The Handbook of Internet Studies | Capítulo 14

Lori Kendall
2011

Introdução

Kendall inicia o capítulo comentando sobre a dificuldade que diversos pesquisadores, ao longo do tempo, tem em conceituar “comunidade”. O termo comunidade é apresentado como algo contraditório que evoca costumeiramente aspectos positivos de um grupo (empatia, afeto, apoio, interdependência, valores compartilhados e proximidade), ainda que em comunidades reais contenham uma série de aspectos negativos que não são evocados com o uso da palavra.

A autora nos apresenta algumas noções de comunidade virtual e as contribuições de estudiosos que se debruçaram sobre o tema, entre eles Porter (2014) para o qual comunidade é: “um agrupamento de indivíduos que interagem em torno de um interesse compartilhado. Em um viés comunicacional/empresarial do conceito, a autora destaca a contribuição de Ridings e Gefen (2006), que discutem as comunidades virtuais como elementos “cruciais para as organizações que querem explorar seu enorme potencial de informação”, Essa definição inclui 3 elementos que merecem destaque 1) “interesses ou objetivos comuns”, (2) “um sentido de permanência”, e (3) um certo grau suficiente de “freqüência” de interação (p. 2).

Uma outra linha de estudo que cerca o conceito de comunidade é a que busca compreender as relações e os valores do grupo. Kendal destaca  a definição de comunidade proposta por Amitai Etzioni (2004): 1) “uma teia de relações carregadas de afeto”  interligados, com (2) “compromisso com um conjunto de valores, normas e significados, além de uma identidade e um história compartilhada” (p. 225).  Para Kendal essa definição merece destaque por possuir um maior peso emocional, já que seu  foco nas relações que “se cruzam e se reforçam mutuamente” (p. 225).

Por outro lado, Kendal destaca que alguns pesquisadores sugerem o abandono do termo comunidade. Isto não é uma estratégia nova, ou exclusiva dos estudos de comunidades virtuais. Ainda nos anos 70 sociólogos de comunidade já falavam na necessidade de abandono do termo, por esse ter sido esvaziado de significado. Fernback apresenta uma abordagem do interacionismo simbólico, no qual realiza entrevistas com os participantes de grupos onlines ouvindo as próprias concepções que eles fazem de si.  O autor descobriu que os participantes on-line ainda usam o termo comunidade, embora idiossincraticamente, para descrever seus grupos online e que ainda utilizam o termo para expressar unidade e apoio mutuo.

Redes individualizadas

Wellman (2002) sugere que as pessoas estão abandonando as comunidades em favor de um “individualismo em rede”.  Na condição de rede individualizada, as “pessoas permanecem conectadas, mas como indivíduos.  Ao invés de se identificar com uma única comunidade, unida, cada indivíduo da rede fica no centro de um conjunto de redes pessoais. Gurstein (2007),  vai criticar a noção de Wellman por ser extremamente focada nas redes e acabar paradoxalmente tirando a agencia dos indivíduos. Já que é a rede que motiva  e controla tais individualidades.

Gochenour (2006) fornece uma visão dos usuários on-line  semelhantes aos de Wellman, mas derivada da ciência cognitiva e teoria dos sistemas. O autor propõe pensamos as comunidades de uma forma distribuída, decorrente de nós e conectadas por uma infra- estrutura de comunicação. Gochenour vê essas redes como “comunidades que dão aos membros a capacidade de trabalhar em conjunto na tomada de ação” (p. 46). Postill sugere que a análise de rede social confia na”interação como a base da vida humana”, deixando de ter em conta “a rede invisível de relações objetivas” (p. 418).

Hodkinson (2007) e Kendall (2007) constataram que os usuários LiveJournal, seguem padrões mais individualistas de interação do que  participantes em comunidades on-line anteriores  tais como  fóruns.  Os autores sugerem que  os padrões de interação nesse ambiente  são significativamente mais centrados nos indivíduos do que o observado em muitos fóruns discussão” (pág. 646).  Um grupo formando no  LiveJournal ” são centrada e regulamentados em torno de um indivíduo “(p. 632). Ainda que tais ambientes facilitem a conexão com outros usuários e grupos.

Comunidades reais x pseudocomunidades.

Nesse tópico Kendal retoma os debates em torno da preocupação com a definição do termo comunidade, com os tipos de vínculos que formamos e as dificuldades de categorizarão e nomenclaturas que esse conceito apresenta na medida que nossas  vidas offline e online se misturam. Wellman (1979) identifica três vertentes nessas discussões: “comunidade perdida”, “comunidade salva” e “comunidade libertada”. Sendo que a primeira, baseada em distinções de Töennies, Gesellschaft e Gemeinschaf , implica no entendimento que a comunidade está sendo perdida para o inexorável, fruto de uma modernidade que nos tornou isolados e anônimos. Em reação a esse entendimento, outros pesquisadores propõem a noção de “comunidades salvas” – sobretudo no intuito de documente comunidades urbanas. Wellman argumenta, porém, que esses estudos não conseguem captar os laços importantes que as pessoas mantém fora dos grupos locais densamente estudados pelos pesquisadores “salvos”. Já a “comunidade livres” é focada em uma abordagem de rede social, a fim de capturar os laços fortes e fracos das pessoas em um conjunto de malhas densas.

Apesar dos estudos de “comunidades salvas e livres”, ainda há uma predominância de uma tendência nostálgica que traz enraizado fortemente o argumento da comunidade perdida. Alguns estudiosos inclusive vêm a internet como algo que poderá restaurar tais comunidades perdidas. A autora cita diversos exemplos de estudos com uma visão apocalíptica sobre comunidades e internet, incluindo Rheingold (1993), que por exemplo, descreve a “fome de comunidade” (“hunger for community,”), criada pelo desaparecimento de espaços públicos informais, o que motivaria as pessoas a criarem comunidades virtuais (p. 6).

Outros autores irão insistir que a internet continua processos anteriores de isolamento e anomia. Barney (2004) argumenta que “a tecnologia digital empobrece, em vez de enriquecer a nossa realidade compartilhada. . . medida em que as bases materiais concretas da comunidade estão em causa “(p. 32).  Borgmann (2004) afirma que a Internet não pode promover o que ele chama de “comunidades finais” – “comunidades [que] são fins e não os meios”. Isso porque a internet é mercantil em sua natureza. As pessoas tendem a se reduzir em glamorosas e atraentes. Essa concepção reforça a separação entre mundo real e virtual, não sendo a internet algo “verdadeiramente social” e portanto, as comunidades online também seriam irreais. Apesar do pessimismo de tais pesquisas, Kendal afirma que elas são importantes na medida em que detalham com riqueza as interações online.

Comunidades Virtuais

Os primeiros pesquisadores das comunidades virtuais vieram de várias disciplinas acadêmicas, incluindo a antropologia, comunicação, lingüística, estudos de mídia e sociologia.  E compartilhavam a experiência de pioneirismo em suas disciplinas nos estudos do mundo online, muitas vezes indo de encontro aos  colegas mais céticos.  Alguns desses primeiros pesquisadores não tinham experiência com interação on-line antes de serem atraídos para o tema por interesses de pesquisa (Kendall, 2002). Outros, na tradição etnográfica de “começar onde você está” (Lofland & Lofland, 1995), conduziram sua pesquisa em grupos virtuais em que já participaram (Cherny, 1999; Baym, 2000).

Esses primeiros trabalhos eram realizados em fóruns assíncronos, tais como o usenet, e fóruns quase-síncronos, como os chats. Locais típicos do fim dos anos 90 e inicio dos 2000. Nesse período quase toda a comunicação da internet era baseada em texto. As primeiras questões que emergiram foram a formação e desaparecimento de comunidades virtuais; conflitos, cooperação e controle social e identidades (incluindo tanto o falseamento dessas, como a conexão entre identidades on e offline.

Os ciclos de vida da comunidade

Como um fenômeno relativamente novo, as comunidades on-line não têm histórias que remontam há várias gerações.  Pelo contrário, seus participantes têm memórias vividas de eventos formativos desses ambientes. Cherny (1999) descreve a história de ElseMOO e sua relação com as comunidades que a precederam. Fundada por várias pessoas que tinham sido participantes ativos na LambdaMOO, a   ElseMOO estabeleceu muitas das suas normas e práticas procurando se diferenciar da LambdaMoo.

Essa participação a longo prazo é algo que os integrantes de comunidades online normalmente se orgulham. Kendal traz o exemplo dos participantes do Bluesky que se caracterizam como “dinossauros  rabugentos”. De acordo com sua auto-descrição, os participantes Bluesky tendiam a criticar outras comunidades, e muitas vezes as viam como bobas. Dessa forma, Kendal destaca que muitas vezes as comunidades online  se formam em reações a outras. Com os participantes distinguindo a sua própria identidade a partir da diferença em relação aos outros.

Os eventos internos de uma comunidade também serão muito importantes para o sentimento de perecimento dos seus membros. Kendal  cita um caso de abuso que um participante da LambdaMoo sofreu de vários outros participantes da comunidade, o que forçou LambdaMoo a  a considerar questões de governança e resolução de conflitos que contribuiram de forma efetiva para o fortalecimento dos lanços de pertencimento com o grupo.

Conflito, Cooperação e Controle

Kendal destaca que o conflito pode destruir comunidades. As comunidades virtuais são particularmente vulneráveis a perturbações por estranhos, meliantes ou desviantes descontentes. No entanto, como descrito por Rheingold e Dibbell, os conflitos podem também promover a comunidade e renovar laços de perecimento. O conflito pode promover a reflexão e um crescimento na identidade da comunidade. Isso pode envolver mais explicitamente os usuários, ou explicitar normas e regras de comportamentos. Conflitos também podem gerar novos mecanismos de controle social. Por estas razões, os conflitos vão fornecer aos pesquisadores informações sobre os valores da comunidade.

Em sua discussão sobre a “gestão de conflitos em comunidades virtuais”, Smith (1999) descreve inúmeros conflitos sobre MicroMUSE – que era uma comunidade online construída com a finalidade de educação científica para crianças.  Smith relata vários casos em que os participantes que cometeram transgressões graves foram banidos da comunidade e argumenta que as comunidades virtuais “devem incluir a diversidade e encontrar alguma maneira de integrá-la, se quiserem prosperar” (1999, p. 160),  ainda que tal diversidade resulte em conflitos. Ela observa que, “para sobreviver, as comunidades virtuais devem proteger seus recursos primários” (p. 143), e, portanto, devem encontrar formas de gerir o conflito antes que se agrave de tal forma que prejudique a comunidade como um todo.

No entanto, a imposição de sanções em comunidades onlines é complicada pela incapacidade de enfrentar os transgressores face-a-face, e a dificuldade em manter os transgressores específicos do “lado de fora”, ao mesmo tempo em que é permitido o ingresso de novos participantes. É importante notarmos que nem todos os conflito se originam de forma maliciosa. As vezes são resultantes de desentendimentos entre seus próprios membros.

Os conflitos interno muitas vezes vão resultar das diferenças de poder entre os membros. Por exemplo no ElseMoo, os participantes que tinham algum conhecimento de programação faziam questão de tornar esse saber um privilégios- provocando o sentimento de exclusão em outros usuários. Obviamente, nem todas as comunidades virtuais experimentam esses tipos de conflitos, e o conflito não é necessariamente obrigatório para a formação de estreitos laços comunitários. As comunidades podem se reforçar através de laços de amizade, acordos, conversas que afastem desacordos, etc.

Identidade

Kendal afirma que uma comunidades não existe enquanto tal, sem que existam algum senso de identidade comum entre os participantes. As comunidades existirão a partir da projeção de traços identitários de pessoas para outras pessoas que se identificam como membros de uma comunidade. As comunidades conferem identidade aos participantes e a identidade dos participantes também desempenha um papel importante na formação e manutenção da identidade dessas comunidades.

Em estudos de comunidades virtuais, os pesquisadores têm discutido a identidade de várias maneiras diferentes. Uma diz respeito à maior capacidade dos participantes da comunidade virtual para mascarar sua identidade. Outra diz respeito à intersecção de várias facetas das identidades sociais – especialmente raça e gênero – com normas e valores das comunidades virtuais.

Donath (1999) ressalta que “conhecer a identidade das pessoas com quem você se comunica é essencial para compreender e avaliar uma interação” (p. 29). Escritos sobre identidades falseadas se transformaram em mitos do estudos sobre internet. As mesmas histórias são contadas mais e mais como contos de advertência para inocular os incautos.   Homens que se passam por mulheres, no intuito de colher informações pessoais e depois expor o interlocutor. Trolls que se passam por “pessoas sérias” e que depois vão pertubar a lógica da comunidade., etc.

A extensão dos enganos de identidade on-line é impossível de medir, mas os pesquisadores da comunidade online descobriram que nas comunidades de longa data esse sentimento de decepção é minimizado. A formação da comunidade depende de identidades consistentes. Os participantes vêm a conhecer uns aos outros, mesmo que apenas por meio de pseudônimos, e muitas vezes buscam conectar offline, bem como online.

Apesar destas dificuldades, a maioria das pessoas em comunidades virtuais deseja representar-se de forma coerente e realista.  Entre outras coisas, isso significa que os aspectos da identidade que alguns esperavam se tornarem insignificante online – tais como raça, classe e gênero – permanecer importantes. Kendall (2002) descobriu que os participantes  do BlueSky trouxeram seus entendimentos e expectativas offline sobre sexo para as suas interações online. Como em seus relacionamentos e comunidades offline, os participantes BlueSky construíram suas interações,  afirmando suas identidades de gênero, e, em alguns casos, discutindo sobre o que significa o gênero.

Com os interesses comerciais adicionados à mistura, o gênero torna-se um aspecto importante da criação e comercialização de comunidades virtuais. Cooks, Paredes e Scharrer (2002) analisam a participação das mulheres em “O Lugar”, uma communidade em Oprah.com. No caso dos sites voltados para mulheres o enquadramento é bem tradicional do feminino consumidor.

Comunidade online e offline

A maioria das comunidades conectadas através da Internet envolvem componentes online e offline. Mesmo em comunidades virtuais que existem, principalmente on-line, participantes muitas vezes procuram conhecer um ao outro face-a-face. Enquanto isso, muitos grupos offline buscam melhorar suas comunidades através da participação online.

Uma recente pesquisa etnográfica em comunidades na internet, colocou como questão chave saber se a participação online ajuda ou prejudica as comunidades offlines. Em face do que alguns têm analisado como um declínio geral na participação da comunidade (Putnam, 1995), os pesquisadores tentaram determinar qual o papel que a Internet desempenha neste processo. Após a análise de Putnam, grande parte desta pesquisa tem como preocupação o aumento ou diminuição do “capital social”.

Em geral, os  resultados dessas pesquisas não indicam que as interações na Internet têm um grande efeito, positivo ou negativo, sobre os tipos de capital social. As Interações na Internet não diminuem significativamente outras formas de contato e nem aumentam o engajamento cívico, nem o sentimento de pertença a comunidades offline.

Direções Futuras

Kendal destaca que futuros estudos sobre comunidade e internet precisam fechar algumas lacunas até então mal resolvidas. Será que saímos da comunidades para o individualismo em rede, como argumenta Wellman? Seria essa uma inevitável progressão, com suas vantagens e desvantagens? Os estudos de Kendall sugerem que o projeto dos sistemas online também tem um impacto sobre o nível de individualismo em grupos online, e que interferem nos vínculos interpessoais. Precisamos olhar não apenas para a forma de projetar sistemas para promover a comunidade, mas nas definições da comunidade incorporados nesses projetos, bem como as implicações dessas definições têm para o uso.

Precisamos também de estudos que levam um olhar mais amplo como as tecnologias de mídia relacionadas com a Internet e se cruzam com as nossas concepções de identidade e de nosso próprio sentido de self.  São, por exemplo, as mudanças que ocorrem na forma como nós concebemos sexo, do que sexo significa na sociedade, e do equilíbrio de gênero de poder? Se sim, qual o papel que desempenham as novas mídias? Se não, por que as novas formas de sociabilidade proporcionada pelas novas mídias não efetuar tais mudanças?

Lisi Barberino

É mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Produção em Comunicação e Cultura e atualmente pesquisa linchamento virtual em sites de redes sociais.

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