Solidão e intimidade em tempos de mídia social digital

“Sem você, não existe eu”, é o que dizem diversas canções de amor contemporâneas. É uma expressão comum que se refere ao quanto alguém significa para nós, envolvendo sentimentos de pertença, afeto, ligação, etc. É tipicamente representada no contexto de relações românticas, podendo ser compreendida através do olhar da construção interpessoal: quem somos hoje é um reflexo natural de todas as trocas e experiências ocorridas e acumuladas com as pessoas com quem convivemos e nos relacionamos de alguma forma. Isso significa que os relacionamentos românticos não são os únicos privilegiados por essa construção de si, que é fundamentalmente social, mas existe em algum grau de intensidade ao longo de diversos tipos de relacionamentos que vivemos. Considera-se que a vida social é uma necessidade humana, sem a qual nós vivemos vidas menos significativas e até adoecemos pela falta de laços interpessoais regulares.

No entanto, o estilo de vida e convivência nas sociedades modernas demonstra uma demarcada demanda por isolamento. Um dos grandes indicadores dessa demanda contemporânea está presente nos dados sobre habitação. Desde 2011, a Organization for Economic Cooperation and Development identificou os percentuais de pessoas entre 20 e 34 anos que moram sozinhas no mundo todo. Dentre os proeminentes, temos a Dinamarca como campeã do número de pessoas que moram sozinhas: 38.8%. Países como a Alemanha, Holanda e Reino Unido pairam entre os 30% e 32%. No Brasil, dados de 2015 da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE demonstrou um crescimento de 10,4% para 14,6% entre 2005 e 2015 nessa tendência ao isolamento. Segundo o Sindicato de Habitação de São Paulo, a capital paulista aumentou a disponibilidade de apartamentos com espaços reduzidos e apropriados para que more uma só pessoa, apresentando em 2018 um crescimento de 91% no lançamento de unidades residenciais com até 45 metros quadrados.

As formas de habitação fazem parte de um conjunto maior de comodidades e ajustamentos desenvolvidos para atender ao desejo de estar só. A tecnologia tem um papel fundamental nisso, sobretudo a tecnologia digital. Os aplicativos para smartphone de entrega a domicílio permitem usar serviços variados como o supermercado, farmácia, restaurante, banco, sem a necessidade de sair. Isso cria condições propícias para a minimização do contato social e até existem formas de amenizar essa ausência caso sinta falta: é possível utilizar a internet para ouvir áudios intermináveis de sons ambientes, sejam eles sons naturais para quebrar o silêncio, sejam simulações ou gravações de barulhos de pessoas conversando como se estivesse na rua ou num ambiente movimentado. No mundo do sexo virtual, a necessidade por prazer sexual pode ser atendida em certas maneiras, como a pornografia, mas vai além provendo também a experiência de estar em algo próximo de uma casa de swing em sites de relações sexuais virtuais.

Quando chegamos nessa esfera interpessoal mais próxima, outras questões surgem. O toque e o contato físico em geral fazem parte de uma troca mais intensa de sensações e afetos entre as pessoas. Em países como o Japão, já é bastante enraizado na cultura o isolamento em imóveis minúsculos e a presença de normas sociais rígidas de convívio. A existência dos “hostess club”, casas de acompanhantes direcionadas para homens que sentem carência de companhia e conversa (em alguns casos chegando à prostituição ilegal, fora do clube) e da sua contraparte de casa noturna direcionada para mulheres, com homens que fazem a companhia a domicílio, são evidências de como o mercado que gira em torno da necessidade por contato próximo pode se consolidar. Hoje existe um refinamento atual dessa demanda no próprio Japão que segue a mesma tendência: os “cuddle cafes”, estabelecimentos feitos para dormir com alguém “de conchinha”. Existem diversas opções e pacotes, um buffet mercadológico de calor humano que cobra até mesmo por uma experiência de troca de olhares. Ainda que haja um foco no público masculino, essas manifestações orientais inspiram iniciativas similares no mundo inteiro com maior equidade de gênero.

Evidentemente, essas experiências cobiçadas não são a totalidade do que se espera de uma interação mais próxima com os outros. Seja numa amizade ou numa relação romântica, por exemplo, a convivência constante suscita exposições de aspectos de si que demandam por trocas de experiências, revelação de pensamentos e sentimentos. Durante a maior parte da história humana, a interação face a face foi o principal modelo de interação social possível. Se compartilhamos o mesmo contexto espaço-temporal que outra pessoa, requer um esforço sobre-humano tentar evitar as dinâmicas de interação, a visibilidade do comportamento e o compartilhamento das informações sobre si. Mas com o surgimento e desenvolvimento da mídia eletrônica nos séculos XIX e XX, a interação face a face foi sendo cada vez mais complementada por diferentes formas de interação mediada (como a carta ou email), a interação quase-mediada (como o rádio e a televisão) e a interação mediada online (Thompson, 2018). Isso mudou os regimes de visibilidade e de sociabilidade humana. Não é mais necessário estar presente no mesmo espaço-tempo contextual para ver o outro indivíduo ou indivíduos com quem se está interagindo ou para realizar as ações desenvolvidas num contexto de relacionamento. Assim como a interação é estendida no espaço e no tempo, o campo da relação também é.

Graças a esses aspectos da nova condição de sociabilidade, a combinação entre a busca pela solitude, a visbilidade aumentada e o compartilhamento constante cria o que parece ser um paradoxo da convivência e interação humana. Até que ponto somos livres e seguros para experienciar uma dose de solitude, do estar consigo mesmo e sentir bem-estar? Como podemos dizer que os laços afetivos se aprofundam quando estamos sempre vivendo no equilíbrio entre estar sempre presentes, ainda que distantes no espaço-tempo, e estarmos indisponíveis nas nossas próprias esferas especialmente criadas para nós mesmos? Com funcionam as camadas dessa regulação?

É possível que a complexidade dessas questões só seja possível de dar conta quando certos “vocês” cruzarem o caminho de certos “eus”, que entrelaçados criam não só as perguntas mas as respostas. A experiência do eu pode ser uma virtude indispensável, embora certamente não se sustente quando absolutamente só, e as novas formas de interagir por meio de tantas variáveis sociotécnicas nos dá campo para pensar até onde as tecnologias que produzimos e usamos estão funcionando como parte do problema ou parte da solução. Uma tensão que talvez seja insolucionável, porém produtiva e marca da maturação do presente século.

Referências

IBGE. Síntese de Indicadores Sociais. Uma análise das condições de vida da população brasileira. 2015. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv95011.pdf

THOMPSON, JOHN B. A interação mediada na era digital. MATRIZes, v. 12, n. 3, 2018.

Maurício Moura

Maurício Moura é Psicólogo, graduado pela Faculdade Ruy Barbosa e mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFBA. Atua como pesquisador clínico no grupo de pesquisa em Análise do Comportamento, Subjetividade e Cultura (UFBA), onde produz pesquisas de cunho teórico-conceitual e aplicadas. Áreas de interesse: Práticas culturais e tecnologia; relacionamentos interpessoais e intimidade; filosofia e ensino de ciências.

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