Regiões de frente e fundo na propaganda da Safernet

A campanha da Safernet Brasil, veiculada na televisão aberta (vídeo abaixo) tem como objetivo alertar as pessoas para usuários que se “escondem” por trás de personagens de modo a, com isto, se passar como pedófilo; a campanha foca principalmente o público mais jovem – alertando ao mesmo tempo os pais para estarem cientes sobre quem seus filhos estariam se relacionando através das mais diversas plataformas promotoras de redes sociais na internet.

Interessante perceber que a campanha se baseia numa questão que vem sendo discutida pelo GITS: o controle das regiões de frente e fundo nas interações. Ou seja, baseado nas idéias de Goffman – principalmente em seu livro A Representação do eu na vida cotidiana – na performance dos indivíduos, eles são capazes de se comportar em algumas situações a partir das representações formais – performances de palco (frente) – e quando se está fora de cena, nas representações informais (fundo).

Como vem sendo levantado por pesquisas, tais referenciais de compreensão da representação do indivíduo estariam a sofrer alterações com relação a possibilidade de controle monitorado dessas regiões na internet, assim como a menor possibilidade de ocorrência de certos lapsos na comunicação entre indivíduos: eles não são suscetíveis a erros de fala, pronúncia ou que possam revelar questões guardadas no inconsciente.

Daí, a campanha opera justamente em cima desse maior controle no ato de representar o indivíduo; pois na internet abre-se a possibilidade para perfis fakes obterem um maior controle das suas regiões de frente e fundo. Assim, eles dispõem de modos de gerenciamento de impressões nos quais não requerem uma autenticação: a não ser que alguém o desminta, não existe um controle legal sobre as informações disponibilizadas pelos usuários. Sendo assim, como aparece na propaganda, alguém pode possuir várias formas de representações de si – várias “máscaras”, como mostra –, a depender da situação em que se encontra: com quem estará interagindo.

É importante salientar que a discussão, aqui, se dá em torno da criação de perfis inautênticos de modo a servir principalmente para a aproximaçào com crianças e adolescentes. Obviamente, tratar de autenticidade de perfis ultrapassa o pequeno espaço de um único post. Pois até quanto é possível dizer que qualquer perfil venha a ser totalmente autêntico?

Mas como a SaferNet se preocupa em combater a pornografia infantil – de acordo com a própria descrição no site oficial da associação – é essa a finalidade das suas campanhas; e é até onde vai a discussão da autenticidade na campanha mencionada. O que, a meu ver, se resolve muito bem pela metáfora das máscaras que são postas pelos usuários no controle das suas regiões.

Vitor Braga

Jornalista, professor da Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia.

More Posts - Website

Follow Me:
Twitter

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.