Quantified Selves e relações com o auto-conhecimento

“O eu se traduz em indicadores e o que se pode medir (…) se pode aperfeiçoar”. É com essa frase provocadora que Liliane da Costa Nascimento e Fernanda Bruno, respectivamente doutoranda e professora do PPGCOM/ECO, da UFRJ, iniciam seu trabalho em conjunto apresentado no GT de Cibercultura da Compós 2013. As autoras lidam, nesse artigo, com os chamados Quantified Selves – assim tratados os indivíduos que buscam melhorias performáticas em suas vidas por meio de registros de natureza quantitativa de suas atividades rotineiras.

Os QS’s buscam lidar com problemas que afetam negativamente suas vidas ou descobrir tendências e correlações sobre seu comportamento e sua saúde a partir do armazenamento, a longo prazo, de diversos conjuntos de indicadores que permitem monitorar uma infinidade de condições: doenças crônicas, atividade sexual, qualidade do sono, humor, produtividade, uso do tempo, performance cognitiva, atividade física etc (p. 2).

Embora ressaltem que as preocupações com registros numéricos e narrativos de si mesmo não sejam exatamente algo de todo novo – a considerar a visão estoica, os hypomnemata e as correspondências -, Liliane e Fernanda visualizam pelo menos três importantes práticas inéditas relativas ao monitoramento do eu, em geral realizado por meio de aplicativos para celulares ou tablets: trata-se do registro, da leitura e da análise de tais indicadores numéricos. Efetivamente, fica claro que contar as próprias atividades – desde marcar a hora em que se costuma acordar ou até contar a quantidade de cafeína consumida por dia – não são ações exclusivas a serem contabilizadas por instrumentos tecnológicos que tais. O que se ressaltam é o papel atuante, enquanto mediadores, de dispositivos e aplicativos que permitam esse eixo triplo de visualização – o que joga luz àquela contabilidade até então escondida ou simplesmente inexistente – e a delegação efetuada em direção a esses objetos – que passam, para todos os efeitos, a ser os “responsáveis” pelo registro e pela contabilidade.

Com o 42goals é possível traçar metas e monitorar suas atividades.

Com o 42goals é possível traçar metas e monitorar suas atividades.

As autoras trazem uma série de exemplos desse universo de Quantified Selves: 42goals, Basis, Happiness e Zeo são algumas das iniciativas relacionadas a uma visão quantitativa de nossas atividades. O 42goals, baseado em ambiente web, descreve-se como uma ferramenta para o monitoramento do que fazemos e traçamos como meta. Basis e Zeo são gadgets que prometem melhorias no sono – uma vez mais, por meio do registro. Já Happiness é uma espécie de diário em que se registram não apenas emoções mas que permite uma identificação de padrões relacionados a tais emocionalidades. É curioso, nesse sentido, perceber como a quantificação delegada a tais recursos proporciona uma extração de sentimentos de uma certa porção interior do eu, racionalizando-os e objetificando-os.

zeo

O caminho dos números representa, neste sentido, um relativo abandono da introspecção e da reflexão como via privilegiada do auto-conhecimento. Num mesmo movimento, a palavra e narrativa perdem sua centralidade na decifração do eu, tarefa agora delegada ao dispositivo (p. 15).

basis

A leitura é instigante e bastante valiosa. Longe de apontar por certezas determinadas, Liliane e Fernanda estabelecem tensões muito apropriadas para um ensaio/descrição dessa natureza – a lembrar que a descrição é uma das perspectivas metodológicas da Teoria Ator-Rede, a qual é adotada pelas pesquisadoras.

Para baixar este e outros artigos, basta acessar os anais do XXII Encontro da Compós.

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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