Reflexões sobre as diferentes ambiências entre Facebook, Instagram e Whatsapp

Texto por Allana Gama

O verbo “estar”, que diz respeito a algo que se faz presente em algum lugar ou em alguma situação, tem sido muito usado para se referir a redes sociais digitais enquanto ambientes. Você provavelmente já ouviu ou já pode ter dito que “está no Instagram” ou incentivou que alguém a lhe “procurar no Facebook”, ou até mesmo a “conversar no Zap”. A sensação de estar em um ambiente ao estar nas redes está cada dia mais naturalizada em nosso cotidiano, além de ser estudada por diferentes pesquisadores.

Moniz Sodré, por exemplo, entende a mídia, de modo geral, como um bios midiático e não somente como transmissora de informações, é possível destacar as plataformas digitais de redes sociais, as quais os usuários se encontram cada vez mais imersos, como ambiências específicas, que diferem entre si (Sodré, 2006). Partindo desta perspectiva, é possível caracterizar e diferenciar os ambientes do Facebook, Instagram e Whatsapp, atualmente as redes mais utilizadas no Brasil.

Para Dannah Boyd, os sites de redes sociais como um gênero de   “Networked Publics”, ou seja, públicos reestruturados por tecnologias em rede. Sendo ao mesmo tempo o espaço construído através de tecnologias em rede e o coletivo imaginado que surge como resultado da interseção de pessoas, tecnologia e prática.

A autora argumenta que os públicos em rede  permitem que as pessoas se reúnam para fins sociais, culturais e cívicos, e ajudam as pessoas a se conectarem com um mundo além de seus amigos íntimos e familiares (Boyd, 2011). Apesar desses pontos em comum, é importante destacar que as diferentes maneiras que as redes são estruturadas pela tecnologia, introduzem a elas, diferentes possibilidades de ambiências. Essas diferenças são notáveis na arquitetura das redes sociais.

Ao pensar na arquitetura dos ambientes digitais, é necessário refletir sobre a diferença entre bits e átomos enquanto blocos de construções arquitetônicas, para entender o modo como as redes sociais se diferenciam, pois a mídia construída com bits é disseminada mais facilmente do que a que é constituída por átomos. Segundo Mitchell, através da tecnologia em rede, as pessoas não são mais moldadas apenas por suas moradias, mas por suas redes (Mitchell, 1995, p. 49).

Boyd argumenta que o que define os sites de redes sociais seria a combinação de recursos que permitem aos indivíduos “construir um perfil público ou semi-público. dentro de um sistema delimitado, articular uma lista de outros usuários com os quais eles compartilham uma conexão e visualizar e percorrer sua lista de conexões e aquelas feitas por outras pessoas dentro do sistema” (boyd & Ellison, 2007).

No Brasil, o Facebook, o Instagram e o Whatsapp estão entre as 10 redes sociais mais utilizadas, entretanto, possuem utilizações e formas de sociabilidade bastante distintas entre si. Primeiramente, para entender esse fenômeno, é necessário considerar as diferentes arquiteturas presentes em cada uma.

O facebook é a maior plataforma de rede social do mundo, atingindo em 2017 a meta de 2,13 bilhões de usuários ativos.  No Brasil, a plataforma chegou aos 127 milhões de usuários mensais. Através dela o usuário pode interagir com seus amigos através do compartilhamento conteúdos em diferentes formatos como fotos, textos, vídeos, gifs, e mais recente forma de interação são os Stories. Para além disso, também existe a possibilidade de comunicação via chat, através do Messenger. Os conteúdos podem ser compartilhados de forma pública ou privada, quando só os amigos do usuário podem ver.

O Instagram é uma plataforma de redes sociais que permite aos usuários o compartilhamento de  fotos e vídeos (gravados ou transmissões ao vivo), além de também possuir atualmente a possibilidade de chat e Stories, vídeos de até 15 segundos e/ou fotos que podem ser personalizados com textos e emojis e ficam disponíveis apenas por 24h na plataforma do usuário.

Já o Whatsapp, considerado a rede de instant messenger mais popular do Brasil,  permite que o usuário envie mensagens de texto, imagens, áudios, vídeos, documentos em PDF além de fazer ligações grátis através da internet. Mais recentemente a plataforma permite também que seus usuários publiquem stories, no mesmo formato que das outras plataformas. Neste formato de arquitetura, a plataforma não oferece feed de mensagens e sua rede de relacionamento é formada a partir do contato de telefone entre os indivíduos que possuem o aplicativo no celular, que podem tanto enviar mensagens direta a um contato, quanto formar um grupo com vários contatos para enviar e receber conteúdos de forma simultânea.

As características da arquitetura de cada uma destas plataformas moldam as possibilidades de sociabilidade dos usuários, fazendo com que em cada uma delas, seja entendida como um tipo específico de ambiente, solicitando desta maneira, uma maneira específica de comportamento e apresentação de si.

O Instagram, por possuir uma arquitetura que favoreça o visual e o audiovisual, pode ser entendido enquanto um ambiente que favorece a exposição. Por conta disso, podemos compará-lo a uma vitrine, mas vale a pena destacar que, o fator das relações na plataforma ser entre ‘seguidores’, os quais não necessariamente você precisa “aceitar como amigo” criando assim um ‘vínculo mútuo também fortalece a ideia de seguidores enquanto plateia e indivíduo seguido enquanto entretenimento em um “palco-vitrine”, ambiente para se expor e vender uma determinada imagem.

O Facebook, enquanto sendo uma plataforma-palco institucional, devido a sua característica de vincular os usuários como ‘amigos’, além de possuir uma audiência bastante heterogênea, é possível entender que a utilização da plataforma tenha se tornado algo necessário para a utilização de outras plataformas, além de ser usada mais frequentemente para passar e receber informações e notícias.

O whatsapp, por possuir uma arquitetura de chat e necessitar da troca de números de contatos para estabelecer a interação, se torna um ambiente mais “íntimo” no sentido de proximidade, do que as outras plataformas digitais. O “zap” oferece um ambiente para um diálogo mais direto e próximo entre os usuários. Contudo, seu formato não permite que o usuário possua maiores informações sobre as pessoas com quem dialoga, pois ele não possui espaço para criação de um perfil, ou uma “bio”, o que dá a possibilidade de diferentes formas de apresentação de si em cada diálogo estabelecido.  

A partir desses entendimentos, podemos analisar o tipo de ambientação que cada arquitetura de plataforma digital pode gerar, e a partir dela, refletir sobre as possíveis sociabilidades que ocorrerão nela, afinal cada ambiente solicita um tipo de comportamento dos indivíduos que estão nele. Ou seja, podemos refletir sobre como a plataforma digital enquanto sendo uma mídia, molda o comportamento dos usuários pela sua arquitetura.  

Referências


boyd, d. m. & Ellison, N. (2007). Social network sites: Definition, history, and scholarship. Journal of Computer-Mediated Communication, 13 (1), 11.

Boyd, D. Social Network Sites as Networked Publics: Affordances, Dynamics, and Implications. In Papacharissi, Z. (Ed.). (2011). A networked self: identity, community and culture on social network sites. New York: Routledge

Couldry, N., & Hepp, A.(2017). The mediated construction of reality. CambridgeMalden, MA: Polity.

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Editora Vozes 1985

Mitchell, W. J. (1995). City of bits: Space, place, and the infobahn. Cambridge, MA: MIT
Press.

SÁ, Simone; POLIVANOV, Beatriz. Materialidades da Comunicação e presentificação do self em sites de redes sociais. XXI Encontro Anual da Compós, Juiz de Fora, 2012.

SÁ, Simone; POLIVANOV, Beatriz. Auto-reflexividade, Coerência expressiva e performance como categorias para análise dos sites de redes sociais. contemporanea | comunicação e cultura – v.10 – n.03 – set-dez 2012 – p. 574-596

Schlenker, B. R. (2003). Self-presentation. In M. R. Leary, & J. P. Tanney (Eds.),

SODRÉ, M. (2006). Antropológica do espelho. São Paulo: Vozes

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