O uso de geolocalização no Facebook – um estudo exploratório

Um artigo publicado no Wi – Journal of Mobile Media – realiza uma exploração em torno da utilização do Facebook Places. O Places é funcionalidade de geolocalização embutido nos perfis da rede social Facebook. Maude Gauthier, autor do estudo exploratório, percorre pelas ideias de usuários e não-usuários do serviço e de como essa utilização (ou não) se relaciona com o público em potencial (“amigos” do Facebook) de cada usuário.

A pesquisa foi realizada com seis usuários do Places, todos considerados como “default users”. Gauthier utiliza-se desse termo (ou usuários por padrão, em tradução livre) para se referir àquelas pessoas que passaram a utilizar o aplicativo Places sem exatamente uma finalidade concebida – ou seja, meramente porque a opção passou a estar disponível em seus dispositivos móveis. Em suas palavras, a adoção dessa ferramenta pode ser considerada “acidental”, mesmo que sua utilização tenha ganho outros atributos ou utilidades – como tentativas de encontrar-se presencialmente com amigos.

A principal consideração do artigo gira em torno da falta de interesse particular no Places. Ainda que os entrevistados não tenham demonstrado qualquer inclinação específica na ferramenta, eles a usavam para finalidades diversas, como tentativas de sociabilização ou simplesmente pela disponibilidade da mesma.

Ser usuário e não-usuário: dentre considerações diversas entre (re)apropriações culturais e tecnodeterminismo, não utilizar determinada ferramenta pode ser uma opção de escolha e não simplesmente um reflexo de inaptidão ou completo desconhecimento sobre os recursos disponíveis. Não utilizar a opção Places do Facebook, por exemplo – considerando-a enquanto componente de um “eco-sistema” maior e não como um em si (fato levado em conta por todos os participantes da pesquisa) – pode ser visto como uma rejeição deliberada de mostrar a própria mobilidade, dentre outros aspectos. De alguma forma, pelo menos em termos de interação e construção de identidades online, a pesquisa mostra que há liberdades de escolha no Facebook – pelo menos nesse ponto específico. Por outro lado, ter a disponibilidade dessa ferramenta específica, dos recursos técnicos e do conhecimento necessário para utilizá-la pode ser visto como uma situação de privilégio dentre aqueles que passaram a adotá-la. Para o autor do estudo, os usuários do Facebook Places, assim, realizam a um só tempo performances sobre suas movimentações pelo espaço, sobre suas habilidades com a tecnologia e sobre suas conexões sociais.

Ainda que considerem a rápida adoção da tecnologia como algo intrinsecamente bom, os entrevistados de Gauthier aderiram ao Places por meio de usos relativamente complexos – como expor sua localização apenas em alguns lugares, ditos como os “mais públicos”. A publicização da mobilidade, assim, é um processo de negociação em relação aos laços afetivos com seus contatos – tanto em termos de reconhecimento e significados sócio-espaciais (os sentidos que os lugares carregam), em termos agregação e coordenação entre amigos (demonstrar disponibilidade para um encontro face-a-face, por exemplo) quanto em termos de disponibilização de informações para uma audiência imaginada (efetivamente, a rede de contatos).

O link para o artigo na íntegra: http://wi.mobilities.ca/default-users-an-exploration-of-the-use-of-geolocation-on-facebook

 

 

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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