Conferência com Fernanda Bruno abre segundo dia

A professora Fernanda Bruno (UFRJ) abriu o segundo dia do SIMSOCIAL com a conferência “O que diz um traço pessoal digital? Monitoramento, saberes e redes sociotécnicas”. Na conferência, foi apontado que toda ação humana é passível de deixar vestígio, que pode ser mais ou menos visível, resistente, rastreável, duradouro ou voluntário e assim é enfatizado o caráter ambíguo e polissêmico do rastro.

Fernanda ressalta o rastro como uma espécie de “quase objeto” e aponta que o rastro pessoal digital possui algumas peculiaridades, não necessariamente exclusivas, mas que no ambiente da internet são mais acentuadas. É enfatizado ainda o fato de que além ou aquém de informações divulgadas voluntariamente, são gerados rastros factíveis de serem capturados. Dessa forma, na rede, a relação entre o voluntário e o involuntário é muito forte: quanto mais um individuo age na rede, mais rastros são produzidos.

Outro ponto abordado foi o intervalo entre ação, produção e recuperação de rastros, que em rede diminui drasticamente; em âmbito digital o registro de rastros se dá instantaneamente e pode ser rapidamente recuperado.

Redes
Fernanda apontou, ainda, que nesse contexto temos uma paisagem extremamente rica, que renova a produção de saberes no domínio das ciências humanas e sociais, que agora podem sair das petições que sempre a pautaram, como macro e micro, global e local. É colocado ainda uma epistemologia policial e política dos rastros. Na epistemologia policial, que também possui uma dimensão comercial, os rastros fornecem provas, índices e evidências. Em um nível político, baseado em Bruno Latour, a rede deixa de ser uma teia, para ser aquilo que faz proliferar os mediadores.

A grande problemática da excelente fala da conferência instiga a responder a seguinte questão: “o que dizem os rastros digitais?”. A pergunta não é trivial.

Mesa-redonda com o tema “ampliação do uso das mídias sociais: desdobramentos possíveis”

Ainda pela manhã, os professores membros do GITS/UFBA, José Carlos Ribeiro, Malu Fontes e Fabrício de Souza, participaram de uma mesa-redonda discutindo o tema “ampliação do uso das mídias sociais: desdobramentos possíveis”.

Prof. José Carlos dá inicio a mesa abordando a questão da auto-apresentação em mídias sociais, onde problematiza o uso de aplicativos sociais nesse processo. Para essa discussão aponta duas aplicações de tais aplicativos. A primeira delas se dá no resgate das informações sociais, em que são realizadas releituras de si mesmo e reconstrução daquilo que se é. A segunda implicação diz respeito a comparativos de informações sociais, em que o individuo se compara aos outros, em aplicativos que medem a audiência e categorizam o usuário. O professor ressalta que tais aplicativos trazem elementos que geram reflexão e interferem na auto-apresentação e coloca a seguinte provocação: de que forma esses aplicativos que auxiliam na construção da auto-apresentação influenciam na (re)constituição dos aspectos do self?

Em seguida, professora Malu Fontes traz a questão do agendamento pelos meios de comunicação chamados tradicionais. A professora não acredita que não há mais um agendamento por parte de tais meios e defende a idéia de que o que existe hoje é uma provocação gerada a partir das mídias sociais, que obriga os meios tradicionais a agendarem determinado assunto. Profª Malu traz à discussão a Primavera Árabe, em que pessoas insatisfeitas com a ditadura, que sempre contou com grandes grupos hegemônicos, ensaiaram um movimento onde as redes sociais tiveram um papel fundamental e obrigaram os meios tradicionais a transmitirem as reivindicações, construindo um movimento global. Dessa forma, as redes sociais reverberaram o movimento e foram fundamentais na rapidez de sua construção. Malu aponta também que a mídia convencional ainda faz uma cobertura muito caricata, muitas vezes deslegitimando o movimento e contrapõe ao fato de que ainda que caricata, não há mais como esconder notícias, criando um vértice ruas, meios e mídias sociais. Para finalizar propõe a discussão de como esses três elementos conversam e interferem um no outro.

Finalizando a mesa-redonda, professor Fabrício de Souza problematiza a forma como a fala permitiu ao homem multiplicar suas capacidades de contatos sociais e, partindo dessa reflexão, aponta que a comunicação mediada amplia ainda mais a função da fala. Professor Fabrício ressalta ainda que a espetacularização da vida cotidiana não é o único aspecto do compartilhamento de experiências no ciberespaço e aponta que a grande preocupação diante da ampliação das redes sociais esta no desafio metodológico: não podemos generalizar uma experiência pessoal em algo universal. Prof. Fabrício finaliza sua fala propondo o desafio de uma investigação adequada e sistemática e não apenas interpretativa.

Primeiro dia do SIMSOCIAL

O SIMSOCIAL teve início nessa quinta (13) com o auditório lotado de participantes vindos de diversos lugares do Brasil. Devido ao grande número de pessoas, houve transmissão das palestras em mais duas salas da universidade. Há ainda transmissão ao vivo online durante todo o evento. O evento teve em sua abertura os professores José Carlos Ribeiro (coordenador do Simpósio e do GITS), André Lemos (Coordenador do GPC) e Edson Dalmonte (Coordenador do PósCom).

Prof. José Carlos abriu o SIMSOCIAL falando sobre a origem do simpósio, surgido da necessidade do GITS em buscar elementos para fortalecer a discussão e sobre a importância do apoio da universidade e dos grupos de pesquisa próximos. Em sua fala o professor ressaltou ainda a receptividade positiva do evento, relacionada com o grande número de trabalhos enviados.

Dando sequência, Prof. André Lemos fez um breve histórico sobre a linha de pesquisa Cibercultura, criada em 1999, que começou a ser germinada ainda em 1996 com o grupo Ciberpequisa, que fazia parte da linha Comunicação e Sociabilidade. O professor enfatizou que o SIMSOCIAL veio para quebrar a inércia de alguns anos sem evento, parabenizando a iniciativa do Prof. José Carlos Ribeiro e do GITS.

Para finalizar, Prof. Edson Dalmonte acolheu a todos os participantes e parabenizou Prof. Jose Carlos e integrantes do GITS pelo empenho na realização do evento.

Ainda pela manhã, a conferência de abertura, com Massimo Di Felice, abordou o tema “Redes Sociais na Internet” e a mesa-redonda com os professores José Carlos Ribeiro, Malu Fontes e Fabrício de Souza discutiu a temática “Ampliação do uso das Mídias Sociais: desdobramentos possíveis”.

 
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