Simultaneidade

Talvez esta seja a palavra-chave que encerra o estágio atual da historicidade universal. Está tudo simultâneo e nesta simultaneidade a humanidade se troca em uma “bolsa de valores de sentidos” transportados por diferentes meios, em diferentes contextos, sob a forma de diferentes papéis e exercida por diferentes pessoas.
Como composição musical, o melhor ajustamento será proporcional à expressão mais coerente aos (res)sentimentos circunstanciados nos grilhões da ordem social vigente nos espaços de interação social.
Quanto mais ressoa, mais toca; estando fora do tom, à atenção chama o eventual constrangimento.
Mas como compor uma melhor canção para festas diferentes?
Se em uma é Ajaiô, noutra pode ser Ilariê.
Se ali o rito está em fase de abertura, aqui pode ser final.
Eis a enigmado dilema das experiências em ambientes híbridos: uma terra com leis concorrentes.

Não se há clareza sobre onde acontecem as experiências em tais contextos: estão no corpo, que é observado, ou na consciência que enxerga?
Em quantas experiências posso dizer “aqui”?
Em quantas línguas e identidades ei de ajustar (o) “me”?

Diante de suas peculiaridades espaço-temporais, os salões individuais já não são tão importantes, comentou Joshua Meyrowitz. Já se relativizam as localizações de “aqui”,  “agora” e “eu” .
São múltiplas, simultâneas.
São tantos os enredos interacionais , que não há como continuar sendo só um (conjunto, grupo, identidade).

Não há mais um, padrão.

Como podemos ver e experimentar em nossas práticas cotidianas, são múltiplas as possibilidades de experiências nos espaços simultâneos de trocas simbólicas, favorecidas pelo uso de recursos digitais móveis mediados pela internet, sobretudo.
São novas e constantemente reconfiguradas as lógicas e dinâmicas vivenciadas na intersecção dos usos de tecnologias e do acesso a pessoas em diferentes enredos físicos e mediados. Em tais circunstâncias o letramento sobre as normas de etiqueta e as influências do monitoramento de plateias distintas ainda é pouco claro, tanto para usuários como para pesquisadores, fato que convida-nos ao investimento de atenção às complexidades provenientes das experiências vivenciadas nestes espaços.

Vejamos. Em tempo em que escrevo este texto no meu lap top, recebo as mensagens de um aplicativo de instant messenger invadindo a moldura que enquadra o campo de visão em que minha atenção se concentra. Percebo que a novidade é simultânea.

Mais de uma informação passa a influenciar a percepção sobre o quadro que limita e organiza a minha experiência aqui e agora. Percebo algo que me chama a atenção logo atrás desta janelinha do aplicativo de escrever. É um outro texto que escrevi que está aberto, aguardando por resolução. Nele há uma marcação em vermelho, com um comentário sobre alguma bobagem ou sacada que escrevi. Tem escrito “Conversar com JC”. Imediatamente me lembro da necessidade de conversar com JC, pensamento “atropelado” pela informação de que “Seu disco está quase cheio”, avisado por outra janelinha: tudo isso enquanto eu continuo a escrever este texto. Percebo uma diversidade de conteúdos simultâneos em minha experiência com o mundo.

A Smartv está ligada. Eu escolhi a transmissão de videos de artistas que comunicam uma linguagem que considero bela e facilite meu bem-estar durante a tarefa de escrita. Volta e meia, enquanto escrevo, compartilho a minha atenção às passagens das músicas que tocam. Neste momento toca uma música em homenagem a Nanã, Matriarca dos Orixás da maravilhosa Cultura Afrobrasileira. Canta Mariene de Castro. Naturalmente, diminuo o meu envolvimento com a tela de meu computador e mergulho nas belíssimas imagens do videolipe, mas permaneço escrevendo nesta janela e organizando a atividade de meus dedos sobre o meu computador. Percebo o exercício de atividade simultâneas em minha experiência com o mundo.

O que mais me agrada na Smartv é a facilidade em selecionar. Posso sincronizar as tarefas a partir de meu dispositivo móvel, escolhendo os conteúdos que desejo consumir, no momento em que considero possível e ainda posso escolher quem protagonizará estas interações quase-mediadas. Geralmente escolho por artistas, cientistas e verdadeiros intelectuais, afinal, em tempos em que a ética preponderante está associada à epistemologia do senso comum, quem não tem lá muita paciência para assertivas superficiais precisa e pode controlar o que se consome em termos de informação. Aleluia!

Admito que na frente da Smartv eu realmente não tenho “bons modos”: nada me causa preocupação quanto a interrupção de turnos de fala de quem está na tela . Posso até ignorar as solicitações que vêm de lá, deixando, volta e meia, o assunto em suspenso pelo simples pressionar dos botões “pause” ou “mute”, acessíveis por um aplicativo de meu smartphone ou por meio do próprio controle remoto da Tv inteligente. Percebo haver simultaneidade de controles.

Quando tenho uma dúvida sobre algo apresentado pelos videos assistidos ou mesmo desejo parabenizar o conteúdo, gosto deixar comentários. Percebo que fico realmente feliz quando sou respondido, tanto imediatamente quanto de forma mais demorada. Neste ambiente físico em que estou, o uso da Smartv não me constrange. Pelo contrário, por vezes me ajuda a restaurar os assuntos com os meus pares e até beneficiar negociações românticas. Percebo que a simultaneidade favorece os meus processos de trocas informacionais, em diferentes níveis de relações de intimidade.

Enquanto uma inesperada propaganda invade o meu espaço com informações não solicitadas, checo o meu e-mail e tenho a surpreendente notícia de que participarei conjuntamente com colegas que tem o mesmo interesse científico de duas videoconferências simultâneas. Enquanto acompanharemos uma palestra que será transmitida ao vivo em uma plataforma de vídeo, conversaremos por meio de videoconferência, diretamente dos sofás e mesas de nossos lares, vestidos como quem acorda, dividindo a atenção entre aquelas atividades domésticas que todo mundo realiza, mas não compartilhada nas redes sociais. Me faz lembrar do dia em que, a partir de compartilhamento dos conteúdos da minha tela, circundei as impressionantes pirâmides no Egito escutando musicas o disco mais recente de Tiganá Santana em companhia-mediada de um querido amigo que mora na Austrália. Naquele momento eu já havia percebido a existência de uma (por vezes, confortável) hiperconectividade simultânea.

Dei conta de mim. Por um momento percebi que permaneci tão imerso às simultaneidades que me desconectei do que estava acontecendo no meu ambiente imediato, o físico. Este ambiente também é simultâneo, afinal, estava aqui, acontecendo enquanto eu fazia toda aquela viagem.
Resolvo observá-lo como nunca antes, descrevendo-o, como se fosse a primeira visita. Observo que ele é repleto de informações associadas ao amor: estão por todas as paredes e móveis. Há fotos familiares, minha mãe, meu pai, minha esposa, minhas guitarras, meu piano e meu amplificador. Há almofadas de artistas e espiritualidade. Há livros por todas as partes. Parece que gostam muito de arte e música, devido aos quadros nas paredes e a quantidade de informação lúdica aparente. Definitvamente posso chamar-lo e entendê-lo como o que me ensinaram ser um “Lar”. Passo a imaginar o quanto os elementos que constituem este lar influenciam nos meus comportamentos cotidianos. Estar aqui, me faz entender como devo me comportar neste ambiente e, inclusive, quando houver necessidade de visitar outros espaços por meio da mediação da tecnologia comunicacional enquanto na presença física de outros pares. Certamente, as regras dos diferentes espaços me convidará a ajustar-me coerentemente a ambos os espaços simultâneos. Percebo então a existência de simultaneidade entre espaços, enredos e normas sociais.

Percebo haver uma diferença clara nas expectativas sobre o meu comportamento, em relação aos meus copresentes neste espaço físico, quando estou assistindo a Smartv ou quando fico vidrado no Laptop. Quando estou apenas escrevendo, olhando para esta bendita tela, acredito expressar uma feição de desatenção, sinalizando uma expectativa ao respeito por estar ocupado. Por outro lado, enquanto escrevo aparece uma janelinha informando uma mensagem nova de minha irmã pelo Instant messenger. Algo pode ter sinalizado a ela que eu esteja acessível online e disponível agora. Mantenho o mesmo padrão de conduta representado no ambiente de minha casa. Penso : “Estou disponível, mas não posso responder agora.” Decido deixar minha irmã esperado um pouco. Isso me ajuda até a pensar melhor sobre as soluções que imagino serem solicitadas por ela. Mas identifico o aparecimento de outra janelinha. Minha outra irmã me chama: algo pode ter acontecido. É digna de nota uma curiosidade. Percebo sensações diferentes quando abro as janelas de cada uma de minhas irmãs. Mesmo havendo a mesma configuração de fundo de tela e de recursos para utilização, vivencio experiências totalmente distintas diante dos mesmos espaços comunicacionais. Bom, mas a primeira irmã acabou de me enviar uma outra mensagem. São duas. Pode ser algo urgente! Talvez seja melhor responder logo, afinal, eu tenho pouca informação sobre onde elas estão e sobre o que está acontecendo lá(s) neste momento. Me sinto injusto com a minha esposa, que passa por detrás de mim como que pisando em ovos para não fazer barulho e não me atrapalhar. Reflito e percebo que mesmo havendo a simultaneidade dos espaços sociais, as condutas tendem a ser diferentes para cada qual.

Paro um pouco para pensar sobre as diferenças sobre as regras sociais a partir desta minha experiência. Olho para a janela, à minha esquerda, e percebo que o lado de fora delimita o que existe dentro desta sala. Lá não há regras pois não há pessoas, apenas pássaros voando e vento. Perceber esta diferença, me ajuda e identificar diferentes molduras possíveis em minha simples experiencia de sentar e escrever este texto: percebo um quadro geral que compete o espaço físico, percebido a partir dos meus olhos, sentado nesta cadeira até o limite da janela. Neste quadro, além de móveis há uma Smartv, por onde informações evadiam, atingindo os meus órgãos de sentido, alimentando a minha experiencia e cognição. Mais próximo de mim e de meus dedos, percebo este computador, em que escrevo, imerso em um fundo branco e linhas com letras azuis, em que faço um exercício de emersão de pensamentos simultâneos; ao lado direito, meu celular acende uma nova moldura, informando que é hora de retornar à leitura do livro de Erving Goffman que está aberto ao meu lado esquerdo em que vivenciarei uma nova experiencia de imersão dentro do pensamento (simultâneo).

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