The Handbook of Internet Studies: Capítulo 16

Capítulo 16: Internet, Children, and Youth (Sonia Livingstone)

Introdução – A “geração digital”

Recuperando a frase de Giddens sobre o desafiador equilíbrio entre oportunidade e riscos que caracterizaria a atualização do self na modernidade tardia, a autora inicia o capítulo apontando as grandes expectativas em torno das oportunidades da Internet, especialmente em relação às crianças e adolescentes. Livingstone recupera dados de pesquisas sobre usos para desmistificar parte da euforia sobre os “nativos digitais”, defendendo que tanto as crianças quanto seus pais “imigrantes digitais” ainda enfrentam muitas dificuldades para manejar as oportunidades (e os riscos) na rede. Apesar de haver um gradativo engajamento na criação de conteúdos, crianças e jovens ainda tem seu uso de Internet guidado por posturas de consumo cultural fortemente influenciadas pelos meios massivos. Neste capítulo a autora proem uma reflexão para entender estes desapontamentos com as grandes expectativas geradas em torno do uso da Internet por crianças e jovens, bem como suas implicações no equilíbrio entre oportunidades e riscos online.

Frame teórico
As pesquisa sobre crianças, jovens e Internet estão estruturadas em torno da tensão entre duas concepções concorrentes sobre a infância. A primeira delas concebe as crianças como vulneráveis e frágeis para enfrentar as ameaças que os ambientes digitais oferecem, exigindo assim um ambiente regulatório mais protecionista (teorias embasadas principalmente na teoria do desenvolvimento como proposta por Piaget). Do lado contrário estão as correntes que consideram as crianças como agentes competentes e criativos com seus próprios direitos e com suas altas habilidades midiáticas menosprezadas pelos adultos, apontando que a sociedade falha ao não oferecer um ambiente suficientemente rico para elas (correntes ligadas à nova sociologia da infância, associadas às reflexões de Corsaro e Qvortrup). Buscando escapar das extremidades, a autora se aproxima aqui dos cientistas sociais que focam nos estudos de trabalhos empíricos para produzir conhecimentos centrados na experiência contextualizada das próprias crianças e jovens, com destaque para os achados dos estudos etnográficos do uso da tecnologia e consumo doméstico que apontam para as lutas simbólicas que estar online provoca. Neste capítulo Sonia Livingstone busca uma abordagem mais sintética que possa integrar estudos sobre crianças, jovens e Internet, focalizando em três áreas proeminentes das oportunidades online: exploração do self, modos de aprendizagem tradicional e alternativos, e oportunidades para a participação cívica. Para balancear o otimismo das oportunidades a autora trata ainda de evidências sobre as situações de risco para crianças e jovens online.

Explorações do Self
Crianças e jovens estão cada vez mais experimentando a Internet como valioso espaço para exploração social e expressão do self. Teóricos como Drotner (2000) apontam que elas são “pioneiras culturais” no uso das novas tecnologias ao se concentrarem em inovações, interações e integração. Os jovens parecem desfrutar com maior facilidade da flexibilidade e dispersão das novas sociabilidades e novas convenções sobre autoridade e autenticidade que emergem. Diferentemente do que ocorre nos meios massivos, na Internet as crianças e adolescentes e encontram a oportunidade de se apresentarem, com suas linguagens e estilos, sem tanto peso dos filtros elaborados pelas instituições e pelos adultos que falam em “seu nome”. Em contraponto à estas visões mais otimistas sobre as oportunidades e liberdade de reconstrução dos espaços sociais dos jovens, não podem ser descartadas as críticas que evidenciam o perigo da privatização dos espaços públicos e da individualização da cultura influenciados pelo forte poder do consumo e da indústrias da moda e da música tanto on quanto offline.

Aprendizagem – tradicional e alternativa
Sem dúvida a maior ambição relativa à crianças e Internet está relacionada ao aprendizado. Os potenciais benefícios educacionais da Internet para crianças e adolescentes difundiu-se rapidamente pelas sociedades, tornando a Internet um dos elementos centrais na educação ao lado dos livros, salas de aula e professores, apesar de os efeitos da incorporação da Internet nas escolas ainda serem pouco conhecidos. Os resultados de algumas pesquisas sobre uso das TIC nas escolas contradizem a famosa crença que associa diretamente o uso das tecnologias a um melhor desempenho educacional, bem como contradiz a esperança de que o entretenimento e a comunicação facilitariam chegar a maiores pontuações nas avaliações. Apesar de a maior parte dos investimentos de TIC na educação ainda partir de perspectivas educacionais do século 19, algumas experiências otimistas apostam nas habilidades “soft” (negociação, imaginação, resolução de conflitos) que os alunos podem e precisam desenvolver para se adaptarem às novas demandas do mercado e da cultura no século 21. A autora aponta que nem os resultados dos investimentos tradicionais e nem os das novas e alternativas experiências de uso das tecnologias na educação foram aprovados ou desaprovados pelas evidências, restando aina muitas incertezas sobre as expectativas e caminhos possíveis.

Oportunidades para participar
Apesar do gradativo desengajamento político da população apontado pelos cientistas políticos nas últimas décadas, a Internet parece ser inerentemente “democrática”. A própria arquitetura da Internet, com sua flexibilidade, hipertextualidade, estrutura em rede, modos dialógicos de endereçamento, e sua forma anárquica de alternativo, parece se adequar mais aos jovens do que o tradicional, linear, hierárquico, lógico e regrado modelo oficial oferecido para engajar politicamente os jovens. Muitas iniciativas apontam como a Internet permitiria encorajar a participação dos jovens, sendo a Internet a tecnologia que permite novas e mais participativas formas de engajamento civil, deliberação política e democracia. Algumas iniciativas são motivadas pelo estímulo aos jovens alienados, enquanto outras partem do princípio de que os jovens já estão articulados e motivados apesar da falta de estruturas e oportunidades para participar da vida política e cívica de forma mais ativa. A autora destaca que apesar de algumas pesquisas reforçarem a importância da Internet como facilitadora do engajamento de jovens, a questão central ainda repousa menos sobre as possibilidades das novas mídias e mais sobre a disponibilidade de escuta e abertura das instituições políticas.

Encontrando riscos
Neste tópico a autora aponta o quanto as consequências do pânico moral que superestima os riscos online são prejudiciais e evocam ações de censura e restrições de liberdade na Internet. As manchetes de abuso sexual de crianças, suicídio, ciberbullying e outras violências online destacadas pela imprensa levam muitos pesquisadores e gestores à superestimar esta dimensão de riscos em detrimento de uma percepção mais apurada do que o medo e a ansiedade em relação às novas tecnologias. A autora afirma que esta ansiedade pública em relação aos riscos online para crianças é exacerbada pela coincidência de três fatores: 1) a rapidez extraordinária da difusão e desenvolvimento da Internet, ultrapassando a habilidade de adaptação dos adultos; 2) o medo endêmico do novo, alimentado pelo pânico moral da imprensa; 3) a reversão da lacuna geracional quando as crianças possuem maior expertise (e autoridade) do que os pais para usar a tecnologia.

Sonia Livingstone mostra que, apesar das dificuldades éticas na pesquisa sobre riscos e violências contra crianças online, os estudos estão se acumulando e apontando que não se sustenta uma suposta oposição entre oportunidades e riscos quando percebemos que ambos estão conectados nas experiências de uso. Para poder desfrutar de mais oportunidades na rede é preciso enfrentar mais situações de risco já que a própria dinâmica da Internet opera com a dispersão, diversidade e conectividade entre os mais diferentes conteúdos. Recuperando dados empíricos sobre as experiências vivenciadas por crianças e adolescentes na Europa, a autora sugere que não é possível sustentar nem uma aspiração extremista de risco zero e nem uma visão de extremo risco. No final deste tópico, Livingstone destaca como a teoria da sociedade do risco de Beck (1992) oferece direções úteis para pensar e repensar esta dimensão de risco, especialmente três pontos problematizados por Beck: a) a identificação do risco, o risco entendido como consequência de instituições, inovações e práticas modernas; b) a intensificação do risco na modernidade tardia; c) a individualização do risco, o que individualiza também as responsabilidades pelas decisões associadas aos riscos.

Conclusões
Na conclusão do capítulo a autora destaca o quanto todos são afetados pela ubiquidade das novas tecnologias. Estando na vanguarda tanto das oportunidades quanto das situações de risco, crianças e adolescentes estão ajudando a descobrir as novas possibilidades, desafiando a si mesmas na capacidade de lidar com os perigos encontrados e apontando desafios para as políticas públicas de regulação e segurança. Como as novas mídias são geralmente cridas com foco em certos interesses, elas são comumente adotadas de formas inesperadas, reinventadas, sabotadas, hackeadas e ignoradas. A autora aponta como as evidencias de pesquisas indicadas ao longo do texto revelam que não apenas que as boas possibilidades mas também as limitações de uso devem ser agregadas ao conveniente discurso e percepção das crianças como sendo da “geração Internet”, supostamente expertas no uso da Internet. Sonia Livingstone encerra o capítulo sugerindo que as pesquisas não podem focalizar apenas nas atividades das crianças e adolescente, mas sim realizar uma análise dupla para contemplar o social e o tecnológico, analisar tanto as práticas individuais quanto institucionais, observar os usos e o design com os interesses institucionais embutidos. O letramento digital dos jovens ainda não atingiu as grandes expectativas não por falta de imaginação ou iniciativa deles, mas também pela falta de apoio e restrição das instituições que manejam o seu acesso à Internet, como pais ansiosos, professores incertos, políticos muito ocupados, conteúdos comerciais. Sendo estes desafios não muito diferentes em outros espaços offline, a autora destaque que tão esperado equilíbrio entre oportunidades e riscos para crianças e jovens na Internet ainda está para ser visto.

Rodrigo Nejm

É psicólogo pela Universidade Estadual Paulista UNESP/Assis-SP, doutorando em psicologia social no Programa de Pós Graduação da UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Realizou intercâmbio acadêmico na graduação para estudar “Médiation Culturelle et Communication” na Université Charles de Gaulle Lille 3, França. Atualmente é psicólogo e diretor de educação na ONG Safernet Brasil, responsável pela criação de materiais pedagógicos, pesquisas e campanhas educativas sobre Direitos Humanos e governança da Internet no Brasil. Tem interesse de pesquisa nas interfaces da psicologia com a comunicação, privacidade e sociabilidade de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

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