The Mediated Construction of Reality – Cap.10

Texto por Maurício Moura e Mayara Carvalho.

Ordem

No presente capítulo, os autores chegam ao ponto de argumentação no qual o livro inteiro se converge, através da questão: O que a midiatização profunda contribui especificamente para o tipo de ordem social que é possível nos dias de hoje?

O conceito de ordem social proposto no contexto do livro significa um padrão estável de interdependências entre indivíduos, grupos e instituições, mas também (numa dimensão mais ampla) entre os numerosos tipos de relações envolvidas na vida social que dependem de estabilidades maiores de recursos e infraestrutura.

Os autores diferenciam a noção de ordem proposta no livro da noção de que a sociedade é um sistema de entidades distintas formando um todo coerente, ou de que a mídia forma esses sistemas. Ao invés disso, argumentam que há uma pluralidade de “centros” sociais que contestam regularmente a definição e construção da vida social, bem como há pluralidade de valores subjacentes às contestações.

Resgatam ainda o fato de que tais contestações não negam o reconhecimento de um grau mínimo de ordem, pois a contestação contínua e explícita de todos os níveis das atividades e interrelações humanas seria equiparável ao caos inabitável representado pelo Leviatã de Hobbes. Afirmam que se em toda forma bem-sucedida de se viver há algum grau de ordem social, identificar e analisar tal ordem é uma questão fundamental da teoria social, como foi argumentado por Dennis Wrong (1994).

Para os autores, é necessária na argumentação sobre como a midiatização profunda pode afetar os tipos de ordem social possíveis, a consideração de que no mundo social contemporâneo, a produção de conhecimento chegou a um ponto paradoxal onde ele se nega como conhecimento, onde aqueles que afirmam “saber” sobre as rotas de reivindicação social para tal conhecimento não tem nada em comum com a forma como o conhecimento social foi produzido no passado.

No entanto, isso não seria acidental, mas derivado de formas particulares de poder simbólico ligado à infraestrutura de dados na qual a midiatização profunda depende:

“We are in the middle of a ‘changing relationship between ways of knowing and forms of power’ (Andrejevic, 2013, pp. 5–6), indeed an attempt to create a ‘global culture of knowing’data processing (Mosco, 2014, p. 2), which is intimately linked to particular corporate ambitions.”

Os benefícios da construção de conhecimento indexado são debatíveis, mas os custos claramente envolvem um tecido social construído a partir da contínua vigilância mútua. Sob estas circunstâncias, os autores apontam que uma abordagem hermenêutica do social torna-se ainda mais importante.

A abordagem hermenêutica, ou seja, a capacidade de viver no mundo social interpretando-o, é uma leitura da ordem social que enfrenta o desafio de um direcionamento particular da vida contemporânea: a proposta de autoconhecimento e conhecimento social que van Dijck (2014) chama de “dataísmo”. O dataísmo significaria uma remodelação ideológica da datificação para “uma crença generalizada na quantificação objetiva e potencial rastreamento de todos os tipos de comportamento humano e sociabilidade por meio de tecnologias de mídia online” (2014, p.28), permitindo registro e acúmulo de dados que podem ser traduzidos em números. Os autores defendem em seguida que não se pode nunca ser traduzido em números a perspectiva da própria intérprete, sua posição situada em um campo de ação e interpretação do passado que informa qualquer nova ação e interpretação.

Nesse sentido, o dataísmo seria então diretamente oposto a uma abordagem fenomenológica do conhecimento, incluindo o conhecimento social: na verdade, seria uma abordagem “anti-hermenêutica” cujo surgimento na vida social contemporânea precisa ser interpretado e compreendido (Couldry, 2014a).

Os autores chamam a atenção para aspectos da institucionalização dos selves e das coletividades enquanto promotores de uma ordem social. Como já foi argumentado na seção anterior do livro, o self é um projeto se desenvolvendo no tempo, cujo domínio social foi ampliado pela aceleração e alcance da comunicação social, causando uma tensão entre o horizonte de expectativas e o espaço de experiência no campo de possibilidades de ação do self.

Isto quer dizer que em um contexto de intensificação das comunicações translocais, os autores citam Isin e Ruppert (2015) ao afirmarem que “novas relações entre pessoas e vastos arranjos de tecnologias e convenções tornam-se banais, incluindo tuítar, mensagens, adicionar amigos, mandar email, usar blogs, compartilhamentos” (p. 2). Ao tornarem-se banais e habituais, essas atividades outrora estranhas perdem, como descrito no processo de Schutz e Luckmann (1973), o caráter dos atos, entrando no domínio do natural (p. 7). De acordo com os autores, agora os indivíduos participam da tarefa mais ampla na qual as corporações são também engajadas: a tarefa de gerenciar a continuidade entre pessoas, situações, localizações e contextos.

A força da fenomenologia materialista que vêm sendo abordada ao longo do livro vem de identificar e discutir as implicações da digitalização e da datificação para as dimensões espaciais (capítulo 5), temporais (capítulo 7) e do conhecimento (capítulo 8) da vida social, e para a transformação de agências individuais (capítulo 9), coletivas (presente capítulo) e organizacionais (próximo e último capítulo).

Ao longo dessa análise se encontra uma avaliação normativa dos emaranhamentos sociais aprofundados e a dependência infraestrutural da ordem social, utilizando o termo “ordem figuracional”. Couldry e Hepp advertem os leitores contra os riscos ocultos de mudanças figurativas amplamente baseadas no lucro e manutenção do capital em suas vidas cotidianas.

Nós enquanto indivíduos, sem o tempo necessário para interpretar e refletir informações, somos conduzidos a novas “normas” de auto-manutenção e automonitoramento via mídia digital. Novas coletividades estão sendo criadas não necessariamente para construir solidariedade, mas para gerar lucros. A superdependência da política em empresas privadas, facilitada pelo fluxo de dados cada vez maior, sujeita os cidadãos à vigilância e diferenciação perpétuas. Compreender esses desafios é o primeiro passo para o desenvolvimento de intervenções para melhor entender e controlar os diversos efeitos, dos enriquecedores aos inquietantes, da mídia digital na experiência vivida.

Karla Cerqueira Freitas

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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