The Handbook of Internet Studies: Capítulo 20

Capítulo 20:

Online Pornography: Ubiquitous and Effaced
Susanna Paasonen

No capítulo 20, do livro The Handbook Internet Studies, Susanna Paasonen chama atenção para a centralidade da pornografia na história da internet. Mesmo a pornografia sendo responsável por um enorme tráfego online, ela continua sendo pouco investigada pelos pesquisadores e estudiosos da área. Na primeira seção do capítulo, intitulado: Pornografia, Tecnologia e Pânico Moral, a autora fala de como a internet, e particularmente sua forma de distribuição de conteúdos, tiveram efeitos importantes sobre a visibilidade e o acesso a pornografia. Em seguida debate alguns dos discursos moralizantes que incidem sobre esse tema.

Pornography, Technology, and Moral Panics

A autora  destaca que com a internet os consumidores de pornografia passaram a ter uma maior possibilidade de acesso anônimo e a uma variedade infinita de conteúdos pornográficos no conforto de sua casa: sites de pornografia gratuitos, pagos, shows, literatura erótica, etc. Do ponto de vista mercadológico, a pornografia muitas vezes é considerada a primeira forma rentável de conteúdo online, sendo reconhecida por seu pioneirismo na práticas de negócios na web: hospedagem, cartão de crédito, streaming, banners, promoções, entre outras.

Paasonen cita algumas estatísticas conflituosas sobre o volume de pornografia online. Enquanto sites que promovem softwares de filtragem (net nanny, cybersitter, cyberpatrol)ou sites que promovem a proteção a crianças e famílias (healthymind ou familysafemedia) divulgam números de busca de pornô em torno de 14%, um estudo realizado Spink , Partridge, e Jansen (2006) aponta que a  pornografia abrange apenas 3,8 por cento de todas as buscas na web. Para a autora, essa diferença percentual  demonstra uma disputa entre uma tentativa de fortalecer a imagem da pornografia como um “grande negócio” e   a disseminação de discursos moralizastes em torno do tema.

A quantidade de sites pornográficos, ou o volume total da indústria do pornô online, em uma escala global é difícil de estimar devido a informações conflitantes: como Coopersmith ( 2006 , p 2) assinala, ” a coleta de dados confiáveis sobre o uso da web é inerentemente difícil por causa do  seu rápido crescimento, a cobertura incompleta de sites e uma metodologia de pesquisa insuficiente. Embora as estimativas sobre o volume real da pornografia online serem imprecisos, são os números mais inflacionados que tendem a ser mais amplamente referenciados em pesquisas e políticas públicas sobre o tema.

No senso comum a internet está repleta de pornografia. Tanto o volume, como a facilidade de acesso a pornografia on-line tem dado origem a vários pânicos morais, especialmente relativos às crianças: a exposição das crianças (voluntária e involuntária ) à pornografia, a pornografia infantil e as redes de pedofilia têm sido temas amplamente abordados na mídia, bem como em estudos acadêmicos. Paasonen salienta que a co-articulação entre internet, pornografia e crianças contribui para o enquadramento da pornografia online em termos altamente parciais, focando apenas nos riscos e possíveis danos sociais. Porém isso diz pouco sobre a pornografia online e  seus usos.

A tendência a marginalização do acesso a pornografia se deve às questões éticas e políticas associados  a exploração de crianças e adultos por um industria do sexo. As criticas feministas anti-pornografia definem o pornô como uma exploração e violência contra as mulheres –  uma forma de assédio e objetivação machista. Outros grupos defensores anti-pornografia consideram que tais conteúdos deterioram a fibra moral e a vida familiar. Por outro lado, grupos que defendem a pornografia focam na liberdade de expressão e chamam atenção para a importância da fantasia e da possível subversão de códigos e convenções sexuais.

Netporn e Alt Porn

A pornografia online propiciou uma visibilidade sem precedentes as subculturas sexuais e suas diferenças sexuais. Estudiosos europeus, em particular, têm discutido essa proliferação de conteúdo sob a alcunha de netporn,  que denota uma tolerância alternativa a um corpo e uma sexualidade estranha/diferente. Essa definição de netporn, para alem de uma pornografia na net, marca uma circulação e reprodução de uma pornografia online experimental, artística e que representa um estética e uma política alternativa.

Entre as práticas categorizadas como netporn, foi a alt porn que recebeu maior atenção acadêmica até o momento.  A alt porn representada pelos conhecidos e bem sucedidos comercialmente  SuicideGirls e BurningAngel , apresenta modelos femininos com tatuagens , piercings  e penteados  punis e góticos. Sites pornográficos alt  incorporam um estilo subcultural , convidando os usuários a ler blogs e perfis das modelos e participar de uma comunidade baseada em códigos  culturais compartilhados – música, estilo de vida, ou atitude geral. Apesar disso, são constantemente criticados por uma articulação da sexualidade feminina baseada na máxima do lucro, preocupada apenas em atingir novos públicos.

O chamado pornô mainstream também incorporou várias opções em seu menu para atrair novos grupos de usuários. Hentai , anime japonês , dominação, sadismo, masoquismo e sexo não-consensual, são alguns exemplos disso. Dery (2007b ) argumenta que a indústria da pornografia on-line pretendem agarrar os usuários “por seus olhos”, mostrando-lhes imagens surpreendentes, novas , excêntricas, indo alem do até então conhecido. Chun (2006) mostra que os sites pornográficos que oferecem infinitas subcategorias e preferências especiais simultaneamente formam micro-mercados e aumentam a visibilidade dos fetiches e torções que anteriormente eram considerados subcultural ou altamente marginal.

Esta lógica de diferenciação significa que “o mainstream” está longe de ser algo estável ou unificado , mas em vez disso é constantemente dividido em categorias infinitas , escolhas e preferências que os usuários on-line precisam navegar. Isto significa também que as discussões sobre a pornografia como uma entidade assumidamente unificada e homogênea são cada vez mais difícil e pouco convincente.

Amateurs Abound

Para além do altporn, a web propiciou também o crescimento do pornô amador. A internet é  muito mais flexível e acessível para pequenos produtores  do que outras formas de mídia. Por isso a web virou um terreno fértil a pornografia amadora. Nos ambientes online, realizadores amadores podem criar, executar, distribuir, manter seus próprios sites e compartilhar suas imagens e vídeos – de forma gratuita ou paga e com preços variados.

A crueza e o realismo do pornô amador – a idéia de que os artistas não são atores e que assumidamente fazem o que fazem porque gostam de fazê-lo – é uma atração que a indústria do pornô mainstream tem se apropriado. Atualmente o “amador” já pode ser considerado com um dos principais sub-generos da pornografia. Em seus estudos do grupo alt.fetish, Sergio Messina tem chamado as imagens  pornôs-amadoras de realcore – isto é,  um gênero que se destaca dos marcadores tradicionais de hardcore e softcore em sua autenticidade e realismo total.

Lisi Barberino

É mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Produção em Comunicação e Cultura e atualmente pesquisa linchamento virtual em sites de redes sociais.

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