O que é o contemporâneo? e outros ensaios – O que é contemporâneo?

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009.

Neste capítulo, o autor inicia o seminário realizando dois questionamentos: “de quem é e do que somos contemporâneos?” e “o que significa ser contemporâneo”. Para isso, Agamben busca respostas a partir do que foi apresentado por Nietzsche, que decidiu estudar o contemporâneo o conceituando como “intempestivo”.

Agamben esclarece a necessidade de Nietzsche de entender o seu próprio tempo, demonstrando que, para compreender o contemporâneo, é necessário que o sujeito não esteja adequado a sua própria época, ou seja, exista uma desconexão, um desacordo com os usos e costumes do período em que se encontra. Contudo, o autor esclarece que mesmo existindo esse processo de dissociação, isto não significa que contemporâneo só seja aquele que vive em outro tempo, pois, para o autor, o homem compreende que não pode se esquivar do seu próprio tempo.

A partir disso, ele afirma que a contemporaneidade pode ser vista como uma relação e distanciamento com o próprio tempo (dissociação e anacronismo), pois, aqueles que conseguem se adequar perfeitamente ao seu período histórico não conseguem compreendê-lo e enxergá-lo como de fato ele o é.

Em seguida, Agamben cita Osip Mandelstam, que escreveu uma poesia intitulada “O século”, apresentando a relação do poeta com o seu tempo. As estrofes apresentadas no ensaio demonstram como o poeta conseguiu captar as nuances, bem como visualizar o período em que se encontrava como de fato um contemporâneo do seu próprio tempo.

Além disso, é exposto outro conceito para a mesma definição sobre contemporaneidade, afirmando que “contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro” (p.62). Para este conceito, o autor busca respostas através da neurofisiologia da visão, que esclarece que o escuro não é apenas uma simples ausência de luz, mas sim o resultado de uma desinibição de algumas células periféricas existentes na retina. Agamben tem o intuito de demonstrar, a partir do que foi apresentado, que para compreender a contemporaneidade é necessário visualizar além do que se pode enxergar, percebendo o escuro do período em que vive como algo que lhe pertence, que lhe é direcionado.

Além disso, Agamben também traz contribuições da astrofísica para compreender o contemporâneo. De acordo com o autor, a escuridão observada no céu pode ser analisada em decorrência das galáxias se distanciarem a uma velocidade tão rápida e intensa que a sua luz não consegue alcançar (p. 64). Com isso, é possível compreender, voltando ao eixo central deste capítulo, que ser contemporâneo é conseguir perceber este escuro, bem como visualizar a luz que é direcionada e que se distancia a partir desta escuridão. O autor também esclarece que a contemporaneidade não poder ser apenas associada ao tempo cronológico, e sim, algo que emerge deste tempo, que o transforma.

Para ir além do que foi apresentado, Agamben busca exemplificar a contemporaneidade através da moda. O autor pontua que o estar ou não estar na moda é evidenciado pontualmente por aqueles que a percebem, e que esta não pode ser vista a partir de um período cronológico, pois a moda é algo que se transforma constantemente ao longo do tempo.

Através desta relação com a moda, é possível também estabelecer uma conexão entre o tempo presente e passado. Esta pode ser compreendida a partir do momento em que algo do passado pode ser reatualizado para algo do presente. De fato, é possível refletir a partir do que foi proposto, que o contemporâneo é associado através do que é passado, do arcaico. Porém, Agamben retoma novamente que o arcaico não está necessariamente relacionado com um passado cronológico, pois a origem não deixa de estar relacionada com o presente (ex: embrião, criança na vida psíquica de um adulto).

É nesse sentido que o autor busca apresentar que o acesso ao atual perpassa pela origem, pelo arcaico. Agamben afirma que o presente “não é outra coisa se não a parte do não-vivido em todo vivido” (p.70) e que este não vivido é o contemporâneo. Com isso, pode-se concluir que o contemporâneo é a relação entre os tempos, sendo apresentado pelo autor como um espaço de encontro entre gerações. Além disso, Agamben cita que o contemporâneo possui a capacidade de compreender o escuro do tempo, mas também busca a capacidade de transformá-lo, expressando com ineditismo aquilo que já foi apresentado em um dado momento histórico.

Bianca Orrico

É psicóloga, graduada pela Universidade Salvador. Atua na Safernet Brasil em um canal gratuito que oferece orientação para esclarecer dúvidas, ensinar formas seguras de uso da Internet e também orientar crianças e adolescentes e/ou seus próximos que vivenciaram situações de violência on-line. Tem experiência em acompanhamento de crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade social. Realizou pesquisas sobre adolescentes, redes sociais e tribos urbanas.

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