Seu site de rede social pode revelar mais do que você deseja

Stalkear em SRS

Texto por Karla Freitas e Lisi Barberino

Há algumas semanas, durante reunião do GITS, discutíamos questões relacionadas a comportamentos sociais e encontros amorosos.  Esse tema recorrente, despertou inquietações alusivas ao modo como acompanhamos a vida daqueles com os quais nos relacionamos afetivamente,  sobretudo, com a entrada em cena dos Sites de Redes Sociais (SRS).

O ato de buscar informações sobre quem nos interessa afetivamente não é novidade. Existem diferentes meios de se adquirir informações sobre pretendentes, parceiros e sobre a própria relação. Sendo, talvez, a comunicação interpessoal face a face a modalidade mais direta de obtê-las. No entanto, é comum parceiros empregarem estratégias diversas para aprenderem sobre o outro.  Por exemplo, observar o comportamento do alvo a distância, vê-lo interagir com outras pessoas em encontros sociais (ser espectador), ou mesmo consultar a terceiros sobre o mesmo.

Os SRS, sem dúvida, constituem-se na atualidade como poderosa ferramenta para monitoramento e coleta de informações variadas sobre indivíduos e grupos.  O ato de “seguir” com afinco o cotidiano de alguém em ambientes digitais é referenciado popularmente no Brasil a partir do termo “stalkear”, derivado da palavra de origem inglesa stalker[1].

Tokunaga (2011), em artigo sobre o que nomeia como vigilância eletrônica interpessoal, IES, na sigla em inglês, identifica quatro características dos SRS capazes de facilitar a vigilância entre parceiros amorosos:

  • Facilidade ao acesso de informações pessoais – Acesso a perfis pessoais e conexões à apenas um clique de qualquer usuário da rede;
  • Multiplicidade de informações pessoais disponíveis – Incluindo informações em diferentes formatos – vídeos, textos, fotografias, links, etc;
  • Rastreabilidade de dados – o parceiro pode conduzir sua investigação através de ações efetuadas no passado;
  • Discrição  – uma vez que nem proximidade geográfica, nem interação focada são necessárias, o vigilante pode obter as informações desejadas sem que o outro desconfie ou se perceba como alvo de vigilância.

Sendo assim, os SRS podem ser um terreno ideal para pessoas que desejam saber sobre os hábitos de outra – seu passado, sua rotina, com quem se relaciona,  o que pensa e o que gosta – sem que para isso sejam descobertas.  Mas a partir desse grau de exposição elevado, como usuários de SRS estão utilizando os recursos de privacidade no gerenciamento de suas informações pessoais, afim de evitarem a ação de stalkers ou manterem a coerência de imagem desejada?

Resultados apontam para uma separação dos públicos pela utilização de diferentes plataformas (NEJM, 2016). Assim, imagens e conteúdos que um indivíduo apresenta sobre seu cotidiano no Instagram são selecionadas para aquele público que ele reconhece e considera adequado realizar aquela exposição. Este mesmo indivíduo, de modo estratégico, elege as imagens que compartilhará noutra audiência, como a do seu Whatsapp por exemplo. Tal gestão de informações requer que o indivíduo tenha familiaridade com a plataforma e suas ferramentas e letramento suficiente sobre a situação que se desenvolve naquele lugar, com aquelas pessoas e sobre seu papel nela.

O manejo de informações face a face é abordado por Goffman (2014) como gerenciamento de impressão, o qual tem por finalidade o controle da imagem ou seja, a pessoa faz escolhas sobre aquilo que irá expor e onde, a fim de obter uma determinada imagem de si. Goffman (2014) interessava-se especialmente  pelos momentos em que indivíduos,  “desligam-se” de um estado de consciência e cometem pequenos “deslizes” em seus gerenciamentos de impressões a partir de informações emitidas. De acordo com Barash, Ducheneaut, Isaacs & Bellotti (2010), os usuários de SRS geralmente obtém sucesso ao transmitir uma imagem positiva de si mesmos, mas tendem a subestimar a força das impressões que emitem, encontrando-se apenas parcialmente conscientes desse processo.

Voltemos ao manuseio das configurações de privacidade para pensarmos sobre como a pouca importância dada a isto pode causar uma falha na imagem objetivada.  Aquele que mantém um perfil público, em uma plataforma digital, por exemplo, possivelmente encontrará mais dificuldades em manter a imagem que deseja transmitir, do que aquele que mantém um perfil semi-público ou privado.  O acesso de informações pessoais por quem não se imagina (audiências invisíveis) e a possibilidade de busca e cruzamento de informações são complexificadoras desse processo. Em um perfil público, o “stalker”, não apenas terá acesso a maior diversidade de informações, como poderá cruzar os dados coletados em diferentes SRS, encontrando possíveis inconsistências na apresentação gerada ou flagrando representações não direcionadas a ele ou que o indivíduo não desejou publicar, mas extremamente reveladoras.

Algumas especificidades técnicas das plataformas contribuem significativamente para essa revelação, que inclusive pode ser muito desconcertante, a exemplo das marcações ou menções de usuários que facilitam aos stalkers encontrar perfis e postagens de seu alvo em SRS mesmo que estas não tenham sido feitas por ele. Desse modo, o gerenciamento de impressões em ambientes digitais mostra-se sensível às particularidades (limitações e potencialidades) específicas do ambiente em que os interlocutores estão inseridos, ao grau de letramento e familiaridade com tais plataformas – incluindo a capacidade de manejo de configurações de privacidade – assim como ao domínio sobre a situação estabelecida.

Neste sentido, o indivíduo, durante o processo de gerenciamento de impressões em SRS também está amarrado ao papel social escolhido e tal gestão se complexifica ao considerar uma audiência imaginada (que por vezes pode se revelar muito diversa) e os recursos disponíveis nas plataformas digitais. A ideia de que poderia agir de um modo no ambiente online e de outro offline, separadamente, já não há mais.

[1] Palavra inglesa que significa “perseguidor”. É aplicada a alguém que importuna de forma insistente e obsessiva uma outra pessoa que, em muitos casos, é uma celebridade. No entanto, no texto não fazemos referência a  essa dimensão patológica, nos referimos simplesmente a ação cotidiana de observar rotineiramente indivíduos em ambientes digitais.

Referências
BARASH, Vladimir; DUCHENEAUT, Nicolas; ISAACS, Ellen; BELLOTTI, Victoria. Faceplant: Impression (Mis)management in Facebook Status Updates. Proceedings of the Fourth International AAAI Conference on Weblogs and Social Media, 2010.
GOFFMAN, Erving. A representaçãoo do eu na vida cotidiana. 20 ed. Petropólis, Rio de Janeiro, Vozes, 2014.
NEJM, Rodrigo. Exposição de si e gerenciamento da privacidade de adolescentes nos contextos digitais. 2016. 267 f. Tese (doutorado) Universidade Federal da Bahia, Instituto de Psicologia, 2016.
TOKUNAGA RS. Social networking site or social surveillance site? Understanding the use of interpersonal electronic sur- veillance in romantic relationships. Computers in Human Behavior 2011; 27:705–713.

Karla Cerqueira

é mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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