The Handbook of Internet Studies: Capítulo 22

Por que e como a sociabilidade on-line se transformou em parte integrante da vida adolescente

Marika Luders é pesquisadora no SINTEF ICT, sistemas e serviços de rede na Universidade de Oslo. Possui experiência em mídias sociais para fins pessoais e sociais, meios de comunicação social para fins de colaboração e inovação, privacidade, inovação de serviços e métodos centrados no usuário. É uma das coordenadoras (líder) do projeto de poder em rede (financiado pelo Conselho de Investigação da Noruega). Atualmente também está envolvida no Centre for Service Innovation (financiado pelo Conselho de Pesquisa da Noruega).

Introdução

Durante os últimos anos, as formas de mídia pessoais e sociais surgiram na Internet atraindo cada vez mais usuários para esses ambientes digitais. Em 1980, grupos de notícias, listas de discussões e games foram preenchidos por um segmento estreito de usuários de tecnologia interessados em ??Internet. Porém o e-mail, as mensagens instantâneas, blogs, compartilhamento de fotos, vídeos e sites de redes sociais (SNS) tornaram-se fenômenos mainstream. Neste capítulo, as (inter) ferramentas pessoais para comunicação são rotuladas de “mídia pessoais” para dar conta das diferentes formas de mídia que facilitam a comunicação interpessoal e expressões personalizadas (em contraste com as mídias massivas).

O sucesso das mídia pessoais on-line parece refletir a vontade humana para abraçar ferramentas que suportam a interação social entre as reuniões offline. Considerando que diários, cartas, telefones e fotografia também são exemplos de mídia pessoal, o foco aqui é sobre mídia pessoais on-line, como suas qualidades sugerem mudanças importantes se comparado com o significado histórico dos antecedentes analógicos. Estas mudanças e a crescente importância da sociabilidade on-line, especialmente entre os usuários jovens é o que foi abordado neste capítulo.

Inicialmente, a autora faz duas perguntas: Em primeiro lugar, como devemos entender o significado pessoal e social de sociabilidade on-line? Esta questão reflete o foco considerável de investigação e também sugere razões para o crescimento extraordinário no uso dos meios de comunicação pessoais. Em segundo lugar, ter UMA presença on-line, sem dúvida desafia questões de privacidade, mas como é possível avaliar adequadamente os desafios e riscos relativos a privacidade?

A escalada de sociabilidade on-line

Uma extensa pesquisa foi conduzida na Internet como um espaço social que
sugere formas pessoais de comunicação on-line que se tornaram tão populares.
Em suma, as mídias pessoais são percebidas como significativas pelos usuários, porque elas ressoam os desejos humanos fundamentais relativos a auto-expressão, socialização, o brincar e ser criativo. Questões de investigação comuns têm focado nas conseqüências de práticas on-line para questões relacionadas a identidade, as relações individuais sociais de usuários, bem como a interdependência dos espaços online e offline.

A autora aborda pesquisas na área da sociologia, psicologia, mídia e comunicação para compreender as expressões pessoais, socialização e jogos criativos que surgem nestes espaços. Ela também inclui uma análise e citações de um estudo realizado há três anos sobre o uso de mídia pessoal entre os jovens noruegueses para ilustrar e enfatizar aspectos interessantes (Lüders, 2007) neste espaço.

Performance pessoal e socialização

As mídia pessoais, sem dúvida, tornaram-se parte integrante da vida cotidiana dos adolescentes. Estar online é basicamente uma das várias maneiras de estar no mundo. Diários on-line e serviços de compartilhamento de fotos em redes sociais, tornaram-se uma forma de situar o indivíduo, no centro do seu ou sua rede, permitindo aos usuários que desempenhassem o papel de si mesmo, mantendo (e fortalecendo) os laços sociais existentes.

De acordo com um estudo realizado pela autora, 91% dos adolescentes norte-americanos que usam redes sociais o fazem para se conectar com os amigos. No entanto, de acordo com o mesmo estudo, 49% dos usuários da rede social afirmaram que eles usaram as redes também para fazer novos amigos. Lüders (2009) retrata como os blogueiros noruegueses entrevistados estenderam suas redes sociais pessoais e fortaleceram laços sociais graças à sua extensa presença online. Novos amigos foram finalmente incluídos em seus círculos sociais mais próximos, especialmente após as reuniões face a face. A autora relata que nos estudos de Dwyer e colegas (2007) foi também encontrado que os usuários do MySpace eram significativamente mais propensos a atender às novas pessoas do que os usuários do Facebook. Usuários do MySpace informaram ainda um uso mais extenso de mídias pessoais adicionais para fortalecer novos relacionamentos online.

Que amizades foram iniciadas offline ou online, a sociabilidade é uma palavra-chave
para entender a atração das mídia pessoais. Sociabilidade como um conceito
característico da importância da interação social para as sociedades foi introduzido
por Georg Simmel. Para ele, a sociabilidade é uma forma particular de associação.  Ela se caracteriza como uma interação para seu próprio bem e não tem nenhuma finalidade objetiva em relação ao conteúdo da interação em curso. O objetivo principal é simplesmente estar junto e reconhecer o outro em sua vida. Donath (2004) aplica o conceito de “mídias sociáveis??” para dar conta de ambas as formas de mídias que melhoram a comunicação e a formação de laços sociais existentes entre as pessoas.

A aplicação do conceito de sociabilidade de Simmel para as formas de comunicação on-line ilustra que a pesquisa e construção da teoria sobre as interações on-line
e apresentações das mesmas não foram desenvolvidas a partir do zero. Em vez disso, o
conhecimento existente de auto-performances e a importância da socialização, tem
inspirado analisar e discutir esta questão. Uma das mais relevantes e citadas perspectivas foi a de Erving Goffman, de trabalhar em contextos dependentes e performances face a face. De acordo com Goffman, nos adaptamos às situações sociais e executamos de acordo com as expectativas comuns dos papéis que as incorporam. Essas expectativas diferem de acordo com os contextos interacionais, incorporando diferentes papéis para diferentes pessoas.

As ideias de Goffman foram revistas para atender ambas as formas mediadas de interação interpessoal. Em performances face a face, expressões fora do previsto (como por exemplo, olhar à deriva, corar as bochechas, ou outras pistas presumivelmente não intencionais) são difíceis de controlar. Estudos sobre formas mediadas de comunicação descobriram que a ausência física de outras pessoas faz com que os usuários se sintam mais no controle de suas ações ou, de acordo com Goffman,
os usuários possuem mais controle sobre suas expressões.  Possibilidades de gerenciamento de impressão, portanto, são percebidas como melhores em interacções mediadas. Em outras palavras, as qualidades mediadas nas formas de comunicação afetam o modo como indivíduo gerencia suas expressões e se apresenta a outros usuários. A comunicação mediada é muitas vezes caracterizada pela franqueza, já que os usuários tem mais tempo para criar expressões e maior controle sobre sua auto apresentação. No entanto, uma multiplicidade de estratégias de auto apresentação são comuns. Alguns usuários criam perfis que descrevem com precisão a sua personalidade, enquanto outros se apresentam com conteúdo falso, mas bem-humorado.

Em espaços sociais on-line, os usuários não são apenas presentes na base das suas próprias expressões. Pelo contrário, postagens de outras pessoas no próprio perfil afetam as percepções dos seus visitantes. Num estudo sobre o papel das aparência dos amigos no Facebook, Walther e seus colegas (2008) identificaram que a presença de amigos fisicamente atraentes no mural do Facebook tinha um significativo
efeito sobre a percepção da atratividade física do dono do perfil, e que curiosamente,
“As coisas que os outros dizem sobre um alvo podem ser mais atraentes do que as coisas que um indivíduo diz sobre si próprio”. Por exemplo, a menos
propositadamente apagados, comentários e fotos que os amigos postam nos perfis uns dos outros ficam lá para todos verem, enquanto um elogio verbal está vinculado ao lugar e tempo do enunciado.

Estudos de auto apresentação e socialização são comumente situados dentro de um
contexto, enfatizando as estruturas e características de sociedades em rede, argumentando que os relacionamentos são mais fluidos nas redes sociais. Porém, a autora pontua que os usuários já utilizam mídias digitais pessoais para apoiar os processos de socialização e como formas de interagir nos espaços de socialização off-line.

No entanto, poucos estudos têm sido realizados sobre as características e competências sociais exigidas dos usuários em espaços online. A competência social é descrita no âmbito da investigação psicológica e estudos clínicos como a habilidade e a capacidade de interagir com os outros, bem como se adaptar a contextos sociais e demandas. O contexto dessas discussões é limitado a situações face a face, acentuando a importância do verbal, bem como respostas não-verbais que influenciam a impressão que nós fazemos aos outros durante as interações sociais: expressões faciais, postura, gestos, distância física, tom de voz e clareza de discurso. Quando a vida social se limita aos espaços mediados, a comunicação deve ser adaptada para o fato do corpo não estar inteiramente presente. No entanto, como em interações face a face, o conteúdo é transmitido sob a forma de mensagens vitais. Tal conhecimento, provavelmente, só será totalmente adquirido através da experiência real.

Jogos criativos

Em 2005, foi apresentado que 57% dos adolescentes americanos criam conteúdos para a Internet em uma variedade de maneiras, tais como a criação de blogs e páginas da web, compartilhamento de conteúdo original, como obras de arte, fotos, histórias ou vídeos. Hoje em dia, números tendem a ser significativamente maiores, tanto por causa do crescimento em uso de sites de redes sociais, tanto porque esses sites geralmente integram diferentes práticas criativas em um serviço. Burgess (2007) sugere que o termo criatividade surge para dar conta do comum, cotidiano, informal (não institucionalmente aprendido) e formas comuns de criatividade em jogo quando as pessoas criam e compartilham expressões e histórias (seja online ou offline). A oportunidade de compartilhar atos criativos on-line parece fortalecer os usuários a ter mais motivação para criarem novos conteúdos.

A criatividade tem sido definida e compreendida de várias maneiras. Considerando que a criatividade pode ser usada para ser conceituada como uma capacidade divina, agora é comumente entendida como parte do que constitui os seres humanos. Além disso, a criatividade não é necessariamente um fenômeno isolado.

Jovem e vulnerável?

As seções anteriores demonstram que as mídias pessoais têm sido abraçadas por jovens em todo o mundo. Porém, algo colocado pela autora nesta seção é sobre os perigos enfrentados pelos usuários expondo a sua vida on-line. No entanto, adolescentes norte-americanos parecem ter uma preocupação do público sobre privacidade: entre os 55% dos adolescentes com perfis de redes sociais, 66% dizem que seu perfil não é visível a todos os usuários da Internet, e entre aqueles cujos perfis podem ser acessados ??por qualquer pessoa, 46% posta informações falsas para se proteger. Se privacidade é considerada como um direito ou uma responsabilidade individual, a apreensão surge porque as tecnologias de rede elevam interações e expressões pessoais de vidas privadas em espaços às vezes disponíveis publicamente. A autora recupera a obra de Goffman, descrevendo novamente como as performances dependem do contexto em que se está inserido.

Usuários enfrentam duas opções desfavoráveis??: proteger a sua privacidade on-line apesar das conseqüências pessoais e sociais potencialmente indesejáveis??; ou, em alternativa, optar por ter uma presença on-line e assim comprometer a sua privacidade pessoal. Como discutido acima, as formas de socialização mediadas são caracterizadas por outras qualidades que a comunicação face a face, especialmente para os jovens usuários, já que não estar online significa não tomar parte em uma área social.

O caráter público ou privado de espaços on-line é retratado no capítulo como um dos eixos para compreender os riscos de privacidade on-line. O segundo eixo é constituído para compreender se os usuários que estão presentes on-line, como seres anônimos, não revelam quaisquer traços que possam identificá-los, ou se eles têm divulgado informações pessoais que os revelem, tais como nome completo, fotos e amigos. Alguns blogs e redes sociais permitem que os usuários possam restringir o seu conteúdo acessível para “apenas amigos”, e os usuários podem optar por ter um perfil restrito ou reconhecível on-line, revelando primeiro o nome e informações que não podem ser facilmente usadas para rastreá-los off-line.

Em contextos públicos, as pessoas estão normalmente previstas para agir de acordo com as expectativas dos vários outros grupos (GOFFMAN, 1990; MEYROWITZ, 1986). Diários on-line, homepages e redes sociais, podem, por exemplo, serem percebidas como privadas, mesmo quando estão disponíveis ao público.

A complexa relação entre oportunidade e risco é uma característica da adolescência e, portanto, não é particularmente distinta à Internet (Livingstone, 2008). Este processo auto-exploratório inclui descobrir em quem confiar, quais informações pessoais podem ser reveladas, e como expressar emoção em um determinado contexto. Para a autora, o uso arriscado de espaços sociais online se encaixa perfeitamente no quadro da adolescência.

Pesquisas futuras devem tentar examinar as auto performances e sociabilidade de um ponto de vista imparcial, onde uma expectativa a priori não tenha o intuito de orientar coleta e a análise dos dados.

Concluindo a discussão

A autora conclui com a seguinte questão: Será que a dinâmica das redes sociais irá mudar durante os próximos anos? Isso também está relacionado à forma como os indivíduos podem ser capazes de controlar sua própria auto performance, não como seus amigos e inimigos irão representá-los, mas sim, sugerindo estudos relevantes de expressões interpessoais.

Este capítulo direciona ainda mais a atenção para a competência social nestes
espaços. Considerando que o conhecimento sobre a competência social em contextos off-line é extensa, mais pesquisas são necessárias para divulgar as habilidades sociais importantes em espaços online. Dada a interdependência entre a socialização on-line e off-line, os jovens que por algum motivo não têm acesso a essas esferas poderiam se sentir socialmente isolados. A pesquisa sobre mídias pessoais deve também examinar como os usuários adquirem a competência técnica, alfabetização e habilidades para participar de espaços mediados sem ter que comprometer a privacidade individual. As estruturas complexas que caracterizam redes públicas representam um aspecto fundamental na vida moderna, elevando interações e expressões pessoais da vida privada em espaços às vezes disponíveis publicamente.

O desenvolvimento dos meios de comunicação tem um impacto profundo sobre o processo de auto formação e desacoplamento dos encontros no espaço físico, e de acordo com a autora, teríamos um sentido muito limitado do mundo sem formas de comunicação mediadas. Assim, apesar de uma extensa pesquisa já ter sido realizada sobre o uso e a importância dos meios de comunicação pessoais on-line, os resultados potenciais para sociedade indicam que esses serviços continuarão a servir como uma área interessante para a pesquisa.

 

Bianca Orrico

É psicóloga, graduada pela Universidade Salvador. Atua na Safernet Brasil em um canal gratuito que oferece orientação para esclarecer dúvidas, ensinar formas seguras de uso da Internet e também orientar crianças e adolescentes e/ou seus próximos que vivenciaram situações de violência on-line. Tem experiência em acompanhamento de crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade social. Realizou pesquisas sobre adolescentes, redes sociais e tribos urbanas.

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