Media, Place and Mobility: Capítulo 02 – Parte 1 de 2

Capítulo 02 – When space feels thorowghly Familiar

(parte 1 de 2 – p.26 a 46)

Por Marcel Ayres

Moores inicia o capítulo retomando sua leitura crítica de No Sense of Place (1985), de Joshua Meyrowitz, mais especificamente sobre como, neste livro, o conceito de “lugar” falha ao lidar com o que o autor se refere de “lá” como um “algo a mais”. O que Moores sugere é que a definição de lugar como ‘localidade’ deve ser estendida significantemente. Para isso, ele vai tomar como base literaturas da geografia, filosofia, antropologia e sociologia (indo além dos estudos de mídia). Para Moores, esta literatura é relevante no estudo dos usos das mídias e na compreensão de como no cotidiano os ambientes físicos e midiáticos se tornam espaços ‘vividos’ ou ‘inabitados’. Parte do que ele citou no primeiro capítulo (utilizando Heidegger, 1962; Scannell, 1995, 1996) será enfatizado neste capítulo em uma perspectiva fenomenológica.

Espaço e Lugar

 As palavras do título deste capítulo foram retiradas a partir do livro Space and Place: The Perspective of Experience (1977), de Yi-Fu Tuan, citado recentemente por Tim Cresswell (2008) como um texto clássico na geografia humana.

Tuan é o mais conhecido entre os geógrafos que desenvolveram nos anos 1970 a perspectiva da experiência na formação do lugar na vida cotidiana (além de Tuan, estão: Buttimer, 1976; Seamon, 1979; Buttimer e Seamon, 1980, Relph, 2008 [1976]). Esses geógrafos foram influenciados pela filosofia fenomenológica de Heidegger (1962, 1993 [1971]); Bachelard (1969); Merleau-Ponty (2002 [1962]). .

Tuan deixa claro em seu livro que “Lugar é mais do que uma localidade”. Assim como a visão dualista de Meyrowitz sobre o lugar, Tuan também nota que há mais de uma posição na sociedade em relação a diferenças sociais e de poder no entendimento do lugar. Ou seja, para ele haveria algo a mais no lugar que apenas uma questão de habitá-lo, pois o lugar seria constituído quando a localidade é rotineiramente vivida e quando é formado um “habit field” ou “field of care”. Lugar é formado através de práticas repetitivas e habituais que fazem emergir ligações afetivas nas quais as pessoas estão emocionalmente ligadas com o ambiente.

Essa definição de lugar como a ligação entre as pessoas e os ambientes é que se perde no entendimento de Meyrowitz do termo. Isto está implícito, por sua vez, na perspectiva fenomenológica sobre o rádio e a TV de Scannell (1995, 1996). Como abordado no capítulo anterior, Scannell demonstra as implicações do consumo de Rádio e TV nas formas de ‘estar no mundo’. Em seu livro Radio, Television and Modern Life (Scannell, 1996) a ideia de doubling-of-place continua sendo como o lugar primariamente definido como local, depois como realizações práticas e emocionais.

Doubing-of-Place, então, é entendido como a uma ‘ocupação’ simultânea de dois espaços sociais contínuos. Por esta razão, Moores considera importante a noção de Tuan e outros da geografia humana que cunharam uma dimensão experimental de lugar (com base em questões de hábitos, afetos e ligações estabelecidas em ambientes da vida cotidiana).

Tuan difere no seu livro as palavras “Espaço” e “Lugar”. Espaço, segundo Tuan, “se torna lugar quando costumamos o conhecer melhor e o dotamos de valor”. Lugar é quando a localidade se torna familiar, concreta e repleta de significados através da prática: “quando o espaço se torna completamente familiar ele se torna um lugar”. Prática aqui é entendida como um processo de aprendizado (mas não é algo formal).

Um dos argumentos de Taun é que o “Lugar” existe em diferentes escalas. “O Lugar pode ser um pequeno canto de uma sala”. Em seguida, Moores cita a obra de Bachelard, The Poetics of Space no qual aborda a casa como lar, no qual estamos intimamente ligados com objetos ordinários que lidamos no dia a dia e se tornam parte de nós mesmos. Cita também, em seguida, o estudo de Elain Lally sobre a domesticação do computador e sua integração na ecologia dos objetos. Isso irá ajudar na concepção de Moores sobre o uso de tecnologias como um ambiente familiar.

Again and Again

Tuan não utiliza o termo “ambiente midiático” em seus trabalhos, contudo em um trabalho posterior a Space and Place ele parte do tema tempo e espaço enfatizando a importância da repetição e do retorno na formação do “Lugar”. Em uma casa, por exemplo, uma mesa ou cadeira podem ganhar uma densidade de significados com base no uso habitual que fazemos destes objetos. Este hábito pode constituir este objeto/local de uma casa em um lugar.

Em Space and Place, Tuan menciona os meios de comunicação e suas aplicações na sociedade contemporânea. Porém, é na sua obra mais recente que há discussões sobre ligações afetivas com fotografias, filmes, novelas, músicas etc. Segundo Tuan ao ver uma fotografia é possível experimentar a sensação de habitar de forma imaginativa em uma imagem particular que pode ser visitada e revisitada. Isso é possível devido a visão de Taun de lugar como algo a mais que uma localidade.

Um ambiente midiático com em um filme, por exemplo, é transformado, a partir do seu uso constante, em um “espaço vivido”.  Outros exemplos de Tuan são as histórias orais, para isso ele cita como as crianças ao ouvir a mesma história repetidamente (e mesmo alguns adultos ao revisitarem seus livros/novelas favoritas) tem a sensação de estarem visitando sua cidade natal – ou seja um mundo ficcional familiar.

Na experiência de ouvir música, ao ouvir repetidamente uma música ou mesmo o trecho de uma música favorita as pessoas o fazem na busca de estar em um lugar mágico. Na perspectiva de Moores, na discussão sobre fotografia, cinema, literatura e música, Tuan escolheu por ranquear diferentes tipos de lugar. No seu ranking o lugar físico é privilegiado enquanto os ambientes midiáticos são encarados como lugares substitutos. Moores não vê razão para uma hierarquia universal dos tipos de lugar.

De todo modo, Moores destaca a importância de Tuan na ênfase da importância da repetição e do retorno na constituição de lugares. Isso pode iluminar perspectivas que encaram como o uso cotidiano de uma mídia pode torná-la em uma localidade que pode vir a se tornar um lugar. Quando o “habit field” ou “filed of care” é formado, um espaço como um jornal diário, por exemplo, pode se tornar completamente familiar.

Segundo Moores é possível entender o uso rotineiro do broadcasting em atividades que contribuem na constituição do lugar. Os espaços ou ambientes disponíveis no rádio e na televisão podem se tornar familiares (assim como no caso do jornal impresso).

Walking/Driving in the City

Moores retoma neste tópico questões relacionadas aos ambientes físicos, a partir da diferença de Espaço e Lugar definia por Tuan. Ele faz uma correlação entre a noção de orientação e “wayfinding” de Tuan, com o trabalho de Michel de Certeu The Pratical of Everyday Life (1984), mais especificamente sobre o seu capítulo “walking in the city”. Moores também faz um link com o trabalho de Nigel Thrift (2007) na geografia humana contemporânea sobre a teoria Não-Representacional. No fim, ele faz considerações sobre as obras de ambos os autores e a relevância de tecnologias em práticas de andar/dirigir na cidade.

Moores cita a discussão de Certeu sobre a cidade, no qual começa com a história sobre a visão de Nova York a partir do topo do World Trade Center – tal qual um mapa imobilizado em nossos olhos. Entretanto, diz Certeu, no dia a dia as pessoas experienciam a cidade como andarilhos que estão logo abaixo. Suas práticas diárias são cruciais nas características de mobilidade que a cidade ganha, em contraste com a visão de um mapa ou da cidade vista de cima. São essas experiências cotidianas que ajudam na constituição do que Tuan chamou de Lugar – ou seja, o lugar aqui seria um processo de apropriação do sistema topográfico por parte dos pedestres.

Com base nesse contraste entre a cidade imobilizada (vista de cima) e a cidade móvel (vista de baixo), para Certeu “andar é para um sistema urbano o mesmo que falar é para um sistema linguístico” – como uma estrutura ou sistema de sinais. Ele está interessado em saber como os movimentos rotineiros dos pedestres servem para articular as cidades, criando outra espacialidade tornando as configurações urbanas em espaços habitados. Ou seja, a rua geometricamente definida por um urbanista é transformada pelos transeuntes.

Uma diferença significativa entre Certeu e Tuan está na visão de Certeu sobre a pragmática e a política da vida cotidiana. Essa relação é valiosa e problemática para Moores, pois traz à tona como as diferenças de poder podem impactar nas práticas rotineiras. Para Moores um problema está na visão simplista da oposição feita entre quem não tem poder com quem tem poder.

Moores traz uma citação de Caroline Bassett que vai de encontro à visão romântica de Certeu sobre andar na cidade – principalmente em tempos de dispositivos móveis que expandem nossa relação com os espaços urbanos. Assim como Bassett, Thrift desenvolve e expande as ideias de Certeu sobre os transeuntes na cidade levando em consideração a tecnologia. Mais especificamente, ele quer levar em consideração o surgimento e o crescimento do uso dos automóveis e explorar a prática de dirigir na cidade – no qual o carro seria um elemento tecnológico inconsciente da vida urbana contemporânea.

Para Thrift dirigir ou andar por um lugar estão intimamente ligados com a sensação de experiências.  Para ele, as fronteiras entre os corpos e as tecnologias estão borradas e incertas. No caso de dirigir um carro, há a emergência de uma pessoa-coisa (ou objeto) que ele chama de carro humanizado ou pessoa motorizada. Thrift irá dizer que o carro se torna uma extensão de nossos corpos e pode ser uma experiência altamente emocional. Assim como andar ajuda a constituir lugares (segundo Certeu), dirigir pode ser visto como um lugar em si mesmo, além de contribuir na construção de lugares (no trânsito diário). No campo dos estudos de mídia, Michael Bull (2001) investiga como os sistemas de sons contribuem na percepção do automóvel como um lugar para o motorista. 

Non-Representational Theory

A Teoria Não-Representacional é um termo que aparece com consistência no trabalho de Thrift nos anos 1990. Os trabalhos de Thrift sobre a teoria Não-Representacional são linkados com debates filosóficos sobre subjetividade e percepção. Na linha da filosofia fenomenológica de Heidegger e Merleau-Ponty, Thrift contesta as concepções do ser humano que são associadas ao “racionalismo” e ao “cognitivismo”. Esses modelos tendem a assumir uma separação de sujeito “dentro” e “fora” de um mundo, mente e corpo, como se o mundo externo fosse percebido preponderantemente por representações mentais. O problema com estes modelos é que quando lidamos com estes tipos de separação fica difícil perceber como os significados emergem das práticas no mundo. A teoria Não-Representacional rejeita esse dualismo do self/mudo e mente/corpo, enfatizando o engajamento, ou “agência encarnada” do “estar no mundo”.

No curso da vida cotidiana, vivendo com ambientes familiares, há um conhecimento pré-cognitivo ou um “conhecimento corporal” que está intimamente conectado com a nossa forma de lidar com os objetos e coisas. É um conhecimento prático, um saber como agir com o que está em volta no mundo”. Andar ou dirigir na cidade, assim como atravessar passagens virtuais (Bassett, 2003) ou movimentar-se em ambientes midiáticos servem como bons exemplos de atividades rotineiras que incorporam um certo tipo de knowhow e que contribuem na concepção do lugar. 

The Dwelling Perspective

Segundo Moores, não foi apenas na geografia humana, mas, também, na antropologia social que a fenomenologia teve influência. Neste tópico, Moores fala sobre alguns aspectos do trabalho de um antropologista chamado Ingold e no que ele chama de “Dwelling Perspective” (tomando como base Heidegger).

Assim como a teoria Não-Representacional de Thrift, a “Dwelling Perspective” de Ingold rejeita a visão racionalista e a separação entre o preceptor e o mundo – como se o preceptor reconstruísse o mundo em sua mente, prioritariamente, ou seja, o mundo como um constructo simbólico e cognitivo no qual a vida social é entendida como um texto.

Thrift e Ingold tiveram problemas com certos aspectos das teorias de mídia, especialmente devido as análises estruturais das representações midiáticas e na ênfase da investigação das interpretações cognitivas destas representações ou “textos”, incluindo aqui a tecnologia como um texto. Thrift não busca negar a realidade das representações. No entanto, pesquisadores da teoria Não-Representacional abordam a linguagem e a representação simbólica como “atos performativos”.

Nessas teorias (Dwelling e Não-representacional) a ênfase está no “agente no ambiente”, ou seja seria uma abordagem ecológica (como diz Gibson, 1986). Ingold, então, desafia a separação racionalista entre o preceptor e o mundo e continua dizendo que o self e o mundo se mesclam a ponto de não saber onde um começa e o outro termina. No livro The Perception of the Environement: Essays in Livelihood, Dwelling and Skill, Ingold discute a sua teoria com as habilidades de encontrar lugares (wayfinding)

Ingold irá dizer que nosso conhecimento sobre os ambientes será formado com base no curso em que nos movimentamos nele. Ou seja “that we know as we go”. Em outras palavras, esse conhecimento do ambiente é pré-cognitivo ou não-representacional. Assim como Certeu, Ingold está interessado nas práticas de andar, porém não apenas nos perímetros urbanos. “O Lugar seria constituído por movimentos nele e ao redor que é refletido no uso habitual”. Moores aponta que as vindas e idas não se dão apenas a pé, também se dão em ambientes mediados por tecnologia de diferentes formas, criando um senso global de lugar na vida contemporânea (segundo Massey, 1994). 

Pratical Engagemente with Lived-in Environments

Moores faz aqui um resumo do que discutiu até agora em seu livro. Baseado na discussão de mídia e geografia situacional, ele começou este capítulo retomando a geografia fenomenológica de Tuan para definir Lugar como uma realização experimental que une pessoas e ambientes, incluindo ambientes midiáticos. Com isso, ele fez um link entre o trabalho pioneiro de Tuan no que diz respeito às atividades que contribuem na construção do lugar com a pragmática de Michel de Certeu em relação à vida cotidiana. A Teoria Não-Representacional de Thrift e a Dewlling Perspective de Ingold são aproximadas, pois, em ambas, o significado é uma relação entre contextos práticos de pessoas engajadas com os ambientes em que vivem. Moores pondera dizendo que Thrift não desconsidera a importância da cognição na compreensão do mundo (ou que ele nega a realidade das representações), contudo aponta que poucas investigações levam em consideração a pré-cognição ou conhecimento corporal na compreensão dos ambientes no dia a dia.

Tudo isso tem implicações sérias se consideramos as formas como os estudos de mídia estão sendo conduzidos na atualidade. O autor levanta questões sobre as limitações dessas formas de análise de mídia que focam muito em uma interpretação simbólica. Essa perspectiva convoca uma visão que compreende o uso das mídias como atividades de construção de lugar, assim como outras atividades na vida cotidiana. Moores, então, provoca uma linkagem com a compreensão das experiências do uso de mídia e como os ambientes físicos e midiáticos estão borrados através da tecnologia.

Indica também que as práticas rotineiras do uso de mídia possuem relação direta com o corpo e demonstra como boa parte dos estudos da relação entre mídia e usuários tendem a se preocupar com o conteúdo das mensagens e sua interpretação, sugerindo uma visão de uma audiência desincorporada – ou seja, uma mente desincorporada.

No próximo tópico a ênfase de Moores será em questões relacionadas ao corpo e sua importância para alguns acadêmicos, como Merleau-Ponty em Phenomenology of Perception (2002). Assim como Ingold trabalhou a questão do conhecimento através do ato do “andar”, Merleau-Ponty trabalha o conhecimento através das mãos.

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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