Privacidade…pelo menos no meu Facebook!

Um recente estudo sobre privacidade e o uso das mídias sociais por adolescentes americanos traz dados interessantes para refletir sobre esta temática cada vez mais relevante e mutante. A pesquisa realizada pelo Berkman Center for Internet & Society da Universidade de Harvard em cooperação com o instituto de pesquisa Pew Internet entrevistou cerca de 800 adolescentes por telefone e organizou grupos focais com mais de 100 adolescentes dos Estados Unidos.

Além de dados quantitativos que indicam o crescimento significativo da exposição voluntária de dados pessoais nas redes,  a presença da família no Facebook e a diversificação do uso com outras redes, vale destacar os resultados dos grupos focais. Nos trechos de falas dos próprios adolescentes é interessante notar as diferentes percepções sobre a privacidade nos sites de redes sociais e as estratégias de  gerenciamento das impressões e dos dados pessoais.

Infograph Berkman

Questões curiosas surgem:

– os adolescentes com maior número de amigos (600+) e com maior volume de dados publicados são os que menos interagem com os pais no Fecebook;

– ao mesmo tempo em que fica evidente a apropriação intensa dos ambientes digitais como “continuidade” dos demais espaços sociais, os adolescentes indicam a preocupação e o trabalho que dá gerenciar suas publicações para evitar constrangimentos com pais, grupos da Igreja e futuros avaliadores;

– mesmo reconhecendo a importância da busca pelo reconhecimento e popularidade nas redes, os adolescentes parecem pleitear o direito à privacidade nas redes:

Male (age 17): “It sucks… Because then they [my parents] start asking me questions like why are you doing this, why are you doing that. It’s like, it’s my Facebook. If I don’t get privacy at home, at least, I think, I should get privacy on a social network.”

Interessante pensar sobre a importância das mídias sociais não apenas como espaço de socialização e interação, mas também como espaço pessoal, espaço para a livre expressão e desenvolvimento da própria identidade. No Brasil estas inquietações podem ser ainda mais intrigantes se nos debruçarmos sobre estas questões com adolescentes que  possuem muito menos possibilidade de espaços pessoais em casa, compartilhando o mesmo cômodo com os pais e irmãos, compartilhando o transporte para a escola, compartilhando roupas com irmãos e primos, presenciando a vida íntima dos familiares etc…

O estudo com adolescentes americanos podem nos ajudar a compreender alguns fenômenos globais, mas certamente pesquisas como estas no Brasil podem evidenciar o quanto nossos adolescentes revelam usos singulares ou homogêneos destes ambientes digitais globalmente frequentados.

Para conferir:

Infográficos e gráficos dinâmicos

Grupos Focais

Relatório completo

 

Rodrigo Nejm

É psicólogo pela Universidade Estadual Paulista UNESP/Assis-SP, doutorando em psicologia social no Programa de Pós Graduação da UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Realizou intercâmbio acadêmico na graduação para estudar “Médiation Culturelle et Communication” na Université Charles de Gaulle Lille 3, França. Atualmente é psicólogo e diretor de educação na ONG Safernet Brasil, responsável pela criação de materiais pedagógicos, pesquisas e campanhas educativas sobre Direitos Humanos e governança da Internet no Brasil. Tem interesse de pesquisa nas interfaces da psicologia com a comunicação, privacidade e sociabilidade de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

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