Saúde sexual em redes sociais digitais?

As redes sociais digitais (RSD) são cada vez mais parte da nossa vida cotidiana. A presença das tecnologias de informação e comunicação têm alterado significativamente as configurações sociais. É comum ouvirmos falar que não estamos mais vivendo pois passamos muito tempo olhando para telas.

O fato é que boa dose de nossa existência ocorre tanto nos ambientes digitais, como nos contextos de interação face-a-face, ou, como diria, Danah Boyd (2007), apresentamos comportamentos híbridos. Por exemplo, podemos pedir um táxi diretamente ao taxista, ou chamá-lo através de um aplicativo de solicitação de viagens.

É possível criar grupos de estudos, divulgar trabalhos, praticar esportes (conhecidos como e-esportes), experienciar a religiosidade e uma infinidade de atividades humanas que queiramos experimentar, tudo em contextos mediados. Mas afinal, será possível falar em promoção de saúde sexual nas RSD?

Desde o advento dos fóruns e blogs na chamada web 2.0, a internet tem sido usada como meio para ativismo digital (Natansohn, 2013) e mais recentemente, como fim em si mesmo para isso. Especificamente, vemos nas RSD, como instagram e facebook, perfis de youtubers, influenciadoras e influenciadores, atrizes e atores e até grupos e comunidade, como a LGBT, defendendo seus valores sociais e princípios. Dentre eles, os direitos sexuais. E  o que os direitos sexuais têm a ver com a promoção da saúde sexual?

Promover saúde, resumidamente, é garantir a cidadania, proporcionar capacidade de autonomia e escolha, de forma individual e coletiva, para lidar com os condicionantes da saúde, abrangendo a ideia de gerar o bem-estar de grupos e populações (Czeresnia, 2003). Produzir conteúdos como vídeos, vlogs, imagens informativas, textos interativos, dentre tantos outros recursos técnicos disponíveis nas RSD utilizados por esses perfis é uma forma de assegurar e concretizar direitos internacionais e nacionais, além de estimular a autonomia dos sujeitos. Ademais, o acesso à informação, e a interação são um dos principais meios para educação sexual, que por sua vez é promotora de saúde.

Fonte: Shutterstock

O potencial que as condições sócio-técnicas dos ambientes digitais têm amplifica a promoção da saúde sexual, pois vivemos uma networked publics (Boyd, 2007), em que os contextos digitais são construídos através do encontro e intersecção de coletivos de pessoas, tecnologias e práticas. Ela apresenta características como  replicabilidade, em que o conteúdo produzido pode ser disseminado com facilidade; escalabilidade- a visibilidade potencial do conteúdo é global; e buscabilidade: o conteúdo pode ser acessado através de buscas (Nejm, 2016), ou seja, a construção, compartilhamento e acesso a posts relacionados a saúde sexual estão acessíveis constantemente, de forma prática e por uma audiência de tamanho desconhecido.

Além disso, as RSD tem uma possibilidade interativa muito grande, e que de fato ocorre. Influenciadoras/es e seguidoras/es discutem entre si, divulgam, fomentam e constroem mais saberes sobre a saúde sexual; interação essa que muitas vezes vem acompanhada da discussão dos direitos sexuais e do respeito à diversidade sexual.  

O sexo foi tabu e ainda é; falar sobre saúde sexual é essencial para qualidade de vida, tanto para propiciar bem-estar, como para prevenir e evitar violências. A discussão e divulgação dela em ambientes digitais leva às práticas presenciais e vice-versa, principalmente pelo vínculo que é criado entre os perfis e suas/seus seguidoras/es, as/os quais consideram válido refletir sobre os conteúdos produzidos pelas webcelebridades, e já que apresentamos comportamentos híbridos, e esse cuidado em saúde tanto mediado, quanto face-a-face, é de extrema importância. Especialmente num quadro em promoção, em que a positividade é muito mais presente nos conteúdos, sem necessariamente  atrelar saúde sexual à doença.

A multiplicidade e liberdade de informação que a internet, como espaço democrático, proporciona, a partir da apropriação de pessoas que consideram importante debater o tema, e a da interação mediada, tem se mostrado bastante promissora. Ainda mais quando se pensa que a saúde é corresponsabilidade dos sujeitos (Brasil, 2015), um dos princípios sanitaristas mais difíceis de se concretizar nos serviços de saúde. Vemos, através das RSD, o protagonismo e construção coletiva do cuidado em saúde sexual, contribuindo para constituição de uma sociedade mais justa e saudável em escala mundial.

Referências

Boyd, D.M., Ellison, N. B. (2007). Social network sites: Definition, history, and scholarship. Journal of Computer Mediated Communication, 13(1), 210-230.

Brasil (2015). Política Nacional de Humanização. 1ª ed. 2ª reimp., 1-16, Brasília: Ministérioda Saúde. Retirado de <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/folder/politica_nacional_humanizacao_pnh_1ed.pdf>.

Czeresnia, D. (2003). O conceito de saúde e as diferenças entre prevenção e promoção. In: Czeresnia, D., Freitas, C. (orgs.). Promoção da saúde: conceitos, reflexões, tendências. Rio de Janeiro: Fiocruz.

Natansohn, G. (2013). Qué têm a ver as tecnologías digitais com o gênero?. In: Natansohn, G. (org.). Internet em código feminino: teorias e práticas. Buenos Aires: La Crujía Ediciones.

Nejm, R. (2016). Exposição de si e gerenciamento da privacidade de adolescentes nos contextos digitais. Programa de Doutoramento em Psicologia, Salvador, UFBA.


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