The Mediated Construction of Reality – Cap.2

Texto por Lisi Barberino e Allana Gamas

Parte I – Construindo o mundo social

2- O mundo social como construção comunicativa

Neste tópico, os autores abordam a história das comunicações, refletindo sobre o mundo social como uma construção comunicativa e apresentam abordagem buscando entender o mundo social construído através da comunicação mediada. Afirmam que para além de mediado, o mundo social é percebido como modificado em sua dinâmica e estruturado pelo papel que a mídia continuamente ocupa em sua construção.

Para os autores, o mundo social tem uma complexidade significativamente maior quando suas formas e padrões são, em parte, sustentados na e pela mídia e suas infraestruturas. Destacam que mesmo se fizermos as coisas sem usar diretamente a mídia, o horizonte de nossas práticas é um mundo social para o qual a mídia é um ponto de referência. Chamam atenção para a impossibilidade de analise do mundo social através de uma simples divisão entre a comunicação face a face “pura” e uma apresentação separada do mundo para nós “através” da mídia. Destacam a formulação a “mediação de tudo”, de Sonia Livingstone para afirmarem que nossa comunicação diária é mediada o tempo todo – pela televisão, telefones, plataformas, aplicativos, etc. – estando entrelaçada com nossa comunicação face a face de várias maneiras.

Couldry e Hepp admitem que o ‘mundo social’  “não é apenas uma série de coisas distintas lado a lado, mas uma rede de interconexões operando em um grande número de níveis e escalas. A mediação de tudo gera automaticamente novas complexidades, uma vez que cada parte de “tudo” já é mediada”. A partir dessas complexidades e buscando ter uma melhor compreensão de como os processos de construção comunicativa ocorrem em uma variedade de mídias diferentes, eles realizam análise que vai para além da dimensão do “face a face” e constrem sua argumentação em três etapas. Em primeiro lugar, buscam esclarecer o que entendem por “mundo social”: o que esse termo implica? Em segundo, descrevem como ocorre a construção do mundo social e sua realidade cotidiana. Por fim, desenvolvem uma compreensão da complexidade do papel da mídia e da comunicação nesse processo de construção.

  • Teorizando o mundo social

Os autores definem o  mundo social como o resultado global de nossos processos conjuntos de construção social – especificamente comunicativa. Através da variedade de nossas práticas de criação de sentido, construímos nosso mundo social, como algo “comum” para nós desde o início. É nesse sentido que o filósofo John Searle (2011) discute a construção da realidade social como “fazer o mundo social”. Tal definição do mundo social ecoa as reflexões da fenomenologia social, mas de um modo mais historicamente sensível.

Destacam o livro Fenomenologia do Mundo Social, de Alfred Schutz (1967 [1932]). Para quem  o mundo social é um mundo intersubjetivo, isto é, um mundo que compartilhamos com outros seres humanos (Schutz, 1967, p. 9). De acordo com os autores, Schutz tentou reconstruir a fenomenologia fundamental do mundo social, usando o conceito de “mundo da vida” para enfatizar seu enraizamento em nossas experiências “não-problemáticas” e “naturais” da realidade cotidiana (Schutz e Luckmann, 1973). Berger e Luckmann identificaram isso em sua abordagem da construção social da realidade, que para eles também é baseada na “vida cotidiana” (Berger e Luckmann, 1966, pp. 31-62).

Couldry e Hepp embora façam ressalvas a limites de trabalhos na tradição clássica da fenomenologia social, trazem três pontos fundamentais que podemos aprender com essa tradição:

-O mundo social é intersubjetivo

Para os autores, a descrição do mundo social requer uma análise que considere as várias perspectivas subjetivas dos diferentes atores dentro do mundo social, mas, ao mesmo tempo, levando em conta que o mundo social tem uma existência além (ou seja, independente do) indivíduo. Abordam as várias mídias como meios importantes para assegurar o caráter intersubjetivo de nosso mundo social, ao oferecerem a possibulidade de comunicação através do tempo e do espaço.

-A realidade cotidiana é a base do mundo social

Couldry e Hepp questionam a compreensão de Berger e Luckmann, como era comum na sociologia por um longo tempo, de que houvesse primeiro a “vida cotidiana face a face” e depois “um complemento”. Para Couldry e Hepp é inaceitável ignorar como a realidade da vida cotidiana está inseparavelmente ligada à mídia. Não fazendo sentido algum pensar na realidade cotidiana como uma “experiência pura” que pode ser contrastada com uma “experiência mediada”. A realidade cotidiana, desde o início, é em muitos aspectos mediada, o que significa que o complexo mundo social das interconexões construídas a partir dos fundamentos da vida cotidiana é midiatizado.

-O mundo social é internamente diferenciado em domínios

Os autores compreendem o mundo social como diferenciado em vários domínios. Cada um desses domínios sociais é definido por uma orientação prática compartilhada dos seres humanos que atuam nesse domínio. Dito isso, não podemos entender esses domínios como sistemas fechados, como faz a teoria tradicional dos sistemas. Os limites de cada domínio são bastante obscuros e, de várias maneiras, eles se cruzam entre si. No entanto, eles também estão, em princípio, ligados uns aos outros como parte de um mundo social mais amplo.

A mídia desempenha um duplo papel em relação a esses domínios sociais: primeiro, estimula a diferenciação desses domínios, oferecendo uma alta variedade de recursos simbólicos; segundo, eapóiam a interseção desses domínios, sustentando a comunicação entre eles.

2.2 Realidade e a construção do mundo social

Neste tópico os autores constroem sua argumentação partindo da ideia básica de fenomenologia materialista, a qual entende que o mundo social não é apenas um dado. Eles acreditam que o social “é material, uma materialidade que não é um estrato “pré-dado” no qual os seres humanos estão inseridos, mas um produto da própria interação humana, com todas as suas relações de poder e desigualdades.”

Ao pensar sobre os fatos do mundo, Couldry e Hepp afirmam que precisamos considerar o status especial dos fatos sociais, e refletem sobre a definição de Durkhein, estendendo a discussão até a noção de Searle sobre Fatos Institucionais, os quais ele afirma serem constituídos por pessoas que reconhecem e aceitam certas regras e funções comuns, e só existem quando as pessoas continuam a agir de acordo com essas regras e funções comuns.

Os autores seguem a ótica de Berger e Luckmann para afirmarem que o processo de construção social se estende muito além dos domínios do que, em termos cotidianos, reconheceríamos como instituições (corporações, tribunais, escolas, governos). A partir dessa ótica até mesmo a família que tipifica formas e particulares de ação em termos de tipos de atores (“pai”, “mãe, “filhos” etc) faz parte do processo de institucionalização.

Couldry e Hepp acreditam que o envolvimento da mídia nos processos de institucionalização expandiu-se com profunda midiatização e não se limita mais ao papel das organizações de mídia de larga escala e sua autoridade sobre a construção em mutação do mundo social. Isso também inclui instituições em um nível muito mais alto de complexidade, os chamados “campos institucionais” (Friedland e Alford, 1991), como educação, economia e política, onde tipos distintos de domínios sociais se juntam com base em relações distintivas de significado.”

Afirmam que toda a realidade cotidiana existe somente através de sua reprodução regular na forma de aceitação, essa abordagem é conhecida como ‘teoria da estruturação’ segundo Anthony Giddens, seu princípio central é que  ” ‘as regras e recursos utilizados na produção e reprodução de a ação social é, ao mesmo tempo, o meio de reprodução do sistema: é o que ele chama de “dualidade da estrutura””. Contudo, os autores afirmam que  não é plausível dizer que todos os elementos da realidade cotidiana são o resultado e apenas o resultado da reprodução contínua através da ação.

Couldry e Hepp acreditam que pode haver épocas e lugares em que diferentes estruturas,  diferentes fatos institucionais e diferentes sistemas de regras e interpretações que as sustentam – potencialmente se aplicam à mesma situação, e que é isso que acontece quando ações da vida cotidiana são realizadas em plataformas online, ainda que os atos sejam executados  em outros lugares de acordo com restrições diferentes. Eles entendem que com a profunda midiatização, grandes infraestruturas para a interação e socialização humanas, a construção da realidade cotidiana se tornou sujeita a novos distúrbios e conflitos.

Os autores abordam a questão de que os fatos institucionais envolvem o trabalho das instituições, no sentido cotidiano, como também padrões mais amplos de institucionalização, a qual todos contribuem para a construção do mundo social, processo o qual Berguer e Luckmann chamam de ‘objetivação’. Couldry e Hepp apresentam as noções de Boltanski para termos um possível entendimento sobre os graus de contingência, ou as incertezas constitutivas presentes nesse termo. Contudo, ele afirma que para seguir as ideias de Boltanski, irá contra a ideia do “construcionismo social”. Ao contrário do construcionismo social “padrão”, a abordagem de Boltanski, enfatiza a incerteza irredutível e conflituosa no âmago do processo de construção social: os conflitos sobre a ontologia do social.

  • Mídia e a construção comunicativa do mundo social

Até esse ponto, os autores esboçaram uma abordagem fenomelogica materialista para entender como o mundo social é construido. Isso imediatamente provoca outra pergunta: qual é o papel da comunicação nesse processo? Destacam a que a comunicação como uma prática de construção de significado é o núcleo de como o mundo social é construído como significativo, enquanto a mídia e suas infraestruturas se tornam cada vez mais cruciais para as práticas comunicativas cotidianas.

Apresentam as noções de ‘mundo ambientado’ (Umwelt) e ‘mundo dos contemporâneos’ (Mitwelt), esferas pelas quais Schutz (1967) divide o mundo social em que vivemos.  Para cada um de nós, “a realidade social diretamente experimentada” – a realidade da situação face a face – é o cerne de nossa experiência do mundo social. É onde estamos presentes com todos os nossos sentidos, e onde experimentamos o outro e nosso relacionamento social com ele ou ela de uma forma direta (Umwelt). O “mundo dos contemporâneos” está um pouco distante disso: sabemos que eles existem e que eles constroem conosco o mundo social, mas não estamos em contato direto com eles (Mitwelt). No entanto, chamam atenção para o fato de que curiosamente, o próprio Schutz, em seus primeiros escritos, indicou alguma cautela quanto à distinção entre ambientados e contemporâneos. Schutz argumentou que, por causa da mídia, a distinção entre experiências face-a-face e outras experiências do mundo social já é menos absoluta e mais contínua.

Couldry e Hepp destacam que formas atuais de “mediação” potencialmente se aprofundaram em pelo menos quatro maneiras imprevistas por Schutz: (1) Temos uma crescente mediação de nossa corrente comunicativa, isto é, uma mudança no equilíbrio geral da comunicação direta para a comunicação mediada como o meio regular de sustentar as relações sociais; (2)  a incorporação não apenas de correntes comunicativas particulares à vida cotidiana, mas também das contribuições de comunicações passadas (fluxos contínuos de informações tanto de Mitwelt quanto de Umwelt; (3) Inimaginável para Schutz, a já discutida disponibilidade contínua de mídia é um recurso atual na comunicação face a face, desde mostrar imagens em um dispositivo digital até o uso de vídeo, mesmo nas configurações mais íntimas. (4) Estamos vivendo uma integração de todas essas três mudanças nos hábitos e normas de todo comportamento comunicativo, tanto face a face como mediados.

Para Couldry e Hepp nossa comunicação hoje no aqui e agora está completamente entrelaçada com várias mídias. O ponto não é que o face a face se torne menos importante, mas que para sustentar sua primazia (por exemplo, a importância das refeições familiares) agora necessitamos de coordenação mediada contínua, dentro de processos de ‘presença conectada’ que nos permitem coordenar a possibilidade dessa situação face-a-face (Licoppe, 2004) . Confiamos também regularmente em ter acesso a insumos de comunicação compostos por processos passados ??de comunicação mediada: grande parte dessas informações é composta de dados coletados automaticamente por meio de plataformas, que então alimenta de volta em nossa percepção de nós mesmos e nossa percepção de “outros”.

Como resultado, o mundo social não pode mais ser entendido em termos do construcionismo social clássico, que afirmava que a “experiência mais importante dos outros ocorre na situação face a face” (Berger e Luckmann, 1966, p.43). ). Não é apenas que a mídia estenda a experiência direta através de um processo gradual em direção a experiências mais indiretas: desde o início, nosso mundo social está impregnado de meios tecnológicos de comunicação, e a “mediação” e a “mediação” da experiência estão inextricavelmente interligadas.

Os autores destacam ainda que não podemos compreender essa transformação a menos que entendamos a comunicação como ação e prática. Enquanto esses termos – ação e prática – têm diferentes origens e nuances de significado, a idéia central ligada aos dois termos é a mesma: comunicar é uma forma de ‘fazer’ comparável a outras formas de ‘fazer humano’, como, por exemplo, construindo uma tabela. Como a linguagem é tão importante para a construção social, o nosso “fazer comunicativo” é tão abrangente quanto o nosso “fazer físico”. O caso dos rituais performativos – por exemplo, ritos de passagem como “qualificações educacionais” ou “casamentos” – é apenas uma versão mais elaborada do mesmo ponto básico: tipicamente, eles são atos de comunicação.

A ação comunicativa é inerentemente “social”: é uma prática de interação. Isso significa que a comunicação não apenas “acontece”, mas que nos comunicamos com base nas objetivações da linguagem que aprendemos no processo de nossa socialização. Aprendemos não apenas os signos comunicativos básicos, mas também os padrões de como se comunicar: o modo de ‘questionar’, ‘responder’, ‘discutir’, etc., é baseado em certos padrões sociais – ‘regras’ baseadas em padrões institucionais. fatos – que aprendemos durante nossa socialização. Esses padrões podem ter um alto nível de complexidade, incluindo “esquemas” que mostram como articular uma “fala” de maneira correta ou como uma “disputa” de várias camadas deve ocorrer. Mas, independentemente da complexidade desses padrões, eles são construídos com base em formas de comunicação que permanecem no lugar, independentemente dos conteúdos concretos da comunicação.

Por fim, chamam atenção para que todas as formas de comunicação – em vários níveis de complexidade – são processos de construção: um mundo social significativo é construído por atos de comunicação. E isso acontece através da mídia, contando com uma infra-estrutura de comunicação mediada que, obviamente, não é uma ferramenta neutra, mas traz consigo certas conseqüências. Por mídia os autores querem dizer meios de comunicação de base tecnológica que institucionalizam a comunicação. A mídia institucionaliza nossas práticas comunicativas em vários níveis. Estamos nos movendo aqui de práticas não apenas para formas (ver televisão), mas também para padrões complexos de práticas.

Karla Cerqueira Freitas

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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