conceito de “rede” (Wasserman e Faust, 1994, pp. 729-731; Castells et al., 2011, pp. 788-790), distinguindo entre redes nas quais muitas modalidades operam em um mesmo nó (“redes multimodais, uniplex”) e redes nas quais múltiplas relações (do mesmo tipo) se estendem a partir de um único objeto (“redes multiplataformas unimodais”).

Todas essas abordagens de análise de redes contribuem com algo valioso para nossa compreensão geral de como o mundo social é construído, porque mapeiam a dinâmica de mudança das ‘constelações de fatores’ (Schimank, 2010, p. 202). Os usos da mídia são claramente cruciais para essa dinâmica de rede (Baym, 2015, pp. 101- 102, 112-141).

O problema da “rede” como conceito é que reduz o mundo social a nada mais que as constelações de atores das redes. Por mais que tentem reconhecer a importância também da “produção de sentido” nas redes de comunicação (Castells, 2009, p. 21) ou as “histórias” que “marcam laços dentro das redes” (White, 2008, p. 20), os principais teóricos que tratam do tema são incapazes de integrar esses processos de significado em seu quadro geral de como o mundo social é construído. O entendimento de “sociedade da rede” ainda reificam as redes como entidades que podem simplesmente ser posicionadas contra outros grupos sociais, sem considerar toda a complexidade das relações contextualizadas de interdependência nas quais redes e grupos estão inseridos. 

No que se refere ao termo “assemblage”, em contrapartida, foi desenvolvido primeiro nas artes para descrever colagens e, mais recentemente, adquiriu uma rica trajetória filosófica que captura “todos” caracterizados por relações de exterioridade (Deleuze e Guattari, 2004 [1980]).   

Em francês, a palavra não é “assemblage”, mas “agenciamento”, que significa “arranjo” ou “encaixe”, como o arranjo das partes de um corpo (ou máquina) ou o encaixe de duas ou mais partes juntas (ver Phillips, 2006; Bucher, 2012b, p. 481). Nas ciências sociais, “assembléia social” passou a se referir a um “conjunto de corpos humanos propriamente orientados (física ou psicologicamente) um para o outro” (DeLanda, 2006, p. 12), mas sem nenhuma suposição de que eles formam uma unidade natural ou funcional.

A ênfase anti-funcionalista do trabalho em “assembléias” é bem adequado para ajudar a captar a contribuição de muitos elementos heterogêneos nos arranjos históricos contingentes que possam ser a chamados de “media” (Slater, 2013, pp. 27-67). O termo “assemblage” é valioso, porque auxilia no entendimento da variedade de maneiras pelas quais as práticas comunicativas (de todo tipo) estão hoje profundamente interligadas com as tecnologias de mídia (de todo tipo) e tal entendimento será a base para o trabalho que seguirá.

            Os autores irão além da rede e do agenciamento para explorar um conceito diferente para compreender nossa vida dentro da complexidade da mídia múltipla: o conceito de figurações.

No que se refere ao termo “rede” os autores apontam o fato de ser frequentemente usado de uma maneira bastante metafórica, para descrever apenas o fato de que diferentes coisas e fatos “se juntam” em um campo de interesse, o que por sua vez diz pouco sobre o tipo de junção e as formas variadas de ordem de trabalho. 

Em segundo lugar, muita escrita sobre os agenciamentos envolve a afirmação de que a “ontologia” das assembleias é plana, não contendo nada além da singularidade individuais de dimensões diferentes (DeLanda, 2006, p.28).  

Dois questionamentos são salientados, um acerca das formas de relacionamento estrutural e suas consequências para além do próprio agenciamento particular e sobre se quando os objetos materiais são organizados de maneira a ajudar a estabilizar os processos sociais, os arranjos são todos iguais.

Segundos os autores a força da “rede” é a atenção às características estruturais das constelações de atores, enquanto a força da “assembleia” é sua atenção aos detalhes da prática e seu envolvimento com as tecnologias materiais.

4.2 Figurações para viver com a mídia

O sentido por trás do termo “figurações” para Elias era criticar “formas de falar” (Elias, 1978, p. 13) sobre o mundo social. Não há mundo social “abaixo e acima” das inter-relações dos indivíduos, e nenhum indivíduo é compreensível fora de sua inclusão no mundo social (Elias, 1978, p. 14f., 128f.). É por isso que se faz necessário pensar em entidades sociais como figurações que são formadas e reformadas, em um processo aberto.

Entendendo figurações    

Em sua forma mais básica, a figuração é “uma ferramenta conceitual simples” (Elias, 1978, p. 130) para permitir um pensamento em que “o indivíduo” e “sociedade” não são tratados como antagônicos. Uma figuração é uma espécie de “modo [l] de processos de entrelaçamento” (Elias, 1978, p. 130), uma interação mais ou menos estável de indivíduos que produzem nesta inter-relação certo tipo de significado social. Dito de outra forma: figuração significa o  “padrão de mudança criados pelos jogadores como um todo – não apenas por seus intelectos, mas por todos os “Eus”, a totalidade de suas relações em seus relacionamentos uns com os outros “(Elias, 1978, p. 130).

Ao seguir Elias, a ideia fundamental é entender mais ou menos as formações     duráveis da sociedade e dos seres humanos como figurações: elas são constituídas por interdependências e interações dos indivíduos envolvidos e pode ser caracterizado por um certo “equilíbrio de poder” (Elias, 1978, p. 131), isto é, relações de poder. Os limites de cada figuração são definidos pelo significado compartilhado que os indivíduos envolvidos produzem através de suas práticas sociais inter-relacionadas, que é também a base de sua orientação mútua para o outro.

O próprio Elias enfatizou repetidamente a relação de sua ideia com a categoria estrutural da rede, por exemplo, quando ele descreve a inter-relação dos indivíduos em figurações como “redes de indivíduos” (Elias, 1978, p. 15). Ele argumenta também que “figurações sociais” é uma espécie de “rede humana” (Elias, 1978, p. 20) ou “Rede ordenada” (Elias, 1978, p. 84). A ideia de figuração tem paralelos com os conceitos de rede.  

Elias vai muito além da rede como uma metáfora. Este último é útil para analisar as inter-relações de atores em uma figuração e descrever algumas características fundamentais delas como “modelos de entrelaçamento” (Elias, 1978, p. 80).

Couldry e Hepp afirmam que, uma abordagem figurativa significa considerar também as relações de poder, os papéis característicos na constelação de atores de uma figuração e os significados gerais que são assim produzidos. A figuração também tem certos paralelos com o agenciamento, pois ambos descrevem o mundo social em termos de processos de entrelaçamento mútuo dos indivíduos.

Para Latour a figuração não é apenas uma figuração de atores humanos como “existem muito mais figuras do que antropomórficas” (Latour, 2007, p. 53) e devemos, ele argumenta, analisar figurações de seres humanos e não-humanos. (Latour, 2007, p.71).

Elias, ao refletir sobre o papel dos objetos e tecnologias nas figurações (ver Elias, 1991, pp. 162–164), sempre faz uma clara distinção analítica entre objetos e atores humanos – Ponto esse que será retomado, devido a sua importância.

Uma abordagem figurativa permite integrar os pontos fortes das análises de redes e assembléias – seu foco, respectivamente, nas constelações de atores e da sociomaterialidade -, ao mesmo tempo em que vai explicando como a complexidade das práticas comunicativas funciona, defendem Couldry e Hepp.

A noção de figuração de Elias foi introduzida como uma maneira de mudar as ciências sociais – “meios de falar e pensar”. Elias defende ainda que, é necessário apreender “o tipo especial de ordem associado aos processos de entrelaçamento social”, que significa “começar [ing] [. . .] das conexões, os relacionamentos e trabalho [ing] [. . .] de lá para os elementos envolvidos neles (1978, p. 116, acrescentou ênfase). Uma “figuração” é “um trabalho de treliça flexível de tensões” (1978, p. 130) que, embora seu desenvolvimento seja aberto, permanece regular e interconectado o suficiente para formar algo relativamente estável, e assim vale a pena analisar como um padrão.

Os autores afirmam ainda que, a força da figuração está na base de uma compreensão das relações de significado. Elias escreveu que “o comportamento de muitas pessoas separadas se entrecruza para formar estruturas entrelaçadas” (1978, p. 132, grifo nosso).  

Couldry e Hepp afirmam que o termo “entrelaçamento” soa como uma mera metáfora a qual carrega alguns possíveis entendimentos: primeiro, um ciclo de feedback (comum com a teoria da complexidade, a teoria dos sistemas e a teoria das assembléias); segundo, um loop de feedback cujos caminhos são compostos de práticas interligadas, agindo de volta sobre si mesmos; terceiro, práticas que se interligam porque, como significados, estão em um relacionamento mútuo, respondendo, convidando, desafiando, questionando e assim por diante. Os elementos de uma figuração só têm uma forma comum, porque há algo em jogo neles, algo que importa para os atores envolvidos.

Em tempos de uma midiatização profunda é possível identificar muitos exemplos de figurações.  Podem envolver, em uma extremidade do espectro, cadeias de troca de fotos no Flickr e tópicos de informação ou debate no Twitter e (no final mais elaborado do espectro) toda a ecologia interligada da circulação de mensagens baseada em plataformas na qual, Por exemplo, promoções de celebridades, construção de amizade ou promoção de projetos agora evoluem podem envolver, em uma extremidade do espectro, cadeias de troca de fotos no Flickr e tópicos de informação ou debate no Twitter e (no final mais elaborado do espectro) toda a ecologia interligada da circulação de mensagens baseada em plataformas na qual, por exemplo, promoções de celebridades, construção de amizade ou promoção de projetos agora evoluem. Sua dinâmica também não pode ser entendida, exceto dentro de uma estratégia maior para construir uma infraestrutura para a sociabilidade online, que é uma característica da onda de digitalização.

As características básicas das figurações

À medida que uma figuração se une, ela começa a estabilizar as relações entre o que até então eram locais diferentes de práticaCada figuração envolve uma constelação distinta de atores, os indivíduos em uma figuração não são apenas uma acumulação aleatória de indivíduos. Eles estão relacionados uns com os outros de maneiras típicas, por exemplo, porque eles têm papéis específicos na figuração (pais e filhos de uma família). Uma figuração é uma constelação de “seres humanos” (Elias, 2003, p. 89).

Objetos e tecnologias não fazem parte da constelação de atores que se entendem agindo juntos dessa maneira.  Figuras podem existir sem objetos e tecnologias, mas não podem existir sem indivíduos. Sua constelação de atores é mais fundamental para uma figuração do que os objetos e tecnologias envolvidos nela. É um arranjo de ações individuais que é característico dessa figuração, mas a constelação também está aberta a mudanças.

Cada figuração é baseada em certas práticas distintas de comunicação e um conjunto de mídias relacionadas (Bausinger, 1984, p. 349). As figurações envolvem maneiras de fazer certas coisas em conjunto, ou em coordenação, muitas vezes com e através da mídia.

Embora não seja necessariamente uma característica constitutiva das figurações – como quadros de relevância, constelação de ator e práticas (de comunicação) – as figurações normalmente vêm junto com certos objetos e tecnologias.

O desenvolvimento de figurações como padrões de comunicação no qual algo distintivo está em jogo surge através das inter-relações entre três dimensões: quadros de relevância, constelações de atores e práticas comunicativas, que têm como base um conjunto particular de objetos e tecnologias de mídia. Tais dimensões são relativamente autônomas, mas, como cada uma delas está envolvida na situação em que a ação ocorre, os processos de agir juntos geralmente tendem a reforçá-los e a estabilizar os padrões de associação entre eles. Todas essas dimensões são baseadas em relações de significado.

Poder e pertencimento

Arranjos sociais maiores que emergem através de figurações, são possíveis de serem abordados de dois ângulos: poder e pertencimento. Há a possibilidade de dupla perspectiva, por um lado pergunta-se como as figurações internamente podem ser caracterizadas por suas relações de poder e pertences e, por outro, como as figurações constroem poder e pertencimento externamente no mundo social mais amplo. Cada figuração tem uma constelação de atores distinta, com certas relações de poder características.

Figuras particulares são caracterizadas por certas “dinâmicas figurativas cheias de conflitos” (Dunning e Hughes, 2013, p. 63).  As relações de poder nas figurações não são apenas uma questão de posicionamento na constelação de atores. Eles têm muito a ver com práticas de comunicação que dão sentido a essas relações de poder. Analisar o poder nas figurações envolve pelo menos três níveis: o posicionamento na constelação de atores, as práticas que sustentam as relações de poder e a inscrição de poder no conjunto de mídias.

Figurações também estão intimamente envolvidas na construção do pertencimento. A pertença pode ter um significado puramente situacional. Hoje, as ocasiões para figurações com um significado contextual tão intenso estão cada vez mais entrelaçadas com a mídia. E com a mídia digital, tem-se as novas figurações de encontros on-line – em bate-papos, em plataformas, por meio de aplicativos – através do qual é construída uma intensa pertença situacional entre si.

Figurações e infraestrutura de mídia

Couldry e Hepp enfatizam o objetivo de ir além dos limites do conceito original  de figurações, que foi desenvolvido por Elias. Desde o final da década de 1960 até a década de 1980 – tudo antes do surgimento da internet como uma infra-estrutura para interação social cotidiana – Elias oferece basicamente uma metáfora hidráulica para capturar o processo pelo qual seres humanos específicos se tornam cada vez mais interdependentes através do fluxo de significados, promessas, obrigações e desempenhos.

Contudo suas próprias reflexões posteriores, já na década de 1980, reconheciam que as tecnologias de mídia e comunicação e os sistemas de grande escala que elas geravam já estavam intensificando a complexidade do social e seus graus de interdependência, gerando “flutuações” no que poderia ser chamado de “pressão social”, em particular a “pressão interna” em uma sociedade”  (Elias, 1991, p. 145).

Certos tipos de figurações – associados a conjuntos distintos de tecnologias de mídia – geram obrigações e dependências não apenas entre indivíduos, mas também entre indivíduos e sistemas de comunicação, obrigações que são características distintivas de como vivemos dentro da mídia, mas que também caracterizam novos tipos de figuração.

Todos estes meios contribuem para a construção em curso de um grupo de pessoas como uma família, com todas as suas contradições, conflitos, etc. Assim como com as figurações das organizações onde, com “computação ubíqua”, tanto dentro como fora de sua estrutura formal, alguns argumentam, “tornou-se cada vez mais difícil separar as interações das pessoas com outras pessoas das interações das pessoas com as tecnologias” (Contractor et al., 2011, p. 684).

Os autores consideram importante dar um passo adiante: o conjunto midiático de   certa figuração é significativo na maneira como molda suas diversas práticas de comunicação. As possibilidades materiais da mídia contemporânea e de infra-estruturas relacionadas oferecem melhores chances de sustentar a figuração familiar de uma maneira particular, assim como também moldam as  práticas de comunicação.

Figurações produzem certas necessidades de comunicação e, portanto, são uma fonte contínua para o desenvolvimento de novas tecnologias de mídia e adaptação do presente. “As novas tecnologias são apropriadas dentro de um conjunto de mídia de figuração (Silverstone e Hirsch, 1992; Mansell e Silverstone, 1998; Berker et al., 2006), possivelmente alterando a figuração e gerando novas demandas por mídia. e assim por diante em um loop de feedback interminável. Isso oferece novamente chances de novas adaptações de mídia por “produtores” e “projetistas”.

Muitos dos desenvolvimentos de mídia mais recentes referem-se às necessidades humanas fundamentais de conexão. Isso é reproduzido, institucionalizado e materializado na conectividade das plataformas digitais (van Dijck, 2013, pp. 46-50). Compreender a vida com a mídia implica,  consequentemente, compreender uma gama cada vez mais complexa de figurações relacionadas à mídia.

 4.3 O Escalonamento e Transformação de figurações

Existem figuras de complexidade muito maior, por exemplo, a figuração do mercado financeiro global. Diante do que os autores trazem a seguinte indagação: Como é possível apreender figuras como essas sem se tornar puramente metafórico? Fazer essa pergunta significa começar a pensar sobre o que podemos chamar de “escalonamento” de figurações.

O escalonamento é vastamente discutido na teoria da complexidade como um termo para “descrever como uma propriedade de um sistema mudará se uma propriedade relacionada mudar” (Mitchell, 2009, p. 258).  

O mundo social é uma variedade de dimensões mais elevadas dentro da qual podemos distinguir dois princípios distintos de escala ou complexificação: escalonamento através de relações entre figurações e escalonamento através dos arranjos significativos de figurações.

Relações entre figurações

Há duas formas de relacionar as figurações umas às outras: primeiro, ligando diretamente as suas constelações de atores e, segundo, construindo figurações de figurações. Seguindo os elos entre as constelações de atores, compreende-se como uma determinada empresa é estruturada internamente e como suas relações de poder funcionam.

Formas semelhantes de relacionar figurações através de atores-constelações ligadas podem ser encontradas em outras partes do mundo social: em relação às várias associações de vida pública e privada, instituições educacionais, partidos políticos etc.

Um modo mais complexo de juntar as figurações é o que denomina como figurações de figurações.  Nesse caso, a constelação de ator de uma figuração consiste não apenas de atores individuais, mas de “atores individuais” (Schimank, 2010, p. 327).

Saskia Sassen (2006) usa o termo “figuração” similarmente para descrever relações européias ou mesmo globais de estados, empresas e outros tipos complexos de atores. ”.  Analiticamente falando, os atores supra-individuais são sempre “atores em conjunto” (Scharpf, 1997, p. 42-50), isto é, atores feitos de atores individuais, ou compostos de figurações de atores individuais. Como conseqüência, a ação desses atores supra-individuais não é outra coisa senão a agência produzida por essa figuração.

A agência supra-individual de espectadores de eventos não tem sustentabilidade além do evento; a “figuração estabelecida e de fora” no subúrbio investigado por Norbert Elias e John Scotson (1994 [1965]) também é conflituosa demais para ter uma agência compartilhada.

No mundo social contemporâneo, existem dois tipos de figurações nas quais é esse o caso: “atores coletivos” (ou “coletividades”) com intensos padrões compartilhados de interpretação, como nos movimentos sociais; e “atores corporativos” (ou “organizações”), como empresas e autoridades públicas, associações e clubes nos quais acordos vinculantes sobre sua agência são construídos em procedimentos de negociação mais ou menos formais (Schimank , 2010, p. 329-341).

Uma perspectiva figuracional, portanto, não é apenas reconhecer que grupos, organizações, cidades e nações são tipos diferentes de indivíduos “montados” (DeLanda, 2006, pp. 47-119). Mais importante é analisar a inter-relação das figurações envolvidas, seus ator-constelações, suas práticas e as novas relações de significado (incluindo pressões para sustentar novos quadros de relevância, ator-constelações, práticas em conjuntos comuns e subjacentes de mídia) que resultam da construção de figurações pré-existentes em um arranjo maior, ou figuração de figurações.

Atores coletivos, como movimentos sociais e outros atores corporativos, usam a mídia para construir sua agência comum de várias maneiras. Pode ser através de comunicação compartilhada via plataformas digitais como em muitos movimentos sociais contemporâneos (Mattoni e Treré, 2014), ou pode ser através de processos de comunicação organizados como em muitas empresas (Orlikowski, 2010).

As plataformas de mídia social fornecem um espaço para que as configurações específicas sejam sustentadas ou criadas: a estrutura geral de interdependência que resulta inclui também as relações estabelecidas entre as pessoas com a plataforma subjacente.

Arranjos significativos de figurações      

Há um segundo princípio para dimensionar as configurações: arranjos significativos. As figurações do mundo social também têm  arranjos significativos entre si. As construções de algumas figurações como ‘poderosa’, ‘pública’, e assim por diante, e outras como ‘fraca’, ‘privada’, e assim por diante são apenas parcialmente explicáveis ??através da inter-relação de seus atores ou através da composição de “figurações de figurações”.

Universos simbólicos eram, para Berger e Luckman, “totalidades significantes” que compartilham uma compreensão geral do mundo social. Eles oferecem um “quadro de referência abrangente, que agora constitui um universo no sentido literal da palavra, porque toda a experiência humana pode agora ser concebida como ocorrendo dentro de dentro” (Berger e Luckmann, 1966, p. 114).

Couldry e Hepp salientam o esforço em insistir na importância de tais discursos de conexão em que o ‘macro’ se torna embutido nas especificidades das ações do ‘micro’ através de relações de significado. Em outras palavras, os atores individuais aprendem a agir em um mundo social caracterizado por discursos sobre o que é a ‘sociedade’ e como ‘a sociedade funciona’ (nesse sentido, o ‘macro’ é sempre presente no ‘micro’: Morley, 2000, pp. 9 – 12).

O que chamamos de “sociedade” é muito mais do que um contêiner para diferentes configurações (Beck, 2000b, pp. 23-26); em vez disso, é o “balanço” geral de figurações (e figurações de figurações) através dos muitos domínios de ação associados a um grande território espacial.  

Mas é suficiente mencionar que os mitos atuais deste tipo vão muito além das alegações de legitimidade das antigas instituições de mídia (por exemplo, grandes mídias públicas), e abrangem as afirmações míticas sobre coletividades reunidas em plataformas de mídia social e o acesso para o “social” supostamente alcançado através de “grandes dados”.

Figurações e transformação social

            Na perspectiva do processo que foi tomado aqui, nenhum fenômeno social é dado. Mesmo as figurações que permanecem por muito tempo – as mesmas – figurações de organizações religiosas, por exemplo – precisam ser construídas como “as mesmas” por meio de ação e interpretação. Qualquer descrição de transformação figuracional em larga escala é necessariamente complexa.

Os autores questionam sobre “que peso finalmente devemos dar às tecnologias de mídia de comunicação em tais transformações?” Um conjunto de mídias mutáveis só resulta em transformação se as práticas de comunicação de uma figuração também são transformadas e com elas as maneiras pelas quais o significado é produzido dentro dessa figuração.

O conjunto de meios de comunicação é feito para mudar porque pelo menos alguns dos atores esperam alcançar melhor seus objetivos. Os aspectos internos e externos de uma figuração podem se transformar fundamentalmente em um ambiente de mídia em mudança. Isso tem a ver com novas possibilidades de como as figurações podem se relacionar umas com as outras.

A característica fundamental de cada meio é que ele oferece possibilidades de agir além do aqui e agora e, com isso, ampliar o alcance da agência humana. Elias notou que “correntes de interdependência se tornam mais diferenciadas e crescem mais”, e assim “tornam-se mais opacas e, para qualquer grupo ou indivíduo,  mais incontroláveis” (Elias 1978, p. 68).

Uma família pode manter-se unida enquanto está localizada ao mesmo tempo transnacionalmente. Isso não significa que a localização deixe de ser importante em uma época de profunda midiatização. Pelo contrário, nossas relações com a mídia multiplicam locais privilegiados de alta conectividade de mídia (Zook, 2005): através de tais locais, as figurações podem se espalhar muito mais facilmente e entrar em contato umas com as outras. A vida com a mídia na era da mídia múltipla é inseparável, argumentamos, do envolvimento em uma variedade de diferentes figurações que existem em constelações complexas e às vezes contraditórias.

Karla Cerqueira Freitas

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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