O não-lugar na era dos dispositivos móveis

No segundo capítulo de Media, Place and Mobility (veja aqui resenha mais detalhada), Shaun Moores faz releituras e observações sobre os argumentos de dois autores bastante referenciados quando o assunto é o espaço urbano contemporâneo. São eles Marc Augé e Edward Relph.

Montagem sobre foto de Paulo Resende: https://flic.kr/p/cKHeuL Creative commons CC BY-NC-SA 2.0

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Augé tem o livro Não-lugares (1994) como possivelmente seu trabalho de maior reconhecimento. Não-lugares é o termo que o antropólogo propõe para conceituar aqueles espaços cuja prática é caracterizada pela efemeridade, diferente de um olhar antropológico tradicional, que pressupõe uma demora e o estabelecimento de laços afetivos com aquele lugar. No não-lugar, a exemplo de um aeroporto, é possível encontrar dinâmicas rápidas, fluidas, sem preocupação com o estabelecimento de vínculos: as pessoas passam, transitam apenas, e se vão sem estabelecer relações mais demoradas com o espaço então vivido. Já Relph, anterior a Augé, considera em seu Place and Placelessness (1976) que a combinação entre a tecnologia, a intensificação da mobilidade e o nascer da sociedade do consumo acaba por resultar em certa homogeneização dos espaços. Com efeito, Moores sublinha que a crítica de Relph recai fortemente sobre o conceito de “Estilo Internacional” da arquitetura – como se cada cidade ou cultura não pudesse dar vazão a releituras próprias mesmo diante de algumas predominâncias estilísticas.

Uma importante relação sublinhada por Moores está no fato de que Relph considera o surgimento de uma “geografia sem lugar” (tradução livre de placeless geography) como resultado dos meios de comunicação de massa – afinal, cada vez mais símbolos específicos podiam percorrer pelo mundo de uma única maneira, sendo levados por “mágica” pelos mass media. Mas para dar conta da ideia de “massa”, ressalta Moores, Relph se vale de algo mais que TV ou rádio, dando atenção a outros signos e sistemas de transporte, como rodovias, aeroportos e outras construções que ligam os lugares. Essa consideração, ainda que não centrada nos meios de comunicação propriamente dito, faz até bastante sentido, uma vez que a história da comunicação é também uma história de deslocamento de mensagens (mesmo que não apenas). No entanto, ao conferir ao esfacelamento das distâncias (supostamente causado pela tecnologia eletrônica e pela mobilidade em geral) um efeito de apagamento sobre os lugares, essa acaba por ser uma consideração bastante pesada – como se os pontos que ligam dois outros pontos (partida-destino, emissor-receptor) não existissem e não fossem experimentados.

Assim como Relph, vale atentar que Augé traz a discussão para o patamar do desenvolvimento tecnológico e uma experiência típica de Modernidade. Meios de transporte, lugares de chegada e recepção (aeroportos, estações de trem), redes de hotéis e sistemas de comunicação operam, a seu ver, na condição de proporcionar algumas ações padronizadas para aqueles que transitam e consomem.

The spaces of circulation, consumption and communication are multiplying across the globe … the same hotel chains, the same television networks are cinched tightly round the globe, so that we feel constrained by uniformity (Augé apud Moores, 2012, p. 66)

A discussão de Relph e Augé encontra-se um tanto quanto distante daquilo que tratamos aqui – tecnologias digitais, redes sociotécnicas, interações mediadas. Mas ainda assim, e talvez pela própria distância em si, acabem nos interessante num ponto específico – o qual, digamos, aponte justamente para a virada pós-moderna e meios de comunicação com características pós-massivas. Ora, à medida que Augé e Relph consideram que as experiências da modernidade sejam massivas e homogeneizantes, não seria possível pensar numa condição inversa quando nos deparamos com ferramentas que retornam o poder de comunicação e interação para as mãos de não-especialistas?

Desse modo, parece-nos válido questionar a validade de seus argumentos do ponto de vista dos indivíduos em rede. Não seria presumível que as experiências com redes digitais contemporâneas venham a proporcionar novas configurações e apreensões sobre a espacialidade, especialmente com o uso de tecnologias e dispositivos móveis?

Muito do que é discutido por Moores percorre uma argumentação nesse sentido, embora seu desenvolvimento se dê ainda com exemplos como a televisão. Moores faz amplas considerações sobre o sentido de lugar se constituir de maneira relacional, e não simplesmente uma imposição ou herança afetivas. Adotando a perspectiva de Tuan, por exemplo, ele busca nos mostrar que o lugar não é definido ou mantido por alguma instância situada num patamar superior de legitimação ou poder discursivo, mas sim formatado por um elo experencial entre as pessoas e seus ambientes. Em outras palavras, é a prática que o faz.

Muito do que Moores busca defender nesse livro (novas formas de habitar num mundo em mobilidade, novos modos de experimentar os lugares e os meios de comunicação, outras percepções sobre as interações não-situadas) poderia ser dito também em relação às redes sociais digitais – o que nos leva a pensar, por exemplo, como ambientes eletrônicos, a exemplo de Twitter, Facebook, blogs etc, conseguem se constituir como “lugares sem geografia” – parafraseando Relph. Essa não é a proposta de Moores, então vale pensarmos em possibilidades, como a prática do lugar geográfico tradicional e sua ampliação por meio de dispositivos eletrônicos em rede. Vejamos:

Instagram: nessa rede, atribuímos tags e dados georreferenciais às imagens e aos vídeos publicados, bem como podemos marcar as publicações em mapas personalizados – o que constitui uma espécie de geografia individual. Se as teses de Relph e Augé continuam válidas (se é que já foram), as fotos e as experiências pessoais seriam homogeneizadas? A maneira pela qual os lugares são narrados é uma única a todos? Todas as imagens estariam de acordo com certas “imagens oficiais” dos lugares?

Facebook: similar ao Instagram, a georreferência pode ser um atributo de textos, imagens, vídeos e páginas, além de ser uma publicação em si com seu próprio significado por meio do check-in. Mas talvez haja algo mais aqui: saber de onde você é e onde você se encontra pode ser importante para uma filtragem mais adequada das postagens que aparecem no mural. Nesse caso, onde nós estamos quando estamos no Facebook?

Foursquare/Swarm: a ideia de dizer onde alguém se encontra em tempo real traz à tona a dinâmica de atribuir uma camada informacional ao espaço e, com ela, considerações próprias sobre os lugares. Não só estes dizem muito sobre as pessoas que o frequentam (“presentation of place”, como dizem Sutko e De Souza e Silva, 2011) como as pessoas têm muito a dizer sobre os lugares (olhemos para as tips, por exemplo, e o que elas nos falam dali). Mais uma vez vale perguntar: as experiências, opiniões são homogêneas? Ainda que haja uma proposta única e catalisadora em cada lugar, a percepção e a prática é igual para todos?

Por fim, ressalta-se uma vez mais: talvez não se trata de ir de encontro às ideias de Relph e Augé (uma vez que ambos falam de meios de comunicação de massa), mas de considerarmos uma espécie de virada em relação à prática dos lugares tendo em vista as transformações que observadas nas formas e nos meios de comunicação contemporâneos. Se a proposta dos mass media era geograficamente homogeneizante a priori (mesmo que não fosse a posteriori), a lógica atual é de dar pluralidade aos lugares?

Referências

  • AUGÉ, Marc. Não-lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 1994.
  • MOORES, Shaun. Media, Place & Mobility. Palgrave Macmillian, 2012.
  • RELPH, Edward. Place and Placelessness. Pion: London, 1976.
  • SUTKO, Daniel M.; DE SOUZA E SILVA, Adriana.  Location-aware mobile media and urban sociability. New Media & Society, v. 13, 2011, p. 807-823.

 

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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3 Comments
  1. PV, na minha tese, tentei fazer um caminho parecido com esse do Moores (não conhecia o livro). Chamo de “infinitos lugares”, esses lugares que surgem com os bit-media, pulverizando contextos e intercambiando papéis de emissão, recepção e produção de informações. Se quiser, te passo! Forte abraço!

    • Legal, Macello! Vc tem lido o Moores? Acho que ele tem tudo a ver com seu trabalho, especialmente quando coloca Meyrowitz, McLuhan e Goffman para dialogar.
      Dei uma olhada aqui na sua tese, não lembrava do desenvolvimento desse conceito :) Obrigado pelo lembrete! Abraço!

  2. PV, pra ser sincero, nem sab. ia que ele tinha lançado este livro rsrs lembro de JC compartilhar um artigo dele no ano passado… Estava lendo as resenhas e realmente percebi um semelhança na abordagem que utilizei na tese. Vc tem o livro? abs

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