Sherry Turkle em conferência do TED

Qual o problema com as conversas que ocorrem por meios eletrônicos? Esses aparatos não mudam apenas o que fazemos, mas quem nós somos. Essa é a preocupação – e principal alegação – que Sherry Turkle, pesquisadora do MIT, traz em sua mais recente conferência no TED, a qual se remete a sua mais recente obra, Alone Together, lançado em 2011 .

Turkle ficou mundialmente famosa por seu livro Llife On The Screen, onde assumia uma postura bastante otimista em relação à construção de nossas identidades na Internet. Agora, entretanto, o tom ficou, senão pessimista, ao menos mais questionador.

Em sua fala, Turkle é incisiva quanto à falta de atenção que temos quando estamos juntos e, paradoxalmente, não estamos tão juntos assim. Para ela, essa forma dispersa de estar junto é problemático justamente porque estamos formatando uma outra maneira de interação, o que ela cunha por “alone together”, uma brincadeira com as palavras sozinho e juntos.

As pessoas querem estar umas com as outras, mas também se conectar a todos aqueles lugares variados onde elas gostariam de estar . Desejam personalizar suas vidas.

Para Turkle, há um sério problema aí: queremos ter controle sobre nossas vidas e conexões, mas acabamos por não saber como gerenciar nossa capacidade de atenção. Nessa falha, ela diz, podemos acabar nos ocultando ou afastando uns dos outros em busca de controle sobre aquilo a que queremos estar atento ou sobre aquilo que desejamos passar aos demais. Esse “desaprender” a interagir seria algo tão grave a ponto de mesmo não sabermos mais como lidar com conversas tête-à-tête, por exemplo.

E qual o problema com as interações offline? As respostas que a pesquisadora tem encontrado indicam a falta de controle sobre o tempo e o fluxo das informações. “Elas ocorrem em tempo real e não é possível controlar aquilo que se diz”, falam seus entrevistados. Por outro lado, mensanges por celular, e-mail, postagens em blogs ou chats oferecem ferramentas mais efetivas para a modelagem da pessoa que desejamos ser – é possível editar e filtrar os pedaços de mensagens que disparamos em nossas timelines.

Não é à toa que é tão fascinante ter uma página pessoal no Facebook ou uma conta de Twitter: podemos ter em mãos tais possibilidades de articulação de imagem sem que estejamos, por exemplo, à mercê de índices corpóreos que nos escapam às mãos. Além disso, diz Turkle, a sensação de que ninguém está prestando atenção em nós faz com que gastemos nosso tempo com máquinas que apenas aparentam dar atenção, mas realmente não dão.

Não é possível, entretanto, deixar de discordar de alguns pontos do raciocínio de Turkle. A pesquisadora trata as interações presenciais simplesmente como melhores ou mais ricas, numa consideração um tanto apressada. O motivo de tal posicionamento parece se dar simplesmente por terem sido essas as formas as pioneiras a terem surgido – esquece-se, portanto, de que se tivéssemos, enquanto humanos, desenvolvido primeiro os meios de comunicação que nos permitissem ter experiências mediadas, provavelmente seu próprio argumento se daria por inverso, considerando uma mensagem de e-mail mais rica que uma conversa face a face. Além disso, mostra-se totalmente discrente quanto à possibilidade de aprendermos uns sobre os outros ao usarmos ferramentas de interação online.

Uma conversa [presencial] pode realmente fazer diferença [em nossas vidas] pois pode ter influência direta na nossa capacidade de autocompreensão. Para as crianças em fase de crescimento, essa habilidade é base para seu desenvolvimento.

Apesar de vários pontos controversos e do tom exagerado de preocupação que a pesquisadora evoca, vale a pena assistir ao vídeo por completo e fazer as próprias considerações sobre os argumentos de Turkle.

Link direto do vídeo: http://www.ted.com/talks/sherry_turkle_alone_together.html

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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