Reflexões sobre a infância e narrativas de si no Youtube

O alcance da plataforma Youtube tem aumentado de forma considerável, colocando o Brasil no 2º lugar, quando se refere ao público que mais consome seus conteúdos, sendo esse alcance bastante significativo quando se trata do público infantil (CORREIA, 2017).

As experiências infantis têm sido, cada vez mais, mediadas pelo uso da tecnologia, acrescendo-se a isso a relevância do contexto familiar enquanto elemento constitutivo e balizador no processo de desenvolvimento da criança. Fagot, Luks & Poe (2006) trazem que, “tanto o clima do lar quanto a experiência cognitiva e experiencial das crianças irão influenciar a sua capacidade de processar e expressar emoções” (p.150).

Boyd (2015) ampara a ideia de que a privacidade está em processo de reconfiguração, pelo motivo de que as pessoas buscam novos recursos de significação e negociação dos novos formatos que ela ganha nos ambientes digitais, provocando a capacidade de controle sobre as informações divulgadas.

No que se refere ao contexto digital e a inserção das crianças nesse espaço, são percebidas situações que dão novos contornos à forma como elas vêm se inserindo socialmente. O contexto digital, além de ser um espaço que também possibilita a construção de narrativas de si, confere uma maior visibilidade a vivências antes circunscritas a um contexto familiar, mais restrito e com menor, e mais conhecida, audiência (BOYD, 2015).

Thompson (2010), problematiza essa questão ao indagar que: “Atualmente, quando um indivíduo está no espaço da sua casa ou quarto e entra na rede, divulgando informações sobre si mesmo a milhares ou milhões de outras pessoas, em que sentido este indivíduo está situado na esfera privada?” (p. 28-29).

A problematização trazida pelo autor põe em questão um dilema bastante presente na atualidade, diante do que a aprendizagem, manuseio e domínio por parte das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) tem se dado no próprio percurso da construção histórica, como ocorrido também em outros momentos históricos e diante do surgimento de tantas outras “novidades sociais”, fossem elas de origem tecnológica ou não (MAFFESOLI, 2010).

Durante o processo de desenvolvimento da linguagem e construção de sujeito, as crianças têm a necessidade de falarem sobre si, tanto para os seus pares de iguais como para a (o)s adulta (o)s que atuam no seu cuidado mais direto. Levar em conta a voz dessa criança como um sujeito dotado de direitos e, ao mesmo tempo, contornar os melindres advindos do processo de dar destaque a essa voz e ofertar-lhe uma escuta mais ampliada, traz algumas questões bastante controversas e plausíveis de serem colocadas em pauta (CORSARO, 2009).

Sobre os aparatos tecnológicos que surgem, considera-se relevante a discussão sobre os diferentes “contextos” que decorrem a partir dessa alteração social, gerando algumas demandas específicas. Hoje, com a tecnologia mais “à mão”, as possibilidades se ampliam e, em paralelo, algumas condições como “replicabilidade”, “persistência”, “escalabilidade” e “buscabilidade”, (BOYD, 2011) podem tornar o terreno um tanto mais complexo e multifatorial.

BOYD (2015) discute que a privacidade está em processo de reconfiguração, pelo motivo de que as pessoas buscam novos recursos de significação e negociação dos novos formatos que ela ganha nos ambientes digitais, provocando a capacidade de controle sobre as informações divulgadas. O que reforça a necessidade de se estudar o momento atual e os arranjos a ele relacionados, de forma a compreender quais são esses novos recursos e formatos, como surgem suas reverberações e os possíveis impactos disso no processo de construção e desenvolvimento do Self (MEAD, 1972).

Em se tratando da exposição, gerenciamento e co-propriedade da imagem acerca de uma criança nos contextos digitais, identifica-se que aspectos muito específicos e particulares da sua rotina, bem como descrições atribuídas ao seu self (MEAD, 1972) são compartilhadas em rede.

Ademais no que se refere a aspectos concernentes ao desenvolvimento infantil, identifica-se que “ao se revelarem aos pares e familiares, crianças e adolescentes podem ampliar sua autopercepção e receber o suporte – ou reprovação social que guiará a formação de seu autoconceito no contexto social no qual estão inseridas.” (RIBEIRO, NEJM & MIRANDA, 2014) Nesse paradoxo, entre público e privado, elementos de representação da criança vão compondo um arsenal de características a ela atribuídas.

Os elementos trazidos permitem a identificação de que a plataforma Youtube, enquanto um contexto digital, apresenta-se como um espaço propício para que as crianças protagonizem a produção e o compartilhamento de suas narrativas entre pares de iguais. Contudo compreende-se também que a criança está imersa em um contexto que, no seu surgimento, não foi pensado para esse público.

A interação das crianças com os instrumentos, como forma de garantir o acesso das mesmas na plataforma Youtube, sobretudo no início dessa interação, tem sido mediada em sua maioria pelos pais, cuidadores e responsáveis pelas mesmas (BRITO & DIAS, 2017), o que confere a esse contexto características de um espaço privado e por tanto, traz uma ambivalência para o mesmo, haja vista que o seu alcance é público.

A reflexão proposta permite apontar que esse é um campo bastante profícuo no que concerne à possibilidade de acesso à fala das crianças, haja vista que elas estão presentes nesse contexto digital, muitas vezes na condição de protagonistas e partilhando tantas de suas narrativas com seus pares de iguais, falando diretamente para eles.

Referências:

BOYD, D. É complicado: As vidas sociais dos adolescentes em rede, Relógio D’Água Editores, 2015;

BRITO, R. & DIAS, P.; Crianças até 8 anos e Tecnologias Digitais no Lar: Os pais como modelos, protetores, supervisores e companheiros (2017) Disponível em: https://docplayer.com.br/54126816-Criancas-ate-8-anos-e-tecnologias-digitais-no-lar-os-pais-como-modelos-protetores-supervisores-e-companheiros.html;

CORSARO, W. (2019). Reprodução interpretativa e cultura de pares – p.31-50, In: Teoria e prática na pesquisa com crianças (MÜLLER, F. e CARVALHO, A. M.A.), São Paulo: Cortez, , 2019;

CORRÊA, L. Influenciadores mirins no Youtube Brasil e o impacto mercadológico, In: TIC KIDS ONLINE BRASIL: Pesquisa Sobre o Uso da Internet por Crianças e Adolescentes no Brasil (2017);

FAGOT, B. I., LUKS, K. & POE, J. Parental influences on children’s willingness to disclose, 2006.

MEAD, G. H. (1972). Works of George Herbert Mead. Vol. 1: Mind, Self, and Society: from the standpoint of a social behaviorist(18. Impr). Chicago: university of chicago press;

RIBEIRO, J. C., NEJM, R., MIRANDA, T. B. (2014). Auto-revelação em ambientes digitais: reflexões sobre a privacidade de adolescentes em sites de redes sociais. In: Ribeiro, J.C., Miranda, T., Soares, A.T. (Orgs.). Práticas Interacionais em Rede (p. 159-177). Salvador: EDUFBA.

Mayara Carvalho

Psicóloga, Especialista em Desenvolvimento Infantil (UNIVASF) e membro do Grupo de Pesquisa em Interações Sociais, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS) - PósCom/UFBA.

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