Snapchat: sobre privacidade, efemeridade e selfies

Dias atrás, foi divulgada no blog do Gits uma pesquisa mostrando significativa queda no número de usuários do Facebook entre 13 e 17 anos. A consideração é bastante interessante se percebermos a migração desses jovens para outros serviços, como Twitter, Instagram e Whatsapp. A impressão que temos é que, por meio de movimentos de abandono e apropriação de redes específicas, pessoas de diferentes idades criam círculos mais ou menos fechados, cujo acesso é controlado – em níveis variáveis, possivelmente – por articulações diversas dentre os próprios pares e pela apropriação técnica das novas ferramentas. A organização de grupos fechados no Whatsapp é, a princípio, uma dessas fórmulas, e parece funcionar bem diante do impedimento de acesso por estranhos.

Um dos dados relevantes da pesquisa em questão é a cada vez mais ampla utilização de celulares como ferramentas de exposição, comunicação e interação – o que nos remete imediatamente a uma ligação entre o indivíduo e suas formas mais íntimas de expressão midiática. Ou seja, é notável que o celular pareça ser cada vez mais uma extensão do self e das atividades que mais nos acompanham rotineiramente. Estando tão perto do nosso dia a dia, parece óbvio que eles nos sirvam como canais de vazão para nosso cotidiano.

Tendo essas questões em mente, é bastante curioso perceber ecos similares na fala de Evan Spiegel, o diretor executivo do Snapchat. Para quem não conhece, Snapchat é o aplicativo que trata suas formas de interação de maneira efêmera: baseado na troca de imagens, as fotografias e os vídeos trocados nessa rede são apagados automaticamente depois de segundos, estabelecendo práticas de compartilhamento e conversação que fogem do patamar da memória para o esquecimento. Ou, de maneira relativamente provocadora, coloca a fotografia digital numa outra esfera de instantaneidade: não é apenas a imagem que fica logo pronta, como também sua “morte” é imediata e esperada.

Spiegel, que chegou a negar a venda do aplicativo para o Facebook, trouxe considerações instigantes em sua fala num evento de tecnologia e comentada no site Techcrunch. Tomando como base a ideia ubiquidade e conexão móvel, ele lembra que a internet não está mais plantada num único lugar, mas se estende a todas as localidades em que nos encontramos. Nesse cenário de conexão constante, não há mais hiato entre o momento de produção da mensagem e seu momento de veiculação, e ambos entram em interseção dada as facilidades técnicas disponíveis.

Outro ponto interessante é quanto ao celular, o qual seria aquilo que mais se assemelha a um computador ainda mais pessoal que os PCs dos anos 1990. Daí que, a seu ver, não é possível falarmos sobre uma era pós-PC quando eles próprios são também computadores dotados de altas capacidades de processamento. Além disso, diante da característica de pessoalidade, não é à toa que eles possam promover tão bem os selfies, “a forma mais popular de expressão de si mesmo”, diz. Mais uma vez é notável a força dessa expressividade centrada no indivíduo: como já foi noticiado aqui também, “selfie” foi considerada a palavra do ano de 2013 pelo dicionário Oxford.

Há vários pontos que o Snapchat suscita para estudo em termos de interação e apropriação tecnológica. Primeiramente, há muito a se perceber nessa ligação entre a imagem fotográfico, o celular e o atributo de selfie dessas fotografias. Spiegel parece ter percebido bem o espírito da coisa e provavelmente irá tocar seu negócio tendo essas atribuições em vista. Um segundo ponto diz respeito às questões de ordem da privacidade: recentemente, foram vazados os dados de 4,6 milhões de usuários do serviço, os quais tiveram seus nomes ligados a seus números de telefone. Se esse risco existiu e se concretizou, é iminente que se questione a segurança das trocas de mensagens entre os usuários. Por fim, sua característica de efemeridade defenestra o papel mnemônico que a fotografia sempre possuiu e nos lança uma pergunta desafiadora: em relação às suas atribuições sociáveis, se ela não mas serve para registrar a história, mesmo quando há capacidade tecnológica para tanto, então tem quais finalidades?

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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One comment to “Snapchat: sobre privacidade, efemeridade e selfies”
  1. A pergunta feita no final do texto está me torturando desde o momento em que o li. É uma questão interessante que pode originar um debate muito rico. A fotografia deixa de ser um instrumento utilizado apenas para registro histórico e passa a ser também uma plataforma para construção da imagem e do discurso pessoais. Não que isso não houvesse sido feito antes. Reis, imperadores e presidentes utilizaram esse artifício largamente durante séculos. Mas hoje essa possibilidade é estendida a uma parcela muito maior da população, o que caracteriza uma mudança em grande escala na forma de socialização de muitas pessoas, de um grande grupo. Quais outras mudanças essa nova forma de socialização está provocando?

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