Punição e Violência em Sites de Redes Sociais.

Temos assistido nas últimas semanas a uma onda de linchamentos no país. Entre os casos recentes estão o do jovem do Rio de Janeiro que, após ser acusado de assalto, foi agredido a pauladas e amarrado nu a um poste, e o de um homem no Piauí que, suspeito de roubar uma casa, foi espancado e deixado nu em cima de um formigueiro. Linchamentos no Brasil não são novidade, mas chama atenção a forma  como casos com esses foram registrados e amplamente compartilhados em Sites de Redes Sociais (SRS).

Após uma pesquisa rápida no Youtube, foi possível contabilizar mais de 100 vídeos de linchamentos realizados no Brasil nos últimos dois anos, dos quais, a grande maioria captada através de aparelhos celulares. Esses registros, para além do Youtube, disseminam-se por outras redes tais como Facebook e Twitter e, apesar da violência explicita do conteúdo, circulam livremente pelos SRS.

Grupos e entidades que defendem os Direitos Humanos tem cobrado uma postura mais rígida dos responsáveis pelos SRS em relação a distribuição de conteúdos com alto teor de violência. Porém, os responsáveis por tais sites têm defendido a permanência dos conteúdos “desde que usados em um contexto correto”, o que teoricamente seria o da veiculação atrelada a uma crítica a tais comportamentos e abusos por parte da população.

O problema é como controlar isso na prática?  Quais os parâmetros que são levados em conta para considerar se um conteúdo compartilhado faz uma crítica a determinada prática ou uma apologia? Se pensarmos no contexto brasileiro, no qual grande parte da população simpatiza com atos de linchamentos – de acordo com sociólogo José de Souza Martins, que estuda linchamentos a mais de 20 anos, cerca de 500 mil brasileiros já atuaram como linchadores –, qual o impacto da circulação livre desses conteúdos?

Observando comentários em torno dos vídeos de linchamento compartilhados no Facebook e Youtube é fácil constatar que grande parte dos usuários que os assistem e se dispõem a comentar tais conteúdos aprova a conduta dos linchadores.  O Brasil é constantemente apontado em pesquisas como um dos países que mais realiza linchamentos no mundo, ainda que tal crime seja subnotificado e não resulte em punição para os envolvidos.

Muitos estudos vem tentando compreender a função e o papel social da punição, bem como se organizam os atores em torno de atos de justiçamento tanto em sociedades ditas “primitivas”, como nas modernas e contemporâneas. E os sites de redes sociais tem complexificado esse quadro ao emergirem como atores que podem trazer novos elementos para esse debate.

 

 

 

 

 

 

Lisi Barberino

É mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Produção em Comunicação e Cultura e atualmente pesquisa linchamento virtual em sites de redes sociais.

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