O espaço e seu papel nas interações mediadas

Por volta das últimas semanas, pelo menos duas notícias diferentes me fizeram repensar a relativa estabilidade que possui o espaço no que diz respeito à comunicação e às interações sociais. Essa relatividade deve ser sublinhada precisamente para indicar rupturas, movimentações e incertezas que incidem sobre a espacialidade – a qual, a despeito de tantos ataques e proposições sofridas, teima em continuar, muito erroneamente, como um dado a priori e incontestável.

O texto em questão, contudo, não se trata tanto de qualificar e explorar os desdobramentos sobre ou a partir do espaço, mas sim de observá-lo como um agente ativo quanto às dinâmicas de sociabilidade contemporânea, especialmente quando da interveniência de ambiências sociotécnicas e dispositivos conectados a redes móveis. Com efeito, é justo notar que, até bem pouco tempo, as considerações em torno das interações sociais estavam centradas no aspecto presencial dos atores envolvidos – em outras palavras, as conversações se davam em determinada situação, espacialmente localizada, definida e mantida pelos indivíduos ali co-presentes.

Algumas conceitos e discussões ajudam a compreender a questão: Giddens, por exemplo, parte da leitura de Goffman sobre as interações efetivadas em co-presença, a qual se dá quando os interagentes “sentem estar suficientemente próximos para serem percebidos em sua ação” (Goffman, 2010, p. 17). Por essa perspectiva, a percepção entre os indivíduos é o componente básico para o desdobramento da interação, e o modo como Goffman traz essa definição inviabiliza, pelo menos teoricamente, outras formas de interação que não tenham esse pressuposto básico – com efeito, o próprio autor relativiza essa questão, mas deliberadamente não a desenvolve, mesmo porque seus interesses se encontravam focalizados sobre as formas efêmeras dos encontros e das situações, não sobre os moldes institucionais que dão forma a uma vida social mais ampla (Giddens, 2009, p. 80).

Buscando um olhar mais abrangente, Giddens chega a considerar outras formas de contato que não estejam pautadas nessa presença física e na percepção corporal mútua: “na era moderna são possibilitados contatos mediados, que permitem algumas das intimidades da co-presença, pelas comunicações eletrônicas” (Giddens, 2009, p. 79). Nesse ponto, o autor cita o telefone como exemplo, sem alargar a perspectiva para ferramentas como o computador, a webcam e similares. Tendo escrito o texto originalmente em 1984, talvez Giddens nem pudesse imaginar os desdobramentos que teríamos 30 anos depois em relação a esse mesmo dispositivo chamado telefone, hoje já utilizado para muitas outras finalidades além daquele mero dispositivo fixo num canto da sala.

De fato, com a chegada das TICs muitas outras leituras são possíveis quanto às interações e o papel dos meios (como as de Meyrowitz, em No Sense of Place, ou a de Couldry, em Media Rituals). Noções até então estabilizadas entraram em colapso e aquilo que parecia muito bem resolvido é posto novamente em discussão. Atendo-nos somente a Giddens e Goffman, por exemplo, podemos notar algumas das dificuldades epistemológicas que sofrem certos conceitos quando postos sob perspectivas baseadas em telemediação – a exemplo de contexto, situação, fachadas e ocasiões.

Essa, entretanto, é uma discussão para outro momento. As considerações de Coldry e Meyrowitz são valiosíssimas de uma visita, mas, como já dito, a proposta desse texto específico é problematizar o papel do espaço enquanto agente participativo nas dinâmicas interacionais. Vamos nos ater a essa proposta.

O espaço como elemento de mediação

Se observado apenas pelo olhar de Erving Goffman e Anthony Giddens, o espaço é, junto com o tempo, apenas uma das variáveis possíveis para a definição de contextos e situações – e uma variável a priori ora, autores como Henri Lefebvre, de um ponto de vista crítico, ressaltam a construção constante do espaço por processos sociais, buscando defenestrar uma mera recepção passiva do espaço enquanto dado. Giddens e Goffman consideram mas não realizam discussões mais aprofundadas sobre os termos – sem nenhum demérito, já que é preciso reconhecer o recorte teórico que dão a seus trabalhos. Entretanto, tem sido recorrente que algumas novidades no campo da cultura digital desestabilizem a compreensão do papel do espaço, especialmente quando concentradas sob a forma de aplicativos para smartphones – os quais, por definição enquanto dispositivos móveis, já carregam consigo uma perspectiva para além da mera comunicação mediada entre dois atores fixos. Portanto, trazemos aqui um breve exercício de pensar as interveniências sofridas pelo espaço nas dinâmicas interacionais mediadas, ou mesmo como ele é trazido a um papel crucial para as interações transcorridas. Como já ressaltado no início, há especificamente duas notícias recentes que merecem um grifo. Vamos a elas.

tracesA primeira nos fala do Trace, um aplicativo para celular com o qual uma determinada pessoa pode deixar um rastro digital em determinado local, o que pode se dar sob diversos formatos: áudio ou música, vídeo, fotografia, texto e até tickets promocionais. O tal rastro, que comporta, pois, uma mensagem, só pode ser lido por aquele destinatário específico somente se ele se encontrar no local determinado por aquele quem o deixou.

Funcionando através de realidade aumentada, a tela do dispositivo, desde que apontada para a direção certa, mostra uma bolha que denota a existência do rastro deixado. Uma vez que os parâmetros coincidam – destinatário, localização e tempo – a mensagem pode, enfim, ser lida pela pessoa a quem foi dirigida.

Por que o espaço entra em questão? Bem, porque a história da comunicação é uma história de deslocamento (da mensagem), e o deslocamento envolve, crucialmente, uma relação entre tempo e espaço. Comunicar é, em linhas bem breves, o ato de por algo em comum entre dois ou mais atores (a teoria matemática da comunicação, por exemplo, descreve a comunicação como um processo em que uma mensagem sai de um emissor, passa por um meio e chega ao receptor). Se pensarmos especificamente em formatos mais tradicionais de comunicação, como a carta e o telegrama, o espaço é o meio pelo qual a mensagem transcorre. No caso do Traces, contudo, o dado espacial (especificamente da localização, posta sob coordenadas geográficas) é o código de acesso ao rastro em questão e, pois, a condição sine qua non para a leitura da mensagem deixada – sim, deixada, não enviada.

Deixar uma dada mensagem num lugar específico não é algo exatamente novo, claro. A dimensão de novidade fica por conta da mediação técnica e das relações necessárias entre o celular, o aplicativo, a localização específica lida pelo GPS, a conexão em rede e a ligação entre os atores envolvidos na interação – o que, visto no geral, é bem diferente de mandar um bilhete dizendo “vá a tal lugar e leia a mensagem escondida em…”. A princípio, pode-se conjecturar que diálogos, brincadeiras e outras dinâmicas lúdicas brotem a partir do elo entre os indivíduos, e que boa parte delas surjam igualmente de experiências específicas com o espaço – o que, em parte, proporcionar novas experiências em relação ao turismo ou à exploração da própria cidade. Também não se pode deixar de perceber o potencial para áreas mais concentradas no marketing e na promoção de serviços e produtos, por exemplo, se contarmos com anúncios “camuflados”, dirigidos a um público escolhido a dedo.

A segunda notícia é sobre o Somebody, que não propõe novos arranjos de complexidade para o espaço, mas o coloca como dimensão importante na conversação entre dois atores. A ideia geral do Somebody, por certo ponto de vista, é de um “retrocesso”: em vez de entregar a mensagem desejada diretamente para o destinatário desejado, o aplicativo lista, próximos a este, pessoas disponíveis que possam vir a repassar, como intérprete ou intermediário, o recado desejado. Não se trata de o indivíduo B, perto de C, apenas mostrar a mensagem de A, mas também de reinterpretá-la, como um ator. Veja o exemplo no vídeo abaixo:

A proposta do Somebody, claro, é bastante experimental e não parece factível que venha a ser usada em larga escala – na verdade, os dois aplicativos lidam com dinâmicas bem distantes dos paradigmas da comunicação massiva. Sua criadora diz que a ideia por trás do funcionamento está menos relacionada ao telefone em si e mais aos aspectos de facilitação que ele pode trazer para as interações da “vida real”. Embora parta de uma dualidade entre real e irreal totalmente falaciosa, a experimentação propiciada pelo Somebody abarca diversas possibilidades no que diz respeito ao modo como duas pessoas distantes podem vir a tecer conversações em rede.

* * *

Além de viabilizar novos arranjos interacionais, o ponto de curiosidade dessas duas iniciativas que nos interessa é, cada qual à sua maneira, o estabelecimento de outras funções/atribuições para o espaço – que sai de um papel passivo, de meio, para um papel mais ativo, de ator. No primeiro caso, a localização é o código de leitura, quase como um palimpsesto, e o espaço é o “suporte” da escrita (mas reconheçamos a limitação dessas metáforas; a perspectiva do olhar é completamente outra), além de incorporar significados muito próprios para indivíduos e coletivos (imagina-se que as mensagens não seriam a esmo, em qualquer lugar, mas atribuídas a localizações que façam sentido a quem irá receber os rastros digitais). Já em relação ao Somebody, o espaço vem à tona por meio da proximidade física, e uma vez mais a mensagem terá que ser percorrida (e performada) até chegar no ponto final – e, claro, o dispositivo irá mediar a proximidade e a possibilidade do encontro. Ora, para o que parecia apenas um elemento alocador de contextos e situações (como em Goffman e Giddens) e sem grandes interferências quanto ao desenrolar das interações, o espaço e sua referencialidade codificada tem sido tratado como um ator trazido às luzes principais do palco.

Referências

  • Couldry, N. Media Rituals: A critical approach. London: Routledge, 2003.
  • Giddens, A. A constituição da sociedade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
  • Goffman, E. Comportamento em lugares públicos: Notas sobre a organização social dos ajuntamentos. Petrópolis: Vozes, 2010.
  • Goffman, E. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1999.
  • Lefebvre, H. The production of space. Malden: Blackwell, 1991.
  • Meyrowitz, J. No sense of place: The impact of electronic media on social behavior. New York, Oxfor: Oxford Univesity Press, 1985.

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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