The Handbook of Internet Studies | Capítulo 05

The Handbook of Internet Studies
Cap5 – Internet Research Ethics: Past, Present, and Future
2011
Elizabeth A. Buchanan

Introdução

Segundo Buchanan (2011) os estudos sobre ética nas ciências emergiram, principalmente, em resposta às atrocidades realizadas por volta da Segunda Grande Guerra Mundial. De forma geral, os códigos de ética que surgiram desde então giram em torno dos direitos de autonomia, proteção, segurança e conhecimento. A questão estabelecida entre os direitos humanos e o avanço tecnológico sempre esteve no centro desse debate, que possui três princípios éticos:
1 – respeito à pessoa, o que está relacionado com o consentimento para a pesquisa, direito a autonomia e proteção em caso de diminuição dessa capacidade de autonomia.
2 – beneficência, onde se deve minimizar os dados e maximalizar os benefícios e o bem estar das pessoas.
3 – justiça, levar em conta igualdade, equidade, esforços individuais, contribuição social e mérito.

Enter Internet

A autora se utiliza de alguns incidentes ocorridos em pesquisa sobre recursos/sujeitos humanos ( “human subjects” ) na internet para iniciar o debate sobre alguns pontos relevantes sobre ética em pesquisas na internet (IRE). Tal campo é sempre definido ao passo que também define a ética nas pesquisa feitas em ambientes digitais. Dessa forma, a pesquisa de Rimm em 1990, que fez a topologia de um serviço de pornografia, expondo dados pessoais dos usuários se tornou umas das referência para debater esta temática.

Então, ao longo do capítulo, a autora apresenta alguns dilemas que os quais os códigos de ética, o pesquisador e os participantes podem enfrentar.

Diante da atual conectividade, o estar online ou offline são questionáveis e a não observância pode levar a incidentes éticos, pois a exposição dos usuários podem acarretar em problemas no trabalho, por exemplo. A autora considera que apesar de lidar como várias questões éticas (consentimento, acesso, identificação, propriedades, mal uso dos dados, etc), o trabalho de Rimm também leva ao debate sobre a incerteza sobre a definição do sujeito humano ( “human subjects” ) nas pesquisas na internet.

Em relação à ética relacionadas aos participantes, a autora destaca o caso conhecido como “rape in cyberspace,” reportado por Julian Dibble em 1993. Neste caso, o teor emotivo levou a pesquisadora a repensar a ética e a metodologia, pois não era possível separar a representação das narrativas da realidade e seu impacto sobre as pessoas.

O terceiro caso citado é o de 1983, quando um psicólogo se utilizou de uma identidade feminina para conversar com mulheres e assim compartilhar da intimidade feminina, colocando em jogo questões de confiança, direitos das pessoas com quem se relacionou, identidade, etc. Contudo, alguns pesquisadores consideram que a decepção é recorrente nesse tipo de pesquisa, sendo importante a compreensão da diferença entre pessoa e avatar.

Diante desse cenário, segundo Buchanan (2011) é que surge a subdisciplina da ética, a IRE, definida como: “a análise de questões éticas e a aplicação dos princípios de ética em pesquisas que dizem respeito à pesquisa realizada via e/ou na Internet. A pesquisa baseada em Internet, amplamente definida, é a pesquisa que utiliza a Internet para coletar informações por meio de uma ferramenta on-line, como uma pesquisa on-line, estudos sobre como as pessoas usam a Internet, por exemplo, por meio de coleta de dados e / ou observação de atividades ou em qualquer ambientes on-line, e / ou, a utilização de bases de dados on-line ou bancos de dados” (p. 90).

Sendo assim, para a autora, os primeiros a trabalharem em tal campo, se basearam, principalmente, em respeito à pessoa humana, beneficência e justiça, a exemplo da disciplina tradicional. Com esta mesma base, surge o primeiro guia ético internacional e interdisciplinar em 2002. O guia indica que não apenas o benefício da pesquisa deve ser analisado, mas que também os direitos humanos, sua segurança, expressão de autonomia e consentimento. Mas a decisões éticas podem ser tomadas por diferentes formas, a depender do enquadramento e da analise a serrem realizadas, das questões culturais de entendimento do ser humano e das regulamentações éticas.

Questão: a depender da pesquisa/objeto, um escopo internacional de ética deve ser tomado, ou as normas nacionais já bastariam? Como relacionar isso aos termos de uso das ferramentas utilizadas?

Um ponto importante que a autora lembra é que as escolhas metodológicas devem ter por base o tipo de informação que será analisada: sensível (distúrbios de comportamento ou de saúde, etc.) ou não sensível (entretenimento, etc.);

Questão: é sempre tão fácil determinar o que é ou não sensível? E se o participante discordar da consideração do pesquisador?

Segundo a autora, “devemos considerar a ética das escolhas metodológicas, bem como a ética das questões de pesquisa e/ou problemas na determinação de como podemos avaliar e responder às inúmeras questões éticas na pesquisa online. Estas questões são muitas e vão desde questões em torno da privacidade, do consentimento, da representação, da atribuição, da autoria, do plágio, da redefinições de pessoal e público, da questões legais, incluindo direitos autorais, calúnia, difamação e danos” (p. 93).

É importante notar que enquanto o pesquisador destaca as suas questões éticas, é de responsabilidade dos conselhos de ética fazer julgamentos e estes não estão livres de subjetividades. Dessa forma, a transparência no processo de revisão ética é necessário, ainda mais em um campo que muda tão rapidamente, dificultando tais análises. E, ainda, para colaborar com o pluralismo das questões éticas, a autora lembra que há questões inerentes ao ambiente de internet em específico, ou seja, blogs, chats, RSR, etc.

Questão: em tempos de mobilidade e diversos outros usos TICs, há mais questões que estes códigos de ética não previram?

Ethical Considerations
Public/private

Buchanan (2011) aponta que a privacidade é umas das questões mais debatidas nos estudos sobre IRE. Mesmo a informação sendo pública, há a necessidade de se avaliar o tipo de informação, se sensível ou não, antes de se fazer as opções da pesquisa. Também é importante a consideração a respeito da longevidade e do arquivamento dessas informações.

Questão: ambientes onde a informação é efêmera e aplicativos ou scripts são utilizados para resgatar tais informações estariam assim se colocando como antiéticos? Ou ainda, como avaliar os scripts e mapeamentos que cruzam informações de diferentes lugares da internet?

Para a autora, os códigos devem sinalizar que é de responsabilidade do pesquisador indicar aos participantes que há riscos mesmo no uso subsequente da pesquisa, bem como na comunicação online. Como exemplo, indicou a pesquisa sobre práticas homossexuais na Índia, que é considerado crime, e que poderia comprometer os participantes e, ainda, o pesquisador. Contudo, ela lembra que as questões éticas devem servir para facilitar a pesquisa e não para inibir a sua prática.

Mais uma vez a autora indica que as questões éticas, no caso, a privacidade dos dados das pessoas, podem ajudar a delimitar a metodologia da pesquisa. Para tanto, dá o exemplo do uso de dados públicos de blog sobre incentivo aos distúrbios alimentares que não se utilizou de qualquer tipo de interação com as pessoas envolvidas.

Identities and consent

No caso de uso de blogs públicos sem interação, a questão já não é de privacidade mas de identidade e consentimento.

A autora indica que há quem defenda o uso de pseudônimos e mesmo o da retirada de qualquer tipo de identificação. Contudo, a qualidade da pesquisa pode ser afetada ao se omitir a identidade e outras informações sensíveis, como o que pode ocorrer com a narrativas de etnógrafos. Por isso, a identificação está ligada ao consentimento dos participantes.

O consentimento pode ser detalhado, indicando que tipo de uso e nível de identificação o pesquisador deve fazer com dados cedidos pelos participantes.

Ownership

Outra questão importante é o da propriedade dos dados. Um pesquisador, a priori, tem propriedade sobre os seus dados coletados (entrevistas, formulários, etc.). Mas atividades e postagens são mais difíceis de se analisar (propriedade única ou compartilhada?).

Questões: E caso a comunidade pesquisada exija o direito aos dados coletados do pesquisador? Ou o caso do pesquisador solicitar a um líder dados gerados pela própria comunidade para outra finalidade, a priori não mencionada?

O pesquisador deve levar em conta os termos de propriedade das plataformas, bem como as licenças e termos de uso dos dados atribuídos pelo próprio autor/participante (CC, etc.).

A observação participante se mostra sensível a esta questão uma vez que lida com a interpretação dada pelo pesquisador, o que torna a noção de propriedade difusa e ainda pode alienar um comunidade a partir de erros de interpretação.

Online surveys

Sobre os questionários onlines, a autora os destaca porque estes são muito utilizados nas pesquisas baseadas em internet e, ainda, porque estão relacionados com várias questões éticas como a possível quebra de privacidade (detecção de IP, anonimato), propriedade dos dados que é perpassada pelos termos da ferramenta, segurança dos dados (confidencialidade), etc.

Algumas pesquisa defendem que pode haver invasão de privacidade tanto em nível psicológico, informacional, físico e interacional quando um pesquisa é realizada. A invasão da privacidade psicológica diz respeito ao controle que se tem quando se induz emoções em ambientes digitais. A invasão da privacidade informacional tem a ver com a falsidade da identidade do pesquisa, coleta de dados sensíveis (CPF), identificação de IP, etc.

Comentário: no FISL14, Richard Stallman chamou a atenção sobre a coleta indiscriminada de CPF para cadastros diversos na internet e as implicações em termos de invasão de privacidade que isso pode acarretar ao cidadão.

Para o aumento da taxa de resposta e qualidade dos dados, é aconselhável fornecer a explicação dos objetivos da pesquisa, assim como o estabelecimento de relação de confiança entre os participantes. Também é possível indicar como os participantes foram selecionados, quem terá acesso aos dados e como esses serão utilizados.

Também é importante notar, que há informações que podem ser coletadas pela ferramenta sem que os participantes saibam e estes dados pode vir a fornecer estatísticas em relação aos mesmos (navegador, IP, língua, hora de acesso, permanência, logs de transações, etc).

Future Directions and Future Research:
Research Ethics 2.0?

Nesse contexto da web 2.0, devem ser consideradas as normas do ambiente; normas geradas no âmbito do individual e da comunidade; códigos de éticas fornecido de baixo para cima; estruturas preestabelecidas de autoria e uso dos conteúdo, além dos já estabelecidos códigos de ética para a pesquisa na internet.

As mudanças nas interações sociais que aplicações web2.0 acarretam deve ser acompanhadas por mudanças na ética estabelecida em pesquisas nesses ambientes, assim como propões o princípio dos estudos da ética.

Seria talvez o caso do surgimento de uma ética open-source – com participação e maior relação entre pesquisador, agentes de ética e pesquisados.

“O conceito de pesquisa transformadora está em jogo – e a própria pesquisa não pode ser transformadora se os modelos que a regem permanecem estáticos. A ética em pesquisa em si deve ser transformadora.” (p. 103).

Por fim, como leitura complementar, sugerimos o documento bastante citado no texto de Buchanan: Ethical decision-making and Internet research – AOIR: Recommendations from the aoir ethics working committee

Mônica Paz

Mônica Paz é doutora (2015) e mestre (2010) pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, na linha de pesquisa sobre Cibercultura, da FACOM/UFBA. Bacharel em Ciência da Computação pelo DCC/UFBA (2007). Entusiasta do movimento Software Livre, já colaborou em diversos eventos dessa comunidade e também com a Revista Espírito Livre.

More Posts - Website