The Mediated Construction of Reality – Cap.3

Texto por Karla Freitas e Adriana Silva

Parte I – Construindo o Mundo Social

3. A história como Ondas de Midiatização

A proposta dos autores para este capítulo é de oferecer uma releitura da história da mídia e das comunicações, como um ponto de partida para um argumento teórico sobre como a construção do mundo social através das comunicações mudou ao longo do tempo.

Algumas versões da história da mídia tendem a oferecer uma narrativa de como a influência da mídia supostamente transformou a sociedade, ignorando as muitas camadas de comunicação sobrepostas (atos, práticas, formas, padrões) pelas quais o mundo social é construído.

Os autores ressaltam a necessidade de “uma compreensão mais ampla da midiatização, da cultura e da sociedade para compreender as transformações atuais do mundo social e nosso “ambiente midiático” (Hasebrink e Hölig, 2013)”. (pg34)

É fundamental para pesquisa em comunicação especialmente Cultura digital compreender que: “O papel das comunicações na história não se move, como uma corrida de revezamento, de um meio “influente” para outro. É antes uma envolvente contínua e cumulativa de comunicações dentro do mundo social que resultou hoje em relações cada vez mais complexas entre o ambiente midiático, os atores sociais e, portanto, o mundo social”.

Os autores dividem a história da midiatização, dos últimos cinco a seis séculos, em três ondas sucessivas e sobrepostas nas quais as formas de comunicação se desenvolveram e suas inter-relações se tornaram significativamente mais complexas: 1) a onda de mecanização, 2) a onda de eletrificação e 3) a onda de digitalização. Para eles, vivenciamos um 4º momento, a onda de informação. Reunidas a digitalização e a informação correspondem a fases de midiatização profunda, porque estariam associadas a uma incorporação mais intensa do que nunca da mídia nos processos sociais.

Berguer e Luckmann apresentam o termo “mídia múltipla” – isto é, um grande “universo” de mídias digitais conectadas através das quais (em várias figurações) atualizamos as relações sociais – como forma de capturar as múltiplas relações o ambiente global da mídia que caracteriza a vida cotidiana em tempos de profunda midiatização.

3.1 Mediatização numa perspectiva transcultural

Os autores iniciam este tópico destacando a importância da compreensão do conceito de midiatização para pesquisa de mídia e comunicação para captar as transformações relacionadas à mídia na sociedade (Lundby, 2009, 2014). Este conceito dialético analisa criticamente a interrelação entre as mudanças na mídia e na comunicação e as mudanças na cultura e na sociedade, diferentemente da ideia trazida pelos estudos de ‘media effects’.

Para os autores não é mais viável “teorizar a mídia e as comunicações como influências “externas” na cultura e na sociedade, pela simples razão de que são parte integrante dela”.

Dimensões quantitativas da midiatização: crescente disseminação temporal, espacial e social das comunicações mediadas; com o tempo, nos tornamos mais e mais acostumados a nos comunicar através da distância através da mídia em uma gama crescente de contextos.

Dimensões qualitativas da midiatização: diferenças sociais e culturais que as comunicações mediadas fazem em níveis mais altos de complexidade organizacional.

Os autores diferenciam mediação e midiatização: por mediação entendem ser o “processo de comunicação em geral – isto é, a forma como a comunicação baseada na tecnologia envolve a mediação contínua da produção de significado (Couldry, 2008; Martín-Barbero, 1993; Silverstone, 2005)”; já a midiatização é descrita como a ordem superior dos processos de transformação e mudança em toda a sociedade que resultam da mediação em todos os níveis de interação.

Ou seja, “um meta-processo (Krotz, 2009), um processo de mudança na forma como os processos sociais ocorrem através da mídia e são articulados em padrões organizacionais cada vez mais complexos.”

Os autores ressaltam a necessidade de perceber os vários estágios da midiatização a partir de uma perspectiva transcultural, “o que significa compreender as múltiplas formas que a midiatização assumiu ao longo da sua história em vários locais do mundo” e rejeitar “uma compreensão unidimensional da modernização baseada em mídias específicas (Slater, 2013, p. 28)”, que reproduza uma perspectiva eurocêntrica.

Não obstante é preciso considerar que “as experiências cotidianas de hoje do “global” são, pelo menos em parte, baseadas na disseminação maciça da mídia (Hepp, 2015, pp.13-18)”.

Couldry e Hepp apresentam o trajeto conceitual sobre globalização e modernidade entendendo a possibilidade de compreensão de ‘múltiplas “modernidades globais” (Featherstone, 1995) dentro de “muitas globalizações” (Berger, 2002) e “modernizações” e “modernidades” plurais (ver Calhoun, 2010; García Canclini, 1995).’

Alcançam a compreensão de que “a globalização se aprofundou nas últimas décadas, na medida em que a globalização está hoje enraizada nas práticas cotidianas da maioria das regiões do mundo (García Canclini, 2014, p. 21; Tomlinson, 1999, p. 13), mesmo que os detalhes ainda variem muito de contexto para contexto.”

Uma análise similar pode ser feita sobre a midiatização. “Se entendermos por midiatização a crescente disseminação dos meios de comunicação (quantitativos) e as consequências sociais e experienciais (qualitativas), ambos diferem significativamente de um contexto para outro e devemos encontrar uma maneira dialética de analisar isso.” Ex: a apropriação das mídias em contextos diferentes.

Os autores destacam que a incorporação de meios de comunicação de base tecnológica nas práticas da vida cotidiana é um processo de longo prazo que se aprofundou dramaticamente nos últimos 150 anos. Isso é o que entendemos por midiatização e, como se trata das inter-relações acumuladas que derivam de tal incorporação, é apropriado falar sobre isso como se tornando “mais profundo” ao longo do tempo.

“o aprofundamento da midiatização é uma questão da crescente dependência de todos os processos sociais em infraestruturas de comunicação em escala até o global; em termos mais gerais, é uma mudança nas modalidades em que o mundo social é construído em vários locais.”

A midiatização envolve um aumento na complexidade das mudanças sociais em decorrência dos fatores que impulsionam estas mudanças estarem relacionados às infraestruturas de comunicação subjacentes.

Assim, “As formas pelas quais a midiatização se desenrola em lugares particulares dependerão das histórias particulares de infraestrutura, recursos e desigualdade naquele lugar, e também das necessidades humanas específicas que o uso de mídia naquele local preenche predominantemente, e isso por sua vez, dependerá de variações mais profundas na organização social, econômica e política (Couldry, 2012, pp. 156-179).”

Isto não significa dizer que não existam tendências gerais relacionadas com a midiatização, mas que as especificidades são mais predominantes.

3.2 Ondas de midiatização

É comum entre teóricos narrar “a história das comunicações como fases da dominação de um certo tipo de meio que deve então ser entendido como tendo tido uma influência cultural profunda e global.”

A leitura feita sobre a história da humanidade é de uma sequência de culturas dominadas pela mídia: “culturas orais tradicionais” são substituídas por “culturas escribas”, seguidas por “culturas impressas” e “culturas eletrônicas globais” (Meyrowitz, 1995, pp. 54– 57)”.

Ao observar o que muda na história, “não se trata do surgimento revolucionário de qualquer tipo de meio em pontos específicos da história. Em vez disso, o que muda com o tempo é o agregado de meios de comunicação acessíveis e o papel que (em suas interrelações) eles desempenham na moldagem do mundo social.”

Para os autores, o foco deve ser o ambiente de mídia em mudança: a totalidade dos meios de comunicação disponíveis em um ponto no espaço-tempo.

A ênfase no ambiente midiático da mídia inter-relacionada se deve principalmente pela compreensão de que as tecnologias tendem a não funcionar isoladamente, mas em clusters que Brian Arthur chama de “domínios”; isto é, um conjunto de tecnologias mutuamente apoiadas (Arthur, 2009, pp. 70-71).

Os autores argumentam que mudanças decisivas nos ambientes de mídia podem estar relacionadas a certos surtos ou ondas de inovação tecnológica (Briggs e Burke, 2009, p.234; Rosa, 2013, p. 41; Verón, 2014, p. 165).

A metáfora da onda enfatiza, por um lado, certas inovações fundamentais (o “pico da onda”), que, por outro lado, têm consequências a longo prazo e consequências secundárias (a “propagação” do ‘onda’). Essa ideia tem um paralelo na abordagem de William H. Sewell (2005) à transformação social, na qual tanto os eventos proeminentes quanto as mudanças estruturais de longo prazo são importantes.

Uma onda de midiatização é definida como uma mudança qualitativa fundamental em ambientes midiáticos suficientemente decisivos para constituir uma fase distinta no processo contínuo de midiatização, mesmo quando se admitem as formas muito diferentes que tais ambientes midiáticos podem assumir, em locais específicos, contextos regionais e nacionais. Subjacentes a essas ondas estão as mudanças tecnológicas fundamentais no caráter da mídia (e das relações com a mídia) que compõem os ambientes de mídia.

Os autores afirmam que cada nova onda surge como um ponto de partida para compreender a transformação social, na medida em que envolvem a mídia, podem mudar decisivamente de um estágio para o outro e lembram que as diferenças em relação aos contextos específicos permanecem.

No entanto, mesmo admitindo essas diferenças, podemos identificar ondas distintas de midiatização relacionadas a mudanças qualitativas fundamentais no ambiente midiático.

As ondas de midiatização mais visíveis nos últimos séculos são:

  1. a mecanização dos meios de comunicação: caracterizada pela crescente industrialização do processo de comunicação, desde o trabalho de escribas, passando pela invenção da impressão (e das maquinas de escrever) até chegar a mídia impressa de massa (ex: panfletos, lambe-lambe, cartas particulares, jornais);
  2. a eletrificação dos meios de comunicação: caracterizada pelo surgimento e disseminação dos meios de comunicação de transmissão, as telecomunicações (ex: telégrafos, telefone, rádio, televisão, toca discos, fita cassete);
  3. a digitalização dos meios de comunicação: relacionada com variadas mídias digitais, assim como ao surgimento dos computadores, internet, celulares e aparelhos inteligentes à vida cotidiana.

É possível perceber estas 3 revoluções como ondas de midiatização, porque cada um deles captura uma maneira distinta na qual a constelação (conjunto) de mídias disponíveis em um determinado tempo e lugar opera como um ambiente – não apenas através de novas mídias, mas também através da continuidade da ‘antiga’ mídia.

Inclusive, uma nova onda é percebida em curso dentro da onda de digitalização, a onda de informação.

MECANIZAÇÃO

Por mecanização, entende-se a onda de midiatização através da qual o ambiente midiático se tornou mecânico. Um dos grandes marcos deste processo foi a invenção da tipografia. Contudo, para os autores a invenção da imprensa não teria sido um evento de uma ” longa revolução ” (Eisenstein, 2005, p. 335), mas um passo importante em um processo de mecanização de longo prazo.

Essa mecanização envolveu um aumento na coexistência e co-influência da mídia impressa mecanicamente com obras escritas à mão e outras mídias (Bösch, 2015, p. 20), mas também possibilitou uma série de ‘novas’ mídias: além do livro impresso, haviam panfletos e folhetins, depois o jornal (Oggolder, 2014).

“A reprodução mecânica oferecia, através de sua reprodução padronizada, a possibilidade de alcançar um grupo mais amplo de pessoas através de um tipo de meio de comunicação. Como resultado, a comunicação em uma escala maior poderia “desmembrar” (Giddens, 1990, p. 21) do aqui e agora. De mãos dadas com isso, novas práticas de construção comunicativa surgiram, e é uma questão de análise contextual decifrar essas práticas e investigar em que circunstâncias históricas e em quais contextos elas estão localizadas.”

Para os autores, mecanização ajudou a “engrossar” os espaços comunicativos mais amplos, intensificando as comunicações translocais. (ex: esfera pública mediada, comunidade imaginada). É a partir do engrossamento das comunicações translocais, e com isto da influência da mídia em processos sociais, que é possível perceber as consequências de um ambiente de mídia transformado para maiores possibilidades de mudança social, ou seja, para o papel da mídia na construção da própria realidade social (midiatização).

ELETRIFICAÇÃO

A eletrificação também modificou todo o ambiente de mídia e transformou a impressão mecânica em um nível mais alto de reprodução.

Pelo termo “eletrificação”, querem dizer a transformação dos meios de comunicação em tecnologias e infraestruturas baseadas na transmissão eletrônica.

“Na eletrificação, meios de comunicação de vários tipos tornaram-se cada vez mais incorporados em redes tecnológicas mais amplas: em redes elétricas, redes de cabo, redes de rádio direcional e assim por diante. Este movimento é também mais um passo de inter-relacionar a mídia mais próxima, aumentando assim as interdependências dentro do ambiente da mídia.”

O fato marcante é que a eletrificação foi, no início, predominantemente relacionada ao que é chamado de “comunicação pessoal” e não à “comunicação de massa” (Balbi, 2013).

A mudanças trazidas pela eletrificação se espalharam inicialmente em grupos de elite, contudo posteriormente, “o telégrafo elétrico transformou o jornalismo impresso à medida que tornou possível o acesso mais rápido a informações transnacionais e transculturais, que se tornaram importantes para a cobertura de guerra (Mortensen, 2013, pp. 332-334; Wobring, 2005, pp. 39-92).”

“A eletrificação envolveu movimentos incrementais da mecanização, através de meios parcialmente eletrificados, para meios totalmente eletrônicos. Isso se torna aparente se nos referirmos à comunicação de áudio, onde temos uma sequência de inovações como o gramofone, toca-discos e fita de áudio. Enquanto o fonógrafo e o gramofone eram mecânicos, o toca-discos era um dispositivo de áudio eletrônico para produzir sons a partir da combinação de fonógrafo e registro.”

Os autores utilizam como exemplo a fotografia que na década de 1830 era um procedimento mecânico-químico; sua eletrificação começou na década de 1950 através do uso de peças elétricas em câmeras, o que rapidamente a levou a produção de filmes e posteriormente a adição de efeitos sonoros (considerados meios eletrônicos).I

Em todo o mundo, a eletrificação foi um esforço enorme, com altos investimentos públicos e privados sendo necessários para construir a infraestrutura técnica apropriada, primeiro por cabos de telégrafo fixo e transatlântico, depois por estações de transmissão e redes de cabo.

Em um nível fundamental, a eletrificação pode ser entendida como um movimento inicial para um ambiente de mídia mais profundo e tecnicamente mais interligado; uma interligação mais profunda da mídia através de uma nova infraestrutura tecnológica: a rede elétrica, redes de cabo e de radiodifusão.

Os autores destacam 3 interdependências envolvidas na eletrificação, que vieram a moldar o ambiente da mídia:

  1. a eletrificação possibilitou a transmissão simultânea de conteúdo de mídia no espaço. A conectividade possibilitada através de ciclos de produção gerou ritmos compartilhados de experiência simultânea e novas narrativas de comunalidade.
  2. a transmissão elétrica possibilitou novas formas de comunicação recíproca quase instantânea em longas distâncias: a nova possibilidade de simultaneidade na comunicação pessoal no espaço. Como consequência, essa onda de midiatização não está relacionada apenas ao surgimento de novos tipos de organizações de mídia, mas, além disso, e muito mais abrangente, tornou possível novos tipos de instituições sociais. Por exemplo, já com telegrafia na década de 1860, uma economia globalizada começou a surgir, quando “os primeiros telégrafos tocaram nos preços das ações” (Bösch, 2015, p. 94).
  3. as formas de comunicação ofereciam possibilidades de construir culturas de novas maneiras no espaço e no tempo. A eletrificação trouxe meios que suportaram um maior alargamento dos espaços translocais de comunicação. É possível falar no estabelecimento, através de estruturas de simultaneidade e ritmos compartilhados de fluxo midiático, de culturas configuradas translocalmente de muitos tipos, incluindo no nível mais geral o surgimento da cultura popular em larga escala. Não se pode dizer que os ambientes de mídia eletrificada foram, ou são, os mesmos em todo o mundo e teriam resultado em um tipo de mudança global no nível social e cultural, é fato que outras dinâmicas ocorreram. Contudo, esses ambientes midiáticos (eletrificados) tornaram possível não apenas processos nacionalizados, mas também altamente descentralizados e globalizados de construção comunicativa, os quais cada um deve ser analisado contextualmente.

DIGITALIZAÇÃO

A digitalização está tipicamente relacionada ao computador, internet e telefone celular.

Uma característica principal das ondas de midiatização é a interrelação intensificada entre as mídias que elas envolvem: a internet é a infraestrutura que possibilita as ligações entre dispositivos de mídia contemporâneos com0 computadores de alta performance, grandes data centers e – num futuro próximo – robôs sociais e sistemas autônomos como carros autônomos, bem como links de todas as nossas atividades em inúmeras plataformas digitais.

Por conta disso, os autores propõem que o desenvolvimento da própria Internet deve estar no primeiro plano para a análise da revolução digital.

Berguer e Luckmann destacaram a importância de compreender a combinação de cada uma das etapas – algumas lideradas pelo Estado, algumas impulsionadas pelos mercados – como resultado de um pequeno número de empresas que vagamente podem ser chamadas de “mídia”, que através de suas ‘plataformas’ atuam diretamente no mundo do consumo e no mundo da interação social cotidiana. Estas etapas podem ser percebidas em:

  1. a construção de redes de comunicações ‘distribuídas’ entre computadores (inicialmente muito poucos) através do processo inovador de ‘comutação de pacotes’, como um meio, inicialmente, de assegurar formas mais seguras de comunicação frente a ataques militares. (ex: arpanet)
  2. o desenvolvimento do protocolo TCP / IP11 para conectar grupos de computadores já conectados a uma rede mais ampla, originalmente implementado no início dos anos 80, e liderar em 1989 a uma “internet”.
  3. o surgimento da World Wide Web, que ocorreu por meio de duas invenções-chave: a ideia de que os textos pudessem ser ligados se fossem associados a conjuntos ordenados de “metadados” chamados de “hipertexto” e a formalização do CERN Tim Berners-Lee dos meios para assegurar a transmissão confiável de hipertexto entre computadores interligados (html, http, url). Juntas essas invenções levaram ao surgimento da WEB, inicialmente desligada da atividade comercial cotidiana, ou mesmo ao uso cotidiano não especializado.
  4. o desenvolvimento independente de telefones celulares “inteligentes” com a capacidade não apenas de fornecer acesso às modalidades tradicionais de uso do telefone (falar / ouvir, mais a descoberta chave do dispositivo de telefone celular: o envio e recebimento de texto, ou SMS), mas também para o domínio da World Wide Web.
  5. o surgimento de um novo tipo de site que forneceu plataformas para centenas de milhões de usuários para interagirem entre si, mas dentro dos parâmetros de gerenciamento de formulários e conteúdo projetados pelos proprietários dessa plataforma: as chamadas ‘redes de mídia social’.

Possibilidades de comunicações laterais atreladas à capacidade de cada mensagem, em princípio, para ser direcionado, ou posteriormente recirculado, para todo o domínio da WWW através de atos de ‘autocomunicação em massa’ (Castells, 2009, pp. 65-72).

O resultado dessas etapas cumulativas e interligadas é uma transformação notavelmente completa da “internet” de uma rede fechada, publicamente financiada e publicamente orientada para comunicação especializada em um espaço profundamente comercializado e cada vez mais banal para a conduta da própria vida social. O tamanho das transmissões de dados que ocorrem agora via internet gerou demandas infraestruturais sem precedentes (especialmente para armazenamento, mas também para suportar processamento de dados) que estão sendo satisfeitas, mais uma vez, não por interesses públicos, mas por um pequeno número de empresas privadas. corporações que dominam a chamada ‘nuvem’ (Mosco, 2014).

Novamente os autores ressaltam para a soma das novas mídias e antigas mídias nesta nova onda de digitalização. A mídia impressa, radiofônica, televisionada, etc se tornam cada vez mais digitais. A digitalização também impulsiona mudanças nos modelos de negócios de mídia, nos usos de assistentes virtuais e “companheiros artificiais”.

Os resultados sociais, destacados pelos autores, desta revolução digital perpassam a saturação da mídia, o desaparecimento da ‘pessoa pública ‘ ou o surgimento do híbrido entre produtor-usuário, mas não estagnam nessas possibilidades iniciais. As audiências são capazes de fazer uma extensa gama de coisas com a mídia, inclusive com padrões cada vez mais individualizados pelos quais as pessoas podem acessar, seguir e comentar (em outras palavras, “atualizar”) o que nos propomos chamar de mídia múltipla.

“Em termos mais gerais, a digitalização envolve um aprofundamento adicional, tanto na conectividade das infraestruturas das quais depende a prática relacionada à mídia – assim, por exemplo, o digital agora depende do desenvolvimento de Wi-Fi e de outros serviços móveis – e camadas de práticas de mídia conectadas, nas quais indivíduos ou grupos estão agora rotineiramente envolvidos. Os ambientes de mídia se caracterizaram cada vez mais pela ‘convergência’ (Jenkins, 2006b; Jensen, 2010), 12 significando menos uma fusão de todos os dispositivos de mídia em um tipo de super-dispositivo e mais convergência no nível dos ‘dados’ ou conteúdo que, sendo digital, se torna comunicável através de vários dispositivos, alguns novos, alguns mais antigos.”

Para os autores, estamos vivendo esta onda de midiatização entendida meramente como o clímax provisório da onda de midiatização profunda, é possível vislumbrar uma nova onda relaciona aos Dados. Considerada por eles como um aprofundamento adicional das relações de interdependência entre mídia e entre pessoas, com significativas mudanças na forma como produzimos conhecimento e o quanto isto influencia na constituição do eu, das coletividades e organizações.

3.3 Midiatização Profunda e a Mídia Múltipla (“media manifold”)

A midiatização veio em ondas – mecanização, eletrificação, digitalização – que mudaram fundamentalmente todo o ambiente midiático. Mas como todo o ambiente de mídia de que estamos falando, tais ondas de midiatização não podem ser entendidas como a “difusão” (Rogers, 2003) de um meio dominante.

Para os autores, a midiatização deve ser entendida como um processo de crescente aprofundamento da interdependência baseada na tecnologia. Esse aprofundamento tem dois sentidos: primeiro, que nos últimos 600 anos ocorreu uma aceleração das inovações tecnológicas na mídia; e segundo que, no mesmo período, os meios de comunicação se tornaram cada vez mais relevantes para articular o tipo de culturas e sociedades em que vivemos, devido ao papel de mudança da mídia nas condições de interdependência humana. Ambos podem estar relacionados a um fenômeno mais geral: o que Hartmut Rosa chamou de “aceleração progressiva da mudança social” (Rosa, 2013, p. 110).

“Essas ondas de midiatização acumuladas resultaram em um ambiente de mídia que é único em sua forma atual: muitos meios de comunicação – até mesmo a tabuinha de pedra e o manuscrito – não desapareceram, mas mantiveram um papel funcional especial, em parte nas artes. Alguns dos primeiros meios eletrônicos, como discos de vinil, por exemplo, até têm um renascimento (Malvern, 2015). Além disso, uma nova paisagem de mídia digital foi estabelecida – o telefone celular, as plataformas online e os jogos de computador são apenas alguns exemplos – enquanto os meios eletrônicos mais antigos, como a televisão, o rádio ou o cinema, tornaram-se digitais; tudo isso em uma infraestrutura sustentada e cada vez mais distribuída. Resta, no entanto, um desafio significativo em compreender adequadamente a complexidade do ambiente midiático contemporâneo.”

A digitalização tem sido mais um passo na direção da inter-relação tecnológica: através da digitalização, tornou-se possível mover vários tipos de “conteúdo” através de uma infraestrutura conectiva, a internet.

Sobre os dispositivos: “O que temos é uma interrelação técnica profunda da crescente variedade de diferentes dispositivos; isso é o que torna a conectividade tão onipresente como uma exigência dos nossos tempos atuais.”

O “telefone móvel” é um dispositivo que pode “representar” várias mídias para nós e pode até mesmo ser estendido adicionando outros aplicativos que fornecem acesso filtrado a outros fluxos de mídia. Os autores apresentam uma série de termos utilizados para descrever os intercâmbios entre mídias:

“Alguns termos colocam ênfase nos intercâmbios de conteúdo entre várias mídias; por exemplo, “remediação” (a “representação de um meio no outro” (Bolter e Grusin, 2000, p. 45), “transmidialidade” (narrações que funcionam em vários tipos de mídia: Evans, 2011) e “mídia expansível” Comunicações “virais” em várias plataformas (Jenkins et al., 2013, p. 295). Outros conceitos destacam as apropriações de múltiplas mídias pelos usuários: os termos “cross-media” (Schrøder e Kobbernagel, 2010; Westlund, 2011), ‘repertórios de mídia’ (Hasebrink e Domeyer, 2012) e ‘polymedia’ (Madianou e Miller, 2013; Madianou, 2014) são exemplos disso. Tal terminologia entende a paisagem midiática contemporânea como um ‘ambiente composto dentro do qual cada meio [e seu uso] é definido relacionalmente para todas as outras mídias (Madianou, 2014, p. 330): “repertórios de mídia” não são apenas uma soma da mídia que uma pessoa usa, mas a relação significativa entre eles na prática cotidiana. nesta vista é marcada pelo usuário praticante que se movem em uma variedade de mídias.

Tais conceitos sugerem a transformação fundamental do mundo social que flui da midiatização profunda e estão corretos ao tentar compreender as relações de interdependência que caracterizam o ambiente da mídia digital. No entanto, eles não capturam a complexidade inter-relacionada que é característica do ambiente midiático digitalizado como um todo. Para captar isso, oferecem o conceito da multiplicidade midiática.”

O uso do conceito duplo (o “múltiplo”) visa captar a duplicidade da incorporação no ambiente de mídia extremamente complexo de hoje. O conjunto de meios e possibilidades de informação sobre o qual um ator social típico, pelo menos nos países ricos, pode agora desenhar é quase infinito e organizado em muitas dimensões. Mas, na verdade, é um conjunto reduzido de possibilidades das quais escolhemos todos os dias: o conjunto reduzido é como, na prática, atualizamos, para o uso diário, esse universo de mídia multidimensional.

Mas, na verdade, é um conjunto reduzido de possibilidades das quais escolhemos todos os dias: o conjunto reduzido é como, na prática, atualizamos, para o uso diário, esse universo de mídia multidimensional. O que fazemos então com a mídia em ocasiões específicas atualiza, por sua vez, essa seleção reduzida, e compreende um nível distinto e importante de variação.

O termo “mídia múltipla” permite manter em vista tanto a posição do ator social dentro de um ambiente institucionalizado de mídia interdependente quanto a complexidade situada das escolhas cotidianas de mídia desse ator. Auxiliando a entender as duas e suas inter-relações, uma vez que a dinâmica desse ambiente mais amplo são de grandes consequências para todos os atores e para a organização da vida social como um todo.

Karla Cerqueira Freitas

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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