The Mediated Construction of Reality – Cap.11

Texto por Paula Paz e Allana Gama

1) As conseqüências do mundo social sendo mediado

Os autores iniciam sua conclusão retomando a pergunta central que guiou o livro: Quais seriam as consequências do mundo social sendo mediado, ou seja, sendo construído através da mídia? Tendo processos sendo tecnologicamente mediados por infraestruturas de comunicação?

Partem para relembrar, então, as 3 partes do livro em que o livro é dividido. Na parte I, foram analisadas as conseqüências do mundo social sendo construído através de comunicações mediadas. Também apontaram o processo de comunicação e as ondas de mediatização que resultaram no estágio de mediatização profunda, com a interdependência de atores e mídias. Afirmam que o papel das mídias na construção da realidade é profundo, crucial para os processos nos quais o mundo social e a realidade cotidiana estão sustentados.

Na parte II, foram exploradas as bases fundamentais e dimensões do nosso mundo social sob estas novas condições, bem como as dimensões do espaço e do tempo, e a “nova dimensão de dados”, que envolve cada vez mais a moldagem do que passa a ser considerado como conhecimento social.

Na parte III, é abordada a agência do mundo social, ou seja, a construção do eu e das coletividades e o surgimento de uma ordem social mais ampla sob condições de midiatização profunda. Ressaltam a discussão do capítulo 10 sobre ‘ordem social’, foco do capítulo final, que levantou questões sobre como avaliar globalmente as consequências para a vida humana comum da construção mediada da realidade.

2) O passo para além de Berger e Luckmann

Os autores afirmam que construíram um argumento para ir além das limitações de Berger e Luckman, sobre a ‘construção social da realidade’, que não registraram completamente o papel que as comunicações mediadas desempenham nessa construção (até por um fator temporal).

O argumento de Couldry foi concebido para registrar a mídia dentro de uma abordagem fenomenológica que fosse plenamente materialista, já que ‘mídia é uma uma infraestrutura complexa, mas pra uma que reconheça um novo tipo específico de infraestrutura profunda para a construção da infraestrutura social.

Coudry afirma ainda que Berger e Luckman não identificaram pressões exercidas sobre determinados tipos de ordem social que podem entrar em conflito dentro dos objetivos humanos necessários porque sua análise manteve um foco primário em interações face a face e as formas de institucionalização derivadas dela, ignorando o papel da comunicação mediada na construção do mundo social.

O autor ainda pontua a tendência para um novo tipo de ordem social com a mediatização profunda e a datificação, com o desdobramento social das transformações em infraestruturas de midia, isto é, as consequências complexas de incorporações das tecnologias midiáticas da vida social cotidiana. Entretanto, seria incoerente pensar na mediatização profunda como o desdobramento de apenas uma lógica: é um meta-processo que envolve todos os níveis de formação social, dinâmicas, conflitos e diferentes expressões nos vários domínios do nosso mundo social.

A mediatização profunda, então, seria derivada de: a) um ambiente de mudança de meios caracterizados pelo aumento da diferenciação, conectividades, onipresença, inovação e datificação; b) crescente interdependência das relações sociais (figurações e figurações de figurações, baseadas em uma estrutura de mídia, mas com dinâmica evolutiva além dela).

3) A midiatização profunda e suas implicações mais amplas

Esta seção é iniciada com uma nova pergunta: “Quais implicações esses princípios têm para como avaliamos a construção mediada da realidade?”. Nela, os autores afirmam que quando “tudo é mediado” (Livingstone, 2009, p. 2), a midiatização alcança um novo ponto: uma fase de midiatização profunda, quando a natureza e a dinâmica das interdependências (e também do mundo social) tornam-se dependentes dos conteúdos de mídia e infraestrutura de mídia, em um grau significativo. Ele afirma que a midiatização profunda emergiu de uma mudança histórica particular nas infraestruturas de mídia e na incorporação de mídia na vida social, e que esta ruptura decisiva veio com a onda da digitalização (tal qual apontado no cap. 3), responsável pelo aumento do grau de interconexão. Essa interconexão entre a mídia trouxe uma crescente interdependência entre os atores (individual, coletivo, organizacional) que usam a mídia por várias razões, não apenas para se conectar e interagir uns com os outros.

Os autores acreditam que não podemos mais compreender a influência da “mídia” como a influência de um domínio separado (por exemplo, o jornalismo) em outros domínios do mundo social. A mediatização opera de forma não-linear, complexa, gerando transformações contraditórias e suscetíveis a tensões. A sua natureza é, essencialmente, a mudança, a agência.

A partir desses esclarecimento, apontam que existem 3 implicações fundamentais da midiatização profunda:

a) recursividade: um termo da lógica e da ciência da computação indicando que as regras são reaplicadas à entidade que as gerou (Kelty, 2008). Mais amplamente, isso se refere a processos que se reproduzem reproduzindo todo ou parte do cálculo ou outro processo racional que inicialmente os gerou. O mundo social sempre foi recursivo, na medida em que é  é baseado em regras e normas: nós continuamos e consertamos quando surgem problemas, repetindo mais uma vez as regras e normas nas quais se baseou anteriormente. Se esta recursividade é interrompida, a segurança ontológica torna-se ameaçada. Hoje esta relação é de maior dependência com a codificação de redes e acesso por senhas, sistemas e da própria internet. Os meios e dados se mostram mais necessários à esta infraestrutura de múltiplas mídias conectadas – a mídia múltipla -, a recursividade se aprofunda.

Eles também destacam que muitas formas de ação agora envolvem o uso de software e o próprio software envolve recursividade (MacKenzie, 2006), isto é, “à medida que as formas simbólicas se aglutinam em formações de código massivamente interligadas, as relações agenciais em software tornam-se involutas e recursivas”.

Essa recursividade profunda torna-se a característica padrão de uma vida social que depende cada vez mais da mídia digital, de sua infra-estrutura e de suas bases institucionais e de nosso tempo gasto com eles. Sentimos os custos visceralmente quando a ‘nossa’ mídia quebra.

b) institucionalização expandida: o processo de institucionalização ampliada observado nos Capítulos 8, 9 e 10. Atores (individual, coletivo, organizacional) e outros elementos da vida social, que poderiam ser considerados capazes de agir de forma relativamente independente, tornam-se dependentes da era digital para suas operações básicas e funcionando em uma infra-estrutura de mídia mais ampla, suprida e controlada por novos tipos de instituições institucionais.

Nestas condições, o espaço da ação social é recoberto por uma meada de conexões das quais é quase impossível escapar, porque envolve atores em todas as escalas. Essa transformação é altamente motivada: fornece fontes de renda e lucro completamente novas a partir do fornecimento de infra-estrutura privada de propriedade comercial que permite não apenas aspectos da vida material (como um serviço postal ou combustível para carros), mas os espaços materiais da própria vida social (uso de motores de busca, agregadores de dados, servidores na nuvem, etc).

c) reflexividade intensificada: duplo significado. O primeiro, proposto por Ulrich Beck, se refere ao número crescente de efeitos colaterais de um processo social, que podem funcionar contra suas forças originárias, solapando várias formas de tradição estável e estrutura no processo. E refletem que uma uma característica fundamental da midiatização profunda parece ser que uma reação típica aos efeitos colaterais negativos da midiatização não é se retirar, mas resolver os problemas previstos por uma introdução ainda maior das tecnologias midiáticas.

O 2º é proposto por Giddens (1994b), que enfatiza a autoconsciência prática e o autodirecionamento dos atores sociais. À medida que as transformações mútuas da mídia e da vida social se intensificam em múltiplas dimensões, elas expõem cada vez mais “arestas” que atraem preocupação e ansiedade, e empurram as pessoas para a retirada, exigindo reparação e invenção normativas. A auto-reflexividade em um mundo caracterizado pela “mediação de tudo” (Livingstone, 2009) torna-se cada vez mais aberta à ansiedade, causando o que um de nós chamou de “virada normativa” nos debates da mídia. Por último, afirmam que ‘soluções’ complexas para problemas de interdependência trazem consigo propostas de dependência sistêmica ainda maior.

4) Implicações fundamentais da midiatização profunda

Nesta seção, os autores introduzem mais uma pergunta: “O que acontece com as pessoas sob condições de profunda midiatização?”, que será respondida cm suposições nos tópicos a seguir.

5) Possíveis conseqüências normativas da midiatização profunda

–  Processo civilizador:

Nesse ponto, os autores esclarecem que não recorreram ao conceito ‘processo civilizador’ de Norbert Elias, em vez disso, recorreram à abordagem da compreensão da vida social – em termos de relações materiais de interdependências – e se basearam no conceito que Elias passou a entender as interdependências: o conceito de figuração. Contudo, ressaltam que a hipótese de um processo civilizador permanece em um nível mais amplo, importante para levantar questões normativas sobre as consequências em larga escala e os custos ou déficits a que as interdependências sobrepostas dão origem. E com as questões normativas eles encerram o seu argumento, questionando se a tendência da mudança para o ambiente de mídia como infra-estrutura e a interdependência social, econômica e política que chamamos de mediatização profunda seria positiva ou negativa, levando em consideração a questão da “qualidade de vida”. Esta, porém, não será uma questão que os autores poderão responder definitivamente no livro, principalmente por se tratarem de transformações em estágios iniciais, o que impede a previsão a longo prazo.

Contudo, eles contribuem no debate sobre uma possível ‘conclusão da questão’,  se utilizando da visão de Norbert Elias para afirmar que as pessoas muitas vezes parecem deliberadamente esquecer que os desenvolvimentos sociais têm a ver com mudanças na interdependência humana e com mudanças nos próprios homens. Mas, se nenhuma consideração for dada ao que acontece com as pessoas no curso da mudança social – mudanças nas configurações compostas de pessoas -, então qualquer esforço científico também pode ser poupado.

Terminam expondo que essa tensão não pode ser resolvida nesse momento histórico. E afirmam que um foco a midiatização pode colocar em primeiro plano os tipos de contradições que caracterizam a ordem figuracional (ou, talvez, melhores, “ordens”) da vida social. As pessoas parecem deliberadamente esquecer que o desenvolvimento social tem a ver com as mudanças na interdependência humana e com as mudanças em si mesmas. Se esta consideração de mudança social não é dada, os esforços científicos serão em vão.

6) Questões Normativas Não Resolvidas

Nesta seção, serão listadas questões que não foram esclarecidas pelos autores, expostas para que futuramente venham ina a serem apreciadas, como as novas figurações de conexão e a  preocupação dos teóricos com as mudanças.

Os autores dissertam sobre como as novas configurações de conexão estão possibilitando “sistemas sociais e culturais emergentes” (Stokes et al., 2015) que reconfiguram pessoas e recursos de novas maneiras, e com base em novos mapeamentos espaciais. Como essa expansão das possibilidades de ação social pode, em algum nível, ser positiva, mesmo que a velocidade da mudança tenha criado uma situação em que ainda não surgiram convenções satisfatórias para estabilizar e resolver os problemas resultantes de interdependência? Em vez de se preocupar, devemos argumentar (a exemplo de Mark Deuze, 2012), celebrando a aurora de uma nova era de invenção ética, o início de uma nova “vida da mídia” (talvez uma “vida de dados”)?

Outro exercício para esta conclusão foi o de listar autores que também trazem uma visão mais ‘preocupada com a direção dessa mudança’. como:

  • Mark Andrejevic, analista de mídia, nos chama a “desenterrar a experiência do próprio definhamento da experiência” (2013, p. 162).
  • A teórica jurídica Julie Cohen, preocupada com a “lacuna entre a retórica da liberdade” associada ao novo ambiente de informação e “a realidade do controle individual diminuído” sobre suas relações e com esse ambiente (2012, p. 4).
  • Outro teórico legal, Paul Ohm, preocupa-se com a necessidade de encontrar novas soluções humanas e normativas para o problema, que mesmo a tentativa de anonimizar dados pessoais quase sempre pode ser derrotada por processos algorítmicos suficientemente engenhosos (2010, p. 1761). A criação de efeitos colaterais de aceleração social que minam a autodeterminação do indivíduo moderno gera problemas de ordem social surgidos da mediatização profunda para a sua legitimidade normativa e sustentabilidade a longo prazo.
  • O teórico social Hartmut Rosa está preocupado que “o núcleo da modernização, o processo de aceleração, tenha se voltado contra o próprio projeto de modernidade que originalmente motivou, fundamentou e ajudou a colocá-lo em movimento”.
  • Turkle, inspirado no pensamento de Kant, disserta sobre a proliferação de oportunidades a partir da digitalização e a transformação de pessoas em máquinas, isto é, a humanização das máquinas e a “maquinação” dos humanos.

Contudo, eles refletem que, se esses críticos estiverem corretos, os problemas que eles identificam são muito maiores do que problemas individuais; são problemas com a ordem social que está surgindo através da midiatização profunda, um problema implicitamente também pela sua legitimidade normativa e, portanto, pela sua sustentabilidade a longo prazo.

Percebem ainda que, em outros autores, a preocupação com os atuais processos crescentes de informação são inspiradoras a cidadãos de todos os tipos, e não apenas filósofos. Tais formas de reificação baseadas na mídia (Hepp, 2013, p. 59; Capítulo 2)  são o resultado de uma progressiva materialização da mídia e de suas infraestruturas: quando sistemas tecnológicos complexos de mídia são construídos e estabilizados, e práticas de comunicação relacionadas são institucionalizadas, a construção mediada da realidade passa a parecer “natural” e, desse modo, processos de construção mediada tornam-se reificados. Há, então, uma sensação de tensão entre a infra-estrutura emergente e as normas herdadas da vida social.

7) Convenções apropriadas para estabilizar as relações no contexto de midiatização profunda

Os autores questionam se o problema de fato seria a enorme complexidade de nossa interdependência mediada, agora tão grande que estaríamos lutando para desenvolver convenções apropriadas a estabilizar nossas relações e seus custos de maneira normativamente satisfatória. Porém afirmam que é cedo para ter uma certeza a respeito.

Identificam que a tensão mais profunda seja entre a abertura necessária da vida social, como o espaço onde a vida humana em comum se desenvolve autonomamente, e o enclausuramento motivado (e, em seu próprio domínio, perfeitamente razoável) para fins comerciais dos espaços onde a vida social está sendo conduzida hoje.Um problema para qualquer ordem social que espera levar alguma medida de legitimidade a longo prazo surge quando nossos espaços e processos de reconhecimento mútuo se tornam indistintos com os imperativos dos interesses privados para gerar lucro a partir desses mesmos espaços e processos.

“O problema não é o motivo do lucro como tal, mas a indefinição de suas construções motivadas de “o social” com as formas de vida que, como seres que valorizam a autonomia, precisamos de nós mesmos e de outros para liderar.”

Sob as condições mediadas de hoje, então, a construção social da realidade tornou-se implicada em uma profunda tensão entre conveniência e autonomia, entre a força e nossa necessidade de reconhecimento mútuo, que ainda não sabemos como resolver.

A tentativa deste livro de desenvolver uma fenomenologia materialista do nosso mundo mediado, sendo a expectativa dos autores de, pelo menos, identificar essa tensão. Porém, salientam: o que os recursos coletivos são necessários para satisfazê-lo satisfatoriamente será o trabalho de toda uma geração para descobrir.

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