Quem somos nós na Internet? Breves notas sobre identidade no contexto das redes sociais digitais

Fonte: Pixabay.com

Certo dia, conversava com um amigo sobre escolhas, gostos e construção da identidade, até que ouvi dele as seguintes frases: “As diferentes escolhas que formaram quem eu sou me fizeram único”; “De certa forma, me sinto o mesmo sempre”. Essas reflexões me deixaram “encucado”. De fato, paulatinamente, adquirimos saberes, prazeres, afetos, gostos. Conhecemos pessoas, lugares, comidas, crenças, gestos e línguas. Nas efêmeras e nas complexas ações, estamos submersos a experiências que vêm de muitos lugares e que nos levam a muitos caminhos. 

Mas há de se discordar de que a identidade é algo fixo no tempo e no espaço. Principalmente quando pensamos sobre a ascensão das tecnologias de informação e comunicação, vemos a ressignificação cada vez mais acelerada de novas experiências e práticas interacionais. Os paradigmas sociais que almejávamos têm se diluído cada vez mais. As formas de interação sofreram impacto principalmente pela mediação de objetos infocomunicacionais. Passamos por um movimento de desencaixe (GIDDENS, 1991), relacionando-nos com outras pessoas em outros contextos. Dizer como se vê no mundo atual tem se tornado uma tarefa cada vez mais árdua para todos nós diante dos diversos ambientes que nos inserimos dia após dia.

Isso afeta diretamente quem somos e como enxergamos os outros ao nosso redor. Hall (1997) nos dá uma luz para compreender esse processo. O autor salienta que, na pós modernidade, os sujeitos tiveram suas referências identitárias tradicionais abaladas. Presenciamos um novo modelo de identidade baseado não em instituições fixas e condutas estáveis, mas na relação sempre dinâmica de formação dos indivíduos. A identidade do sujeito atual, para o autor, é fragmentada, como um mosaico de pequenas peças para a formação do todo.

Não é mais a igreja ou a família a base sob a qual repousa a formação de nossas identidades. A ideia é que a autorreflexão passe a ser o parâmetro central para isso. Identidade são narrativas do self, são discursos sobre si e sobre o mundo. Essas narrativas são consolidadas a partir das escolhas que os sujeitos fazem no processo de autorreflexão de sua vida, daquilo que se quer ser e do que se quer não ser. A autoidentidade passou a ser o parâmetro comum aos indivíduos, visto que a liberdade (até certo ponto) apresenta-se como o eixo central para as escolhas identitárias (GIDDENS, 2002).

A autorreflexividade nos ajuda a entender que estamos cotidianamente sendo pressionados a refletir sobre escolhas a fim de mostrar uma versão cada vez melhor de nós mesmos. Essas escolhas só conseguem se realizar à medida que vamos testando gostos, tendências. É difícil dizer que não se gosta de café quando nunca o provou ou tampouco o conhece. Na vida cotidiana contemporânea, experimentamos identidades diversas, ora mantendo, ora excluindo elementos de nossas performances. 

Entretanto, como bem sabemos, fazer escolhas não é um algo tão simples assim. É o que para muitos gera ansiedade. Geralmente ficamos em dúvida sobre o que fazer, qual caminho tomar, qual linguagem empregar para compreender o mundo e ser bem compreendido por outros. Performar diante de um público requer alguns cuidados que tomamos até de forma não consciente. 

Nessa conjuntura, podemos elencar um dinamizador de nossas escolhas e, consequentemente, de nossas performances: as redes sociais digitais (RSD). Elas são potencializadoras para a formação identitária. Tomemos como ilustração o caso do Instagram. Nele, podemos criar variadas formas de apresentação do self. A plataforma nos permite publicar fotos e vídeos com tempo de transmissão maior, como também conteúdos que tenham tempo de duração de 24 horas. Podemos utilizar recursos de filtros, recortes, velocidade da imagem, cores, textos verbais, músicas que nos permitem uma riqueza performática para contarmos narrativas de nós mesmos. Para um grande público, que muitas vezes não conhecemos (BOYD, 2010), podemos manusear múltiplas formas de como ser visto e isso, de certa forma, constrói um pouco de como nos vemos e como achamos que estamos sendo vistos.

Cabe aqui lembrar que, talvez, o melhor termo para definir essa questão seja o de identificação (MAFFESOLI, 1996), como um processo. Estamos em contínua descoberta e alternância de escolhas, deslocando nossos selves para formas variadas de se sentir presente no mundo atual. Ao criarmos performances ao nosso público, elaborando imagens em que as dinâmicas identidades que assumimos também faz relação direta com os outros que nos cercam. 

A identificação cada vez mais fluida, impulsionada pelas possibilidades nas RSD, faz com que não tenhamos uma “essência” em nós? Em uma identidade de constante metamorfose, a ideia supracitada do meu amigo poder se sentir “o mesmo sempre” estaria totalmente inadequada no quadro proposto nessa reflexão? De certa forma, também somos cobrados pelas pessoas a manter uma certa unidade em nossas linhas de ação, uma coerência expressiva (GOFFMAN, 2002) em nossas performances, para que sejamos convincentes a nosso público de nossas ações. Já foi visto muitos casos em redes sociais digitais de pessoas famosas que sustentavam uma argumentação sobre si, mas que, de alguma forma, nos bastidores, preconizavam outras. É notável a preocupação cotidiana que muitos de nós temos com o que devemos expor ou não em plataformas digitais e de como seremos vistos por nossa audiência.

Sentimos os fluxos identitários nos circunscrevendo, mas também precisamos mostrar a unidade discursiva sobre nós, para que os outros, os quais me identifico ou não, percebam valores congruentes em nossas performances. São essas contradições que observamos diariamente, mas que, sem dúvida, as tecnologias de comunicação e informação ampliaram horizontes a todos nós. Avivamos nossas experiências e potecializamos formas de se sentir presente no mundo. Ao contrário do que muitos pensam, ter múltiplas identificações nos permitem mais conhecimento sobre o que nos cerca, ampliando nossa visão e interação com outras pessoas, seja no contexto físico ou digital (RIBEIRO, 2005).

Referências Bibliográficas

BOYD, Danah. Social network sites as networked publics: Affordances, dynamics, and implications. In: A networked self. Routledge, 2010. p. 47-66.

GIDDENS, Anthony. As Consequências da Modernidade. São Paulo: UNESP, 1991.

GIDDENS, Anthony. Modernidade e identidade. Rio De Janeiro: Zahar, 2002

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Dp&a, 1997. 

MAFFESOLI, Michel. No fundo das aparências. Petrópolis: Vozes, 1996.RIBEIRO, José Carlos S. Múltiplas identidades virtuais: a potencialização das experiências exploratórias do” eu”. Revista Contracampo, n. 12, p. 171-184, 2005.

Weidel Cabral

Mestrando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), na linha de Cibercultura. Bacharel em Publicidade e Propaganda pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e Licenciado em Letras – Língua Portuguesa, pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Tem interesse por pesquisas que envolvam Cultura, Cibercultura, Juventude e Interações Sociais.

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