Sobre ser, pesquisar e “agarrar” – reflexões sobre o percurso de Terri Senft, a pesquisadora-camgirl

Já nesse final de 2014, nós, pesquisadores do campo da Cibercultura de diferentes partes do mundo, parecemos ainda padecer da mesma e velha angústia: os procedimentos metodológicos adotados. E é compartilhando dessa inquietação de encontrar os melhores – ou mais adequados – caminhos para viabilizar a minha tese sobre “Pornografia Digital Amadora e suas Dinâmicas Interacionais: Um estudo sobre o site CAM4”, que encontrei – e acabei de ler – o livro CamGirls: Celebrity & Community in the age of social networks (2008). Na verdade, para além de encontrar a obra em si, o que eu descobri mesmo foi a sua autora, Theresa Senft, Professora do Global Liberal Studies Program da New York University. Nesse post, pretendo discorrer sobre o percurso da pesquisadora, seus trabalhos e seu audacioso (mas nada novo) método de pesquisa, para então colocar em debate algumas questões problematizadas em seu livro – e que interessam, tangencialmente, à minha pesquisa, claro.

Terri Senft, como é mais conhecida, inicia o livro CamGirls agradecendo o incentivo da amiga danah boyd, por encorajá-la a submeter sua então tese de doutorado às críticas de colegas pesquisadores. Examinando o currículo da autora, mestre e doutora em Estudos da Performance – pela University of New York –, notei que um dos seus próximos projetos para 2015 é a edição de uma sessão especial no International Journal of Communication, em parceria com Nancy Baym, sobre estudos de selfies (a prática do auto-retrato). A parceria de Terri Senft com boyd e Baym despertou meu interesse inicial, já que as pesquisadoras em questão são estudadas por nós, aqui no Gits.

O livro de Senft sobre CamGirls não é tão recente – foi publicado em 2008 -, o que faz com que muitas de suas discussões conceituais (como uma recorrente oposição aos termos online e offline, por exemplo) já sejam consideradas obsoletas. Entretanto, o mérito do livro me parece ser o de despertar de temas então pouco explorados, mas ainda atuais. Falaremos já sobre isso. Não posso negar que o fator decisivo para a minha leitura da obra consistiu nas primeiras frases da Introdução:

In late 1999, I set up a webcam in my bedroom. I had told my friend Jennifer Fink that I was writing about camgirls – women who broadcast themselves over the web for the general public, while trying to cultivate a measure of celebrity in the process – and she suggested I ought to run a homecam of my own for a while” (SENFT, 2008, p. 1).

Sim, Terri Senft tornou-se, por um tempo, uma camgirl que investiga camgirls. A inserção e participação dos pesquisadores nos respectivos contextos estudados, como método de pesquisa etnográfico, não é novidade. Entretanto, me pareceu uma opção um tanto audaciosa por parte da autora, especialmente se considerarmos o momento da pesquisa, o ano de 1999 – quando os estudos sobre internet ainda eram um tanto incipientes – e o ambiente digital em si. Para além, Senft expôs sua vida pessoal e profissional (e acadêmica!) durante 18 meses – período em que deixou sua webcam constantemente ligada, de forma a participar, efetivamente, da experiência camgirl. Segundo ela, seu livro é um “estudo crítico e etnográfico de uma geração de camgirls e de seus espectadores/viewers, entre 2000 e 2004” (2008, p.1). Para tanto, Senft valeu-se de entrevistas, análise da performance de eventos/encontros entre camgirls e seus viewers e, claro, da sua própria experiência como camgirl. Aqui, vale uma ressalva. Embora Senft afirme ter pesquisado também sobre os espectadores-viewers das camgirls – o que muito me interessou, dada a natureza da minha investigação –, tal promessa não foi cumprida, pelo menos no livro em questão. O livro concentra o olhar um tanto na performance das camgirls em si, deixando os espectadores em segundo plano. Ainda assim, Senft consegue provocar algumas poucas – mas interessantes – questões advindas deles.

Theresa Senft se auto-intitula feminista. E como tal, a questão que norteou sua pesquisa foi a seguinte – nas palavras dela mesma: “O que significa, para as feministas, falar de “pessoal como política” em uma sociedade em rede que, simultaneamente, estimula mulheres a representarem através da confissão e da exposição sexual, a se comportarem como celebridades e que pune a visibilidade excessiva, com censura e repreensão conservadoras?” Vale dizer que o fenômeno das camgirls, nesse perído da pesquisa de Senft, não estava diretamente associado à pornografia digital. Muitas mulheres pesquisadas por ela sequer tiravam suas roupas na frente das câmeras – e quando o faziam não se tratava de uma cena intencionalmente apelativa, mas como um ato cotidiano. Fiquei de cá imaginando, como pesquisadora de pornografia digital, o tipo de repercussão que tal método de pesquisa poderia ter ocasionado na relação de Senft com seus pares-acadêmicos. E exatamente no capítulo intitulado The Public, the Private and the Pornographic, a autora responde minha curiosidade:

“I used to keep a list of the various ways people asked me to take off my clothes off online, and the questions didn’t end when I turned off the computer. The most disorienting approaches came from fellow academics, usually after we’d had a glass or two of wine at some function” (SENFT, 2008, p. 77).

O percurso de Terri Senft é realmente instigante – apesar das críticas que eu mesma já tenha feito ao pouco aprofundamento do seu livro. Dentre seus trabalhos, destaco também o fato dela ter cunhado o termo micro-celebrity, tema que lhe é caro, bem como sua participação no documentário Camgirls.

[ Minhas ] Inquietações sobre as inquietações [ de Terri Senft ]

Como a proposta aqui não é apenas a de apresentar a autora e sua obra, mas também de refletir sobre algumas questões que despertaram minha atenção, vamos a elas. Senft passeia por uma série de conceitos que dialogam com os trabalhos do Gits. Digo “passeia” porque é disso que se trata, efetivamente: um brevíssimo olhar sobre temas co-relatos ao fenômeno das camgirls. Explico: A autora se permite tocar em temas como feminismo, autenticidade, espaço, tempo, self-presentation, publicidade, branding, trabalho emocional, micro-celebridades, realidade e realismo, ciborgues, performance, voyerismo, exibicionismo, tele-presença, intimidade, privacidade, comunidades virtuais, pornografia, capital social, reputação, narcisismo, dentre outros – com não menos complexidade. Confesso que me identifiquei imediatamente com o fôlego da autora e com sua vontade de discutir todas as questões que advém da temática estudada. Entretanto, por outro lado, é bom perceber como a tentativa de “abraçar” tantas abordagens pode resultar num livro pouco consistente – ou pouco aprofundado.

Das muitas perspectivas apresentadas, entretanto, destaco o conceito que a autora apresenta de grabbing. O verbo to grab pode ser traduzido como agarrar, apanhar, arrebatar algo. Segundo Senft, é comum pensarmos sobre os espectadores das webcams a partir da concepção do voyerismo mediado – uma perspectiva que se baseia na teoria do olhar cinematográfico, como ponto de partida. Entretanto, para além do olhar fixo e embasbacado, os viewers das camgirls recebem/internalizam aquilo que eles vêem de forma fragmentada, em pedaços, sem uma sequência estabelecida, reorganizando aquelas imagens de acordo com seus próprios desejos – e até mesmo fazendo com que elas circulem como se fossem suas. Mais do que “olhar” propriamente dito, Senft defende que o espectador “agarra (grab)” tais imagens.

Ora, tentando atualizar o conceito da autora e partindo do pressuposto de que as imagens das camgirls contemporâneas já não são mais uma sequência de fotos recarregáveis em curtos intervalos, mas sim vídeos transmitidos em streamings permanentes, em tempo real e sem interrupções, me parece que o termo grabbing merece ser repensado. Como falar em “agarrar” imagens que não mais são ofertadas em pedaços, mas por inteiro? Por outro lado, em sites pornográficos amadores, por exemplo, é possível ter acesso aos vídeos no exato momento em que os atos sexuais são transmitidos, mas também procurá-los nos arquivos disponíveis nos sites. Logo, seguindo o raciocínio de Senft, os vídeos pornográficos – inteiros – podem ser “agarrados” pelos seus espectadores, mais do que simplesmente “vistos”. Gosto do conceito de grabbing para me referir à pornografia digital. Ainda não estou completamente convencida, mas pretendo desenvolver essa ideia em espaço mais apropriado. A “afetação carnal” (Paasonen, 2012) que a pornografia digital desperta nos seus viewers me leva a entender tal dinâmica como mais próxima do “agarrar” um conteúdo, uma narrativa – para além de assisti-los. Por ora, compartilho apenas minha inquietação sobre o conceito apresentado por Terri Senft – e a minha intenção inicial de me apropriar dele, em algum momento da escrita da tese.

Fonte: SENFT, Theresa M. Camgirls: celebrity and community in the age of social networks. Peter Lang Publishing: New York, 2008.

Thais Miranda

Thais Miranda é doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas (POSCOM/UFBA), com estágio doutoral na Université René Descartes, Paris V, Sorbonne (2013/2014) . É mestre em Administração (2010) e possui graduação em Comunicação Social (1999). Dedica-se à pesquisa sobre pornografia digital amadora e interações em ambientes digitais.

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