Personal Connections in the Digital Age – Segundo capítulo

Dando continuidade a leitura do livro Personal Connections in the Digital Age, da Nancy Baym, segue um resumo sobre o segundo capítulo discutido na última reunião do grupo: Making new midia make sense.

Logo no início do capítulo, a autora propõe que quando confrontados com uma nova mídia o desafio para usuários e não usuários é fazê-la fazer sentido: é boa para que? Quais os riscos? Quais os benefícios? Para entender as novas mídias precisamos considerar tanto as características tecnológicas quanto os pressupostos pessoais, culturais e históricos e os valores que eles evocam. O objetivo do segundo capítulo é portanto explorar as mensagens que circulam a respeito das novas mídias para mostrar como as forças sociais influenciam a interpretação da tecnologia e seus usos.

A autora nos apresenta ao longo do capítulo uma análise de como as novas mídias aparecem representadas nas mídias de massa, partindo da idéia de que as mensagens que transmitimos sobre tecnologias são reflexivas e podem revelar muito tanto sobre as pessoas quanto sobre as tecnologias. Conforme representamos essa ferramenta, ainda não familiarizada, através de palavras, conversas, metáforas, imagens etc estamos socializando o que são as relações e o que queremos que elas sejam. Além disso, as comunicações sobre tecnologia são também as melhores maneiras de ver os desejos e preocupações de um determinado contexto em um determinado momento histórico.

Para entender o fluxo causal entre tecnologias e sociedade, Nancy organiza este capítulo em quatro teorias principais a respeito das tecnologias de comunicação, conforme segue:

1. Determinismo tecnológico: forte tendência, especialmente quando as tecnologias são novas, de vê-las como agentes causadores, que entram na sociedade com tal força que as pessoas nada podem fazer.

2. Construção social da tecnologia: as pessoas são os principais agentes de mudança na tecnologia e na sociedade.

3. Formatação social da tecnologia: social e tecnologia são agentes de mudança.

4. Domesticação: tecnologias são vistas como parte do cotidiano e não mais como agentes de mudança.

Determinismo tecnológico 

No determinismo tecnológico, a tecnologia é conceituada como um agente externo que age sobre e altera a sociedade. Para discutir a questão, Nancy traz alguns autores como Carr e Trace Alloways. Carr afirma que o Google está nos fazendo estúpidos, pensando por nós e prejudicando nossa capacidade de concentração. Já Alloways apresenta uma comparação entre facebook e twitter, afirmando que o primeiro expande nossa memória, enquanto o segundo a prejudica, uma vez que as mensagens são sucintas e não nos permitem processar a informação.

A autora coloca ainda que visões populares de acordo com a teoria do determinismo tecnológico vem desde as civilizações antigas. Sócrates criticou o alfabeto, alegando que ele nos prejudicaria, pois não precisaríamos mais usar nossa memória, além de não apresentar a verdade, mas sim o semblante da verdade. Apesar de assumir formas e palavras diferentes, a idéia de que as tecnologias de comunicação nos deixam mais estúpidos é uma idéia antiga. Livros de Marvin (1988, 1992, 1998) sobre os primeiros tempos do telefone também apresentam uma similaridade com os primeiros escritos sobre internet e tecnologias.

Nancy propõe ainda que na teoria do determinismo tecnológico há uma variedade de idéias. Uma delas segue a linha de McLuhan (o meio é a mensagem) e afirma que as características das tecnologias são transferidas aos usuários, individualmente e coletivamente. Já a teoria do mídia choice, forma mais leve de determinismo tecnológico, argumenta que as características das tecnologias tem diversas conseqüências e que as pessoas podem fazer estratégias e escolhas sobre que mídia usar para diferentes objetivos, podendo evitar a influencia das tecnologias evitando as tecnologias. Ainda nessa visão, Marcus (1994) argumenta que o determinismo tecnológico é otimista: as conseqüências negativas das tecnologias podem ser eliminadas com boas tecnologias.

A autoria apresenta também idéias de David Nye (1997), que tem um extenso trabalho sobre como os americanos responderam às tecnologias da década de 90.  Nye colocou que os americanos usaram varias narrativas para as tecnologias fazerem sentido e dividiu-as em três visões positivas e três negativas. Nas visões positivas as tecnologias são naturais do desenvolvimento da sociedade, melhoram a vida diária e suas forças transformam a realidade para melhor. Já as negativas dizem respeito ao medo de perder o controle, tornar-se dependente e ser incapaz de conter as mudanças. Nye identificou ainda as tecnologias como um caminho para as elites controlarem as massas.

Para ilustrar a teoria do determinismo tecnológico, Nancy apresenta temas comuns e recorrentes sobre novas mídias e sociabilidade que aparecem na mídia popular a partir dos anos 90. Para isso, foram observados cartoons do New Yorker, uma revista influente que desde a década de 20 questiona com humor nossa relação com a mídia e artigos dos dois colunistas mais populares dos EUA: Ann Landers e Dear Abby. Os temas mais recorrentes foram a autenticidade da comunicação mediada e das relações, a qualidade das interações mediadas, a formação de novas relações e os efeitos do anonimato. Em quase todas as mensagens persiste o senso de que as interações mediadas não são reais ou são inferiores às interações face a face.

Conforme apresentado pela autora, o determinismo tecnológico das mídias digitais, assim como das tecnologias anteriores, foca a autenticidade da identidade e o bem-estar dos relacionamentos “reais”. As teorias mais otimistas enfatizavam que as tecnologias liberariam a sociedade das diferenças sociais e das distancias geográficas, além de potencializar as relações off-line e possibilitar novas relações. Já as teorias mais pessimistas apontavam para a decepção, o tribalismo e a potencialização das diferenças sociais.

Construção social da tecnologia

O segundo pressuposto colocado pela autora – a construção social das tecnologias – aponta para a tecnologia como causa da mudança social. A construção social da tecnologia (SCOT) afirma que as tecnologias surgem de processos sociais – os homens e não as maquinas são agentes de mudanças. Essa teoria coloca o social como força influenciadora na invenção e adoção de uma nova tecnologia. Tanto o desenvolvimento quanto a forma como as pessoas utilizam a mídia são vistos como dependentes de vários fatores sociais, econômicos, governamentais e culturais.

Ainda discutindo este pressuposto, Nancy apresenta a idéia de pânico moral, quando deslocamos nossa ansiedade para a tecnologia devido à dificuldade de controle. O exemplo do pânico moral mostra como o determinismo retórico pode influenciar não só o entendimento das tecnologias como também decisões políticas acerca delas.

Formatação social da tecnologia

A terceira teoria apresentada pela autora neste segundo capítulo é a formatação social da tecnologia. Esse pressuposto é um mix das duas teorias vistas anteriormente. As tecnologias possuem aparatos e lógicas que influenciam, mas não determinam seu uso. Douglas (2004) argumenta que as maquinas não fazem historias por elas mesmas, mas diferentes tecnologias ajudam a fazer diferentes tipo de historias e diferentes tipos de pessoas.

Dessa forma, pessoas, tecnologias e instituições tem o poder de influenciar o desenvolvimento e subsequente uso de tecnologias. Ao analisar as tecnologias, temos que considerar que circunstancias sociais deram origem às tecnologias, que possibilidades e restrições essas tecnologias oferecem, e em que praticas de uso essas possibilidades e restrições são retomadas, rejeitadas e retrabalhadas no dia a dia.

Domesticação da tecnologia

No quarto e último pressuposto, a autora coloca que as tecnologias mais recentes foram domesticadas. O que vimos uma vez como maravilhoso ou estranho, capaz de criar maravilhas e horrores, hoje são invisíveis. A vida hoje sem essas tecnologias é inimaginável.

A domesticação propõe que além do social e da tecnologia influenciando nas conseqüências das novas mídias, tais tecnologias deixaram de ser selvagens, foram domesticadas e hoje fazem parte de nosso dia a dia. Assim, Nancy coloca que passamos de um período em que as tecnologias eram vistas como uma ameaça ou com excitação para um período na qual elas são encaradas de forma ordinária.

Para finalizar o capítulo, a autora coloca que somente a domesticação da tecnologia não dá conta de toda a angustia. Ainda hoje as tecnologias são assunto e o questionamento atual é sobre como viveríamos se elas não existissem – o que as tecnologias realmente significam para nós, qual o seu significado nos relacionamentos e como se situam no mundo.

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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