Reflexões sobre os dispositivos vestíveis de auto monitoramento e a copropriedade de dados

Texto por Bruna Lantyer

Em 2016 o Instituto de Psicologia da USP inaugurou um novo centro de estudos voltados para a qualidade de vida: o Centro de Pesquisa Aplicada em Bem-Estar e Comportamento Humano. A justificativa da criação desse centro é pautada na necessidade de se pesquisar indicadores de bem-estar no âmbito individual, familiar e social para além da grande maioria de pesquisas voltadas para depressão, ansiedade, etc. A atenção de pesquisadores voltada para aspectos da saúde atrelada ao bem estar tem crescido no ultimo século, sendo reflexo das demandas sociais que exigem comportamentos cada vez mais engajados nesse nicho.

Nesse sentido, a internet circunscreve tal processo de mudança por possibilitar uma arena de domínio vasta e tecnicamente capaz de oferecer uma rede robusta de relações. Segundo Gergen (1999) a “rede” tem se tornado uma metáfora para a vida social (p.412), ou seja, o contexto digital oferece possibilidades semelhantes às observadas nas relações face-a-face e também se distingue em alguns aspectos importantes, próprios de tal contexto. De acordo com boyd (2014) as tecnologias em rede modificam o ambiente social e, portanto, afetam as dinâmicas sociais que se desenrolam. A autora propõem quatro aspectos que podem moldar esse ambiente mediado: Persistência; Visibilidade; Replicabilidade e Buscabilidade. Os conteúdos disponíveis pelos usuários têm caráter durável na rede, diferente de uma conversa face-a-face onde o conteúdo falado é desvanecente; ao mesmo tempo apresentam um alcance demasiado e possivelmente o usuário não tem controle sobre o público que irá acessar o conteúdo divulgado; além disso, o conteúdo pode ser facilmente compartilhado com novos públicos e por públicos novos, por fim há uma facilidade em encontrar o conteúdo divulgado na rede de forma quase que instantânea (p.10 e 11). Embora algumas características se mantenham, as discussões e o que é valorizado socialmente ganham uma dimensão maior quando são tratadas na “rede”. Essa análise possibilita algumas reflexões sobre a dimensão que indivíduos podem dar à sua própria saúde e bem-estar. Portanto, o consumo de serviços que ofereçam cada vez mais informações e possibilidade de monitoramento de saúde e bem estar terá, possivelmente, um grande público cativo.

Este é o caso, por exemplo,  de dispositivos vestíveis de auto monitoramento, que tornam o corpo mais conhecido tanto pelo usuário do serviço quanto pela instituição que o oferece. Gilmore (2015) defende que esse conhecimento institucional ocorre juntamente à deslegitimação do autoconhecimento. A autora destaca que esse tipo de dispositivo serve como um sinalizador ou lembrete de que o individuo corre riscos (p.2529), seja pelo seu sono “ruim”, pela quantidade de passos inferior ao padrão, pela taxa glicêmica abaixo ou acima da média, etc. Os dados coletados requerem o gerenciamento do indivíduo que antes não os conhecia de forma rotineira. Eles são percebidos como sugestivos promovendo novos modos de comportar-se consigo e com os outros. Pantzar e Ruckesintain (2017) destacam que o movimento Quantified Self¹ (QS) faz parte de um fenômeno maior e mais antigo que é o “auto monitoramento” além de ser mais uma tijolo na construção de  “um continuum que vê o eu e o corpo como refletidos e entrelaçados no desenvolvimento tecnológico e na inovação” (p. 403). Nascimento e Bruno (2013) ratificam que a prática de auto monitoramento é histórica, avaliando e delineando modos de agir, afim de traçar melhores formas de se comportar em relação ao próprio corpo com o objetivo de aperfeiçoamento pessoal.  Desse modo, trata-se aqui de um fenômeno que existia antes da tecnologia oferecer ferramentas precisas de monitoramento de si. As autoras destacam que o movimento QS, utilizado aqui como exemplo de comunidade empenhada em desenvolver o autoconhecimento através do auto monitoramento quantitativo, oferece uma nova forma de atenção sobre si, articulando o registro dos dados através: da utilização do dispositivo; da leitura muitas vezes instantânea dos dados e da análise deles (p.3).

É importante notar que o movimento QS é cercado por atividades de engajamento individual e em grupo, sendo esse último um auxiliador na manutenção do engajamento individual por oferecer diversas formas de interlocução entre os participantes da comunidade do movimento. As autoras Nascimento e Bruno (2013) sinalizam três principais atividades da comunidade QS: meetups (encontros) onde são expostas as experiências individuais de auto monitoramento dos membros; uma página na internet no formato de blog, com notícias e relatos pessoais numa plataforma que possibilita a interação de outros membros, e por fim conferencias realizadas de tempos em tempos que têm como objetivo a reunião dos membros junto a criadores de dispositivos de hardware e software voltados para esta prática, assim como um corpo de pessoas interessadas (especialistas, pesquisadores, investidores, profissionais de saúde e designes) (p.4).

Os dispositivos vestíveis de uso diário são projetados para rastrear e quantificar qualquer movimento corpóreo. Gilmore (2015) apresenta o exemplo do Fitbit² que compreende uma série de funcionalidades, podendo ser utilizado no bolso ou pulso captando informações como passos percorridos, calorias queimadas ou até batimentos cardíacos no decorrer do dia e durante a noite ao captar a qualidade do sono. A transformação de aspectos de si em números, através desses dispositivos, dá à experiência individual a sensação de unicidade, como se eles fizessem parte do corpo, assumindo função atrelada à saúde e bem-estar (p.2525).

Ao realizarem um levantamento de artigos publicados entre 2008 e 2012 na revista Wired sobre o movimento QS, Pantzar e Ruckesintain (2017) verificam a presença de quatro temas inter-relacionados que tiveram forte presença nos artigos: transparência, otimização, feedback loop e biohacking, identificados como conceitos chave na definição de um eu quantificado. Ao verificar o conceito de “transparência” os autores observaram que a Wired defende a transparência criada a partir da coleta de dados pessoais garantindo uma experiência inovadora sobre si mesmo, deixando claro que essa nova maneira de produção de conhecimento baseia-se em correlações através de biossensores, possibilitando uma varredura digital de qualquer área do copo, oferecendo comparações e classificações ao usuário, que passa a ter uma experiência numérica de aspectos de si. A visão da Wired sobre a metodologia para alcançar transparência, deixa clara a substituição dessa pelas teorias que se propõem a entender as variáveis controladoras de comportamentos do ser humano como a psicologia, medicina, sociologia, biologia, etc. (p.408). Nesse levantamento não fica claro aspectos da contrapartida da transparência de dados, ou seja, se os dados são coletados e transparentes para o usuário do serviço, são igualmente transparentes para as instituições que os coletam. Os autores verificam a otimização como uma segunda tendência nos artigos, que representa uma orientação mais direta para objetivos específicos uma vez que refletem valores dependentes da normatização vigente. A otimização de respostas humanas baseadas na evidencia dos dados são consideradas como uma tendência natural do comportamento, levando em consideração o acesso a dados nunca antes acessíveis (p.409). Esta tendência permite algumas reflexões: Os indivíduos estariam então se comportando sob o controle dos dados sobre si, das instituições desenvolvedoras do dispositivo ou da cultura que valoriza essa prática? O terceiro tema verificado nos artigos foi o feedback loop. Esta função permite que os usuários “controlem” seus próprios dados sejam manipulados por eles. O efeito “feedback loop” oferece em tempo real os dados sobre si para possibilitar ao usuário realizar comparações com padrões coletados anteriormente, sendo o objetivo final a mudança de comportamento. Os autores reiteram que a utilização bem-sucedida do feedback loop é “ação, informação e reação” na qual a ação é o comportamento do usuário, por exemplo, “andar”, a partir da atividade os dados são coletados e “informados” ao usuário e por fim esse indivíduo “reage” aos dados, numa situação ideal se engajando em mais passos ou menos a depender se o objetivo foi alcançado (p.410). Nessa tríade espera-se que a reação seja de “regulação” das taxas. O ultimo tema verificado foi o biohacking, que os autores defendem ser o mais problemático dos quatro itens. A ideia por trás dessa função é que o usuário teria acesso a informações tão específicas de si, como a composição do sangue, por exemplo, que sua experiência com o sangue seria modificada. Essa tendência é defendida sob o rótulo de que os usuários seriam “atores de suas próprias vidas” podendo ter acesso ilimitado a aspectos específicos de si e “fazer o que quiser com eles” (p.411). Nesse sentindo, pode-se pensar no efeito que esse acesso tem para cada experiência individual; esses dados guiariam usuários para a regulação ou fuga das taxas?

Alguns autores (Gilmore, 2016; Ruckenstein e Pantzar, 2017) sustentam que a experiência do acesso a aspectos de si por meio de dispositivos vestíveis tem sido semelhante e muitas vezes substitutas do acesso aos próprios dados fornecidos por profissionais da saúde como médicos e treinadores, mesmo que esta captação tenha possibilidade de ser imprecisa e alguns fabricantes destacarem isso. Esse apontamento possibilita reflexões acerca da função que o acesso a esses dados pode ter na vida cotidiana do usuário e até que ponto há o controle real de aspectos de si.

De acordo com o movimento QS, indivíduos permitem que seus dados sejam coletados com o objetivo de obter maior controle sobre si. A experiência que eles têm com os dados pode ser percebida como uma experiência com o próprio self, uma vez tratar-se de dados precisos sobre si, dados esses nunca antes acessíveis ou se acessíveis, com pouca periodicidade. O oferecimento de dados pessoais tão específicos em troca de maior controle sobre si perpassa por algumas questões importantes e por vezes contraditórias que merecem atenção.

Ao expor voluntariamente aspectos de si às plataformas digitais, os algoritmos tornam-se coproprietários desses dados e isso lhes garante ação na delimitação de normas/regras de utilização destes, além do acúmulo para quaisquer outros usos. A partir disso, pode-se afirmar que a agencia de controle desses dados, ou do “eu quantificado” não é apenas pessoal e privada, mas trata-se de uma agencia em grupo, onde o usuário, seus pares, a plataforma e algoritmos adquirem copropriedade dessas informações (Nejm, 2016). Essa não parece ser uma preocupação dos membros do movimento QS e/ou usuários dos dispositivos vestíveis, pelo contrário, eles defendem que é através da captação desses dados que é possível obter mais precisão sobre seus próprios comportamentos e maior controle sobre aspectos de si. O fundamento do movimento QS é gerar autoconhecimento através de números e esses retornarem como indicadores de assuntos relacionados à saúde. Esse processo se retroalimenta, de acordo com Nascimento e Bruno (2014) através da consolidação de uma forma nova de olhar para si, onde há: registro; leitura; análise de indicadores com foco em saúde atrelada ao bem estar. Ou seja, a copropriedade de dados pessoais ganha função mais do que agradável para o usuário: ganha função vital para sua sobrevivência como usuário daquele dispositivo.

Referências

Boyd, D. (2011). Social Network Sites as Networked Publics: Affordances, Dynamics, and Implications. In Z. Papacharissi (Org.), A networked self: identity, community and culture on social network sites (p. 39–58). New York: Routledge

Bruno, F., & Nascimento, L. (2013). QUANTIFIED SELVES: contar, monitorar e conhecer a si mesmo através dos números. Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Comunicação e Cibercultura do XXII Encontro Anual da Compós, na Universidade Federal da Bahia, Salvador, de 04 a 07 de  junho de 2013

Gergen, K. J. (1999). The Self in the Age of Information. The Washington Quarterly, 23(1), 201–214.

Gilmore, J. N. (2016). Everywear: The quantified self and wearable fitness technologies. New Media & Society, 18(11), 2524–2539. https://doi.org/10.1177/1461444815588768

Nejm, R. (2016). Exposição de si involuntária: desafios no gerenciamento das informações privadas emitidas.  Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal da Bahia

Ruckenstein, M., & Pantzar, M. (2017). Beyond the Quantified Self: Thematic exploration of a dataistic paradigm. New Media & Society, 19(3), 401–418.https://doi.org/10.1177/1461444815609081

Karla Cerqueira

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

More Posts

Deixe um comentário

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.