Privacidade: negociação contextualizada?

Seguindo as reflexões sobre os novos contornos da privacidade nos ambientes digitais, podemos destacar a validade da noção de negociação dos limites e regras de gerenciamento da privacidade que recuperamos no post anterior “Privacidade Compartilhada”.  Observando a ubiquidade das conexões e a intensidade de interações mediadas, podemos concordar que há uma progressiva diluição das fronteiras modernas entre as dimensões de espaço público x espaço privado. Nos espaços infocomunicacionais que se constituem a partir das associações entre pessoas, tecnologias e demais objetos conectados, não são mais as paredes que nos ajudam a delimitar o que consideramos como espaços privados nos quais ocorreriam as relações privadas. Ao mudarem nossas relações com os espaços, certamente mudam os contextos nos quais interagimos e também os graus de publicização destas mesmas interações.

Em alguns sites de redes sociais o convite para compartilhar informações pessoais não está apenas na arquitetura dos serviços, mas também explicitamente em questões diretas como: No que você está pensando? O que você está fazendo? Onde está? Com quem está? O que está vendo?

Como destaca a pesquisadora Danah Boyd, nestas redes digitais as informações são públicas por padrão e privadas apenas quando dedicamos tempo e esforço para manejá-las. No chamado Networked Publics, muda não apenas a dinâmica espacial mas também o tipo de audiências que compõem as situações sociais. Isto não quer dizer que no Netwoked Public não há mais possibilidade de privacidade, mas significa que o manejo das informações pessoais é cada vez mais dependente do contexto. Cada aplicativo, jogo ou site de rede social traz consigo um conjunto de elementos que definirão as situações sociais e em cada contexto uma estratégia de auto-apresentação é posta em jogo. Ao lidar com as audiências invisíveis e os contextos colapsados os usuários precisam criar novas estratégias para lidar com a fluidez da fronteira entre público e privado. Poderíamos dizer que mudam simultaneamente as delimitações entre público e privado enquanto mudam nossos comportamentos nos diferentes ambientes de socialização.

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Adolescentes e jovens, usuários intensivos dos SRS e dos dispositivos móveis, indicam interessantes caminhos para lidar com estas novas fronteiras. No Brasil percebemos também a tendência mundial de migração dos adolescentes para novos aplicativos e redes que permitam um contexto menos contaminado pela supervisão dos adultos. Como nos parques de diversão, nas festas de aniversário ou mesmo dentro das escolas, adolescentes adaptam os espaços disponíveis para que possam criar “seus espaços”. Uma questão intrigante nos ambientes digitais é que estes espaços são fruto de complexas combinações de recursos técnicos, interesses econômicos e regulamentações/leis que muitas vezes escapam ao domínio dos usuários. Se as fotos íntimas trocadas pelo Snapchat ou Whatsapp estão registradas nos servidores da NSA, do Facebook ou de dezenas de empresas de marketing parece preocupar menos aos adolescentes do que o fato de os amigos da escolas terem tido acesso à uma conversa ou comentário que deveria ser mantido restrito. Mais do que pensar no potencial de publicidade do compartilhamento, devido às condições técnicas, os adolescentes parecem preocupados com os contextos nos quais os conteúdos circulam e de que forma entram em cena nas diferentes situações sociais. O ponto central parece ser sempre a forma de manejo dos dados, o tipo de gerenciamento não apenas das impressões, mas também dos espaços e dados pessoais que podemos considerar privados.

Se por um lado temos indícios de que os próprios adolescentes criam suas estratégias para manter algum controle sobre os contextos nos quais suas revelações ocorrem e circulam, vale apontar que não podemos generalizar estas estratégias para os diferentes grupos sócio-econômicos e gêneros. Tampouco são homogêneas as estratégias postas em prática para gerenciar as interações em diferentes contextos. Nos casos brasileiros do chamado “Pornô de vingança” na Internet podemos identificar a força de velhos esteriótipos definindo as situações sociais também nos ambientes digitais. Se por um lado os ambientes digitais se tornam novos palcos para a experimentação das sexualidades e facilitam os contatos íntimos, os casos de “pornô de vingança” revelam as amarras da desigualdade de poder entre homens e mulheres no que diz respeito ás liberdades sexuais. Além da censura explícita à liberdade feminina e de seu direito ao prazer, estes casos apontam para um completo desrespeito à noções básicas de confiança e mesmo de direito à intimidade para as meninas e mulheres que compartilham imagens sexuais de si com seus parceiros. Se as redes digitais embaralham as fronteiras entre público e privado, a confusão maior parece estar ainda na capacidade de manejo destas esferas pelos sujeitos em suas relações.

Apesar da intensidade dos discursos que prescrevem e anunciam antecipadamente o fim da privacidade, não são poucas as evidencias que indicam para seu renascimento. Como apontado por Antonio A. Casilli, Paola Tubaro e Yasaman Sabari em Against the Hyphothesis of the end of privacy, as questões de privacidade não estão restritas à opções individuais e cada vez mais remetem aos desafios de negociações complexas que envolvem os cidadãos, movimentos sociais, empresas e governos. A rede destas complexas negociações entre diferentes agentes parece estar em plena transformação e neste movimento vemos antes uma reconfiguração da noção de privacidade do que seu aniquilamento. Dos adolescentes hiperconectados na escola às corporações de marketing digital, a privacidade não é algo dado, mas justamente o resultado das negociações que tensionam ora por maior publicização e ora por restrição da circulação dos dados pessoais em diferentes contextos de interação, sejam eles de amizade, políticos, comerciais etc.

Rodrigo Nejm

É psicólogo pela Universidade Estadual Paulista UNESP/Assis-SP, doutorando em psicologia social no Programa de Pós Graduação da UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Realizou intercâmbio acadêmico na graduação para estudar “Médiation Culturelle et Communication” na Université Charles de Gaulle Lille 3, França. Atualmente é psicólogo e diretor de educação na ONG Safernet Brasil, responsável pela criação de materiais pedagógicos, pesquisas e campanhas educativas sobre Direitos Humanos e governança da Internet no Brasil. Tem interesse de pesquisa nas interfaces da psicologia com a comunicação, privacidade e sociabilidade de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

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