Selfie, a palavra do ano

you-timeEm 2006, a revista Time elegeu “você” como a pessoa daquele ano. Ao agir dessa maneira, a publicação estava pondo em evidência a capacidade cada vez mais crescente e rica dos até então consumidores de informação passarem a fazer parte do universo de produção. Sublinhava, assim, o chamado conteúdo gerado pelo usuário, especialmente em percepção às plataformas colaborativas e de expressão própria disponíveis na internet, como é o caso do Blogger e Youtube. O próprio Youtube, aliás, ao utilizar o pronome você e o slogan “broadcast yourself”, colocava o usuário do serviço no patamar ativo e de responsabilidade possivelmente inéditos na nossa história. Se considerarmos que o século XX foi o único a ter presenciado um modelo de meios massivos a alcançarem audiências gigantescas – precisamente o que lhe caracteriza como sendo “de massa” -, agora, então, tínhamos às mãos a chance de materializar pensamentos e opiniões próprias.

A euforia daqueles tempos estava na virtual democratização da produção de informações – o que já havia sido bastante frisado nos anos iniciais da internet aberta ao uso civil, mas que veio a se concretizar relativamente apenas então, em especial com o que se chamou por “web 2.0” e suas ferramentas voltadas à colaboração, participação e atuações coletivas. O que se via, pois, era certo ânimo em relação às possibilidades desse poder de produção distribuído. No horizonte, talvez no lado mais otimista, situava-se o “nós” como arranjo resultante desse “você” – afinal, com tantos indivíduos juntos, o que viria dali só se poderia supor uma primeira pessoa no plural.

A pluralidade, aliás, parecia ser então um aspecto deveras importante nas preocupações em torno da rede – como se estivéssemos a ponto de instaurar uma anarquia algo similar. É notório que, tendo em vista esse contexto, um dos ataques mais furiosos que essa internet aberta, participativa, convidativa e “amadora” tenha recebido seja justamente aquele de Andrew Keen e sua guerra santa particular contra o amadorismo. No seu modo de perceber, o problema como tanta abertura à participação estava na falta de curadoria em relação à qualidade do conteúdo produzido, realizando, assim, uma clara defesa à atuação de profissionais treinados para o fim desejado – fosse o da realização, fosse o da filtragem para publicação. De um modo até oportunista, bombardeou uma iniciativa que não vinha de ninguém em particular e alçou-se como um dos principais comentadores daquilo período.

Já nesse quase findo ano de 2013, outra notícia curiosa nos chamou a atenção: o dicionário Oxford acaba de anunciar “selfie” como a palavra do ano – o que nos parece levar bem longe daquela possível situação em que o “nós” ganha mais importância que o “eu”.

Selfie caracteriza os tempos atuais de egocentrismo?

Em linhas gerais, Selfie é uma espécie de movimento, meme ou simplesmente ideia que é alimentada pela prática de tirar fotos de si mesmo – ao passo que também a alimenta. Em seu site, o dicionário caracteriza a foto selfie como originada por celulares ou webcams e posta em circulação em redes sociais. Também de acordo com a publicação, o termo foi utilizado pela primeira vez em 2002, mas apenas no ano passado começou a ser mais amplamente utilizado.

Selfie, se for compreendido como um fenômeno, ainda que bastante localizado e efêmero, parece ser um tanto significativo quanto às práticas de interação e compartilhamento de fotografia atuais. Note-se que: a) fotografar não mais é apenas o ato do registro, mas carrega cada vez mais consigo um lastro de exibição e diálogo para com os pares; e que b) as formas de crédito, validação e legitimação pessoais passam pela interação com nossos pares. Isso nos indica que o selfie, encarado também como editado, performado, reenquadrado e posto em circulação sob controles determinados, pode ser entendido como uma forte expressão dos jovens nos dias atuais – o que nos leva ao ápice do estranhamento com iniciativas curiosas como estas:

Mrpimpgoodgame

O selfie parece ter encontrado em Mrpimpgoodgame um representante bem expressivo: o nome bizarro, na verdade, é o nick de Benny Wilfield Jr, que se diz o “líder do movimento selfie”. Benny posta rotineiramente em sua conta fotos de si com as mesmas feições, ângulos e enquadramentos. Num tempo em que o Instagram tem sido amplamente utilizado para o registro de tudo – de objetos e situações diversas – o personagem-símbolo do movimento dá um show de ironia ao colocar-se a si mesmo como objeto fotográfico e de compartilhamento.

Shots of Me

Outra iniciativa curiosa é aquela bancada por Justin Bieber: o jovem astro é um dos principais investidores do Shots of Me, um app para smartphones voltado para os selfies. De funcionamento similar ao Instagram, o Shots of Me é exclusivamente dedicado para fotografia do próprio usuário.

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Aqui não nos interessa muito qual a metodologia ou os critérios usados pelo dicionário Oxford, mas vale, aí sim, considerar que, ao ser tratada como a palavra do ano, o termo adentra um círculo de legitimação que o coloca como palavra-chave para a compreensão dos aplicativos mais usados atualmente. Além disso, de certa forma, expressa os resultados daquele “you” de 2006. Ao que tudo indica, ninguém parece ter previsto a imensa alimentação do ego que aquela notícia causou – e mesmo Andrew Keen, o inimigo número 1 do amadorismo, parece ter errado o alvo. Em outras palavras, ao termos percebido grandes poderes de publicação em nossas mãos, resolvemos menos tomar caminhos coletivos produtivos e mais alimentar nossos selves com doses relativamente estratégicas de legitimação social. É claro que encontramos aí iniciativas claras de coletividade – vide as manifestações de junho auxiliadas por articulações em rede – mas a expressividade do selfie é marcante. Num tempo repleto de likes e nenhum dislike, faz sentido que queiramos atenção a nós mesmos e “eus” cada vez mais inflados. Tomemos essa dimensão certos de que é um diagnóstico impreciso e bastante parcial, mas também estejamos cientes de que esse é um dado peculiar e bastante sintomático das práticas de sociabilidade que vemos na atualidade.

Em tempo, para não ficarmos apenas nas críticas ao selfie, vale ler uma certa defesa veiculada no Urban Times. Teria sido Frida Kahlo uma selfier?

 

 

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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