Somos todos falsos no Instagram?

Ecoa no senso comum que a felicidade compartilhada em redes sociais digitais (RSD) configuraria uma vida ou uma imagem falsa. São questionadas a verdade e a autenticidade das publicações cotidianas realizadas, mas afinal:

 Somos todos falsos no Instagram?

É importante compreender que a felicidade é uma construção coletiva que acontece a partir da formação de significados nas práticas e condutas cotidianas. As imagens sobre ser feliz são construídas socialmente e consideram a realização individual mercantilizada através das mídias tradicionais ou das mídias sociais.

Enquanto construto social, a felicidade se produz por meio das práticas, modelos e ações partilhados socialmente e valorados através do reconhecimento social. Ou seja, compartilhamos aquilo que socialmente acordamos como “ser feliz” e expomos isto nas plataformas de redes sociais digitais com o intuito de receber aprovação social (likes) daqueles que nos cercam.

Freire Filho (2017) destaca em seus estudos a forma como modelos de personalidade, de apresentação de si e de performance social estariam fortemente associados à busca por felicidade. O estilo de vida daqueles que servem de modelo para o indivíduo – ou seja, os admirados – carrega características da felicidade que se mostram como as metas deste indivíduo para ser feliz. Assim, a felicidade seria mais que um sentimento, passando a ser encarada como um modo de vida imperativo. Aquele indivíduo que apresenta a felicidade tem clareza sobre as características que precisa apresentar para que validem a imagem construída.

Na busca por esse reconhecimento, as pessoas tendem a compartilhar valores e comportamentos socialmente desejáveis que gradualmente vão sendo incorporados às suas identidades. Compartilhar as festas dos finais de semana, a promoção recebida no trabalho e o momento de descontração em família nos coloca numa posição coerente diante dos valores socialmente acordados do que é ser feliz. A perspectiva dramatúrgica de Goffman entende que o comportamento esperado, durante uma situação, é apreendido das expectativas socialmente definidas para alguém, por conta do grupo social ao qual pertence (GOFFMAN, [1959] 2002).

Estas expectativas fazem parte do modo como interagimos uns com os outros e, assim, da forma como nos reconhecemos enquanto grupo social/sociedade. Em nossas performances, seja nas RSD ou face a face, costumamos apresentar aspectos reconhecidos, benéficos ou idealizados de nós mesmos que correspondam aos nossos papéis sociais. Um exemplo disso seria encontrar um amigo do passado – seja face a face ou nas RSD – e responder à pergunta “como vai a vida?”.

De modo geral, como resposta elencamos alguns aspectos benéficos da vida pessoal ou profissional que remontem nossa atual imagem para este amigo – e de modo semelhante ele o fará. Não há uma percepção de mentira ou falseamento nisso, mas de gestão da imagem de si. Vale ressaltar que em ambientes digitais alguns recursos disponíveis, como filtros e edições, colaboram neste processo de construção da melhor versão de si, ao possibilitar maior seleção e otimização daquilo que será publicado ou ocultado (RIBEIRO, 2005).

Outra característica das RSD, que favorece a sensação propagada no senso comum, é a persistência das mensagens (BOYD, 2010), que consiste na maneira como as interações em rede permanecem fixadas por conta do potencial de serem gravadas e arquivadas. Ao observar um perfil no Instagram nos deparamos com a seleção de momentos felizes fixados na linha do tempo, que emitem a impressão de que somos felizes constantemente.

O modo imperativo da felicidade propõe muitos caminhos para alcançar a felicidade associados à potencialização da performance individual, seja ela física, intelectual, afetiva, psicológica, espiritual ou social. Assim, com o objetivo de manter a coerência em sua apresentação feliz, o indivíduo recorreria às características que idealiza sobre ser feliz e que acredita compartilhar com os outros participantes em suas interações, num processo de aprimoramento de sua imagem.

Não há falseamento nesse comportamento, mas um processo refinado de gerenciamento da impressão que deseja causar.

Referências

BOYD, Danah. Social Network Sites as Networked Publics: Affordances, Dynamics, and Implications. IN: PAPACHARISSI, Zizi (ed.). Networked Self: Identity, Community, and Culture on Social Network Sites, Routledge, pp. 39-58. 2010.

FREIRE FILHO, J. Correntes da felicidade: emoções, gênero e poder. In: Matrizes: Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da USP, vol. 11, n. 1, p. 61-81, 2017.

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 2002.

RIBEIRO, J. C. Múltiplas identidades virtuais: a potencialização das experiências exploratórias do “Eu”. In: Contracampo, Niterói (RJ), v. 12, p. 171-184, 2005.

Karla Cerqueira Freitas

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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