O ciberespaço 17 anos depois

Ainda vivendo a utopia de que o ciberespaço seria um novo lugar sem lei, sem controle e sem interesses comerciais, John Perry Barlow escreveu, em 1996,  “A Declaration of the Independence of the Cyberspace” um texto que enaltece o sentimento libertário que envolvia a ainda modesta comunidade de internautas naquela época.

“Governos do Mundo Industrial, vocês gigantes aborrecidos de carne e aço, eu venho do espaço cibernético, o novo lar da Mente. Em nome do futuro, eu peço a vocês do passado que nos deixem em paz. Vocês não são bem vindos entre nós. Vocês não têm a independência que nos une…”

Relendo há pouco o texto citado, ficou claro que Barlow tratava a internet como um território à parte. Um lugar virgem, despovoado tal qual foi a América quando descoberta por Colombo. Em sua opinião, o ciberespaço estava pronto para povoar uma civilização unida, livre e bem diferente da civilização de carne e osso que conhecemos tanto e tão bem.

“…Eu declaro o espaço social global aquele que estamos construindo para ser naturalmente independente das tiranias que vocês [Governos do Mundo Industrial] tentam nos impor. Vocês não têm direito moral de nos impor regras, nem ao menos de possuir métodos de coação a que tenhamos real razão para temer…”

Há anos adormecido lá no fundo da minha memória, o texto voltou a ser lembrado por mim com os acontecimentos publicados na imprensa e tão discutidos e difundidos por meio dos Sites de Redes Sociais, nos últimos dias de 2012. Hoje, apesar da sua importância histórica, a declaração soa como piada.

O tal ciberespaço, outrora sem dono, foi apropriado pelos governos, pela indústria e também pelas pessoas, muitas delas ainda agindo e pensando que o Barlow tem toda razão.  Apesar de alguns usuários mais espertos terem consciência sobre questões que envolvem controle, vigilância e privacidade, nenhuma informação dada a usuários desavisados foi mais elucidativa do que a notícia de que o Instagram, comprado por U$ 1 bilhão pelo Facebook, passaria a comercializar todo o conteúdo que os usuários estavam depositando em seus servidores sem autorização prévia. A partir de 16 de janeiro você poderia, por exemplo, se deparar com a foto de seu filho em um outdoor ou da sua esposa em um anúncio de bordel. Aos fotógrafos e “modelos” nada caberia. Nem mesmo a rejeição.  Usuários do mundo inteiro se rebelaram e começaram a deletar as suas contas do aplicativo. Os gestores da ferramenta voltaram atrás e argumentaram que não foi isso que eles quiseram dizer. Ficou o dito pelo não dito  e o episódio serviu para deixar um pouco mais claro os propósitos dos controladores dos sites de redes sociais e por que não dizer da própria internet?!

“…Seus conceitos legais sobre propriedade, expressão, identidade, movimento e contexto não se aplicam a nós. Eles são baseados na matéria. Não há nenhuma matéria aqui. Nossas identidades não possuem corpos, então, diferente de vocês, não podemos obter ordem por meio da coerção física….”

O que talvez tenha demorado um pouco a se configurar é que, diferentemente de um território materializado, na web (denominada de) 2.0 o que importa são exatamente os bens imateriais, são as identidades e todos os elementos que a ajudam a configurá-las. É como esse material que o Facebook, por exemplo, ganha dinheiro.

Isso não significa dizer que não haja também briga por espaço ou delineação de novas fronteiras tal como ficou claro na nova disputa entre o Twitter e, mais uma vez, o Instagram.  A convergência parece interessar apenas até quando não é prejudicial aos negócios.

“…Criaremos a civilização da Mente no espaço cibernético. Ela poderá ser mais humana e justa do que o mundo que vocês governantes fizeram antes.”

Mudam-se os interesses, os produtos e as formas. Os propósitos, pelo visto, ainda não.

Maria Alessandra Calheira

Maria Alessandra Calheira é mestre em Comunicação e Culturas Contemporâneas, na linha de Cibercultura, pela UFBA; Especialista em Marketing pela ESPM e Bacharel em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda pela UCSal. Atua como Coordenadora do Centro de Carreiras do Centro Universitário Jorge Amado. Faz parte do corpo docente dos cursos de graduação e pós-graduação desta mesma instituição onde leciona disciplinas voltadas a comunicação, criação, marketing e planejamento de carreira. Atuou 12 anos como Redatora Publicitária quando foi laureada com um Leão no Festival Internacional de Cannes, com uma medalha de prata no Clube de Criação de São Paulo, Top de Marketing da ADVB, entre outros. A sua Pesquisa tem tema Capital Social e os Aspectos Comunicacionais entre Organizações e Pessoas na ferramenta Twitter.

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2 comments to “O ciberespaço 17 anos depois”
  1. discordo quando você coloca os controladores das redes sociais da internet como controladores da própria internet. não é possível dizermos que ninguém controla a internet, nem mesmo governos nacionais. o instagram é meramente uma empresa com fins lucrativos, agora afilhada ao facebook, que mudou seus termos do contrato para algo que desagradou seus usuários, mas o instagram é um dos serviços de hospedagem de imagens e fotos na internet. o flickr, do yahoo, faz um serviço similar e pode ser visto como tecnicamente superior – o que não cabe a discussão. e mesmo se você não quiser utilizar nenhum serviço de hospedagem especial para imagens, você pode ter seu próprio espaço na internet e enviar fotos via FTP, http, p2p, etc.
    quanto a internet ser a terra da liberdade suprema e da ausência completa de leis, não entendo o por quê de tal conjectura ser hoje motivo de piada. sites como 4chan, que mantém uma estrutura onde seus usuários mantêm-se completamente anônimos são exemplos da ausência de leis na internet aberta. foi lá que nasceu o movimento anonymous de hackers que derrubaram vários sites de governos no mundo inteiro, além de divulgarem informações pessoais de políticos e personalidades. na internet fechada, ou a rede TOR, há ainda mais anonimato e por consequência, ainda mais ausência de leis. conteúdos como divulgação de informações confidenciais de empresa, venda de drogas, de armas, prostituição infantil são comuns em seus fóruns de discussão. sugiro uma pesquisa mais diligente nesses tópicos

    • Olá Rafael,

      Obrigada por seu comentário e considerações. Entendo perfeitamente o que você pontuou e concordo em alguns aspectos. Quando indaguei sobre a possibilidade dos gestores dos sites de redes sociais controlarem a própria internet, me referi ao fato destes sites hoje aglomerarem bilhares de pessoas e, de certa forma, determinarem por meio das suas estruturas, como elas devem ou não interagir. Talvez, realmente, pudesse ter deixado o meu argumento mais claro no texto. Particularmente, acredito que brigas (como as que acompanhamos por meio da imprensa) de grandes players da tecnologia como Google, Apple, Sumsung, Microsoft sem falar no próprio Facebook sirvam exatamente para determinar quem domina o quê e de que forma. Esse “controle”, em parte, é feito por meio do próprio conteúdo que o usuário deposita, nos sistemas de informações e cruzamento de dados e, talvez, esteja assegurado pela ingorância da maior parte dos seus usuários.

      É claro que reconheço e compreendo a existência de movimentos bem sucedidos contrários a tudo isso. Eles existem na web da mesma forma que existem em qualquer grande núcleo social. Não tenho dados, mas, de forma particular, creio que sejam minoria dentro de um universo tão representativo. Por isso, apesar do respeito pelo texto histórico (reafirmo), sinto uma esperança ingenua nas palavras de Barlow. Não rio dele, nem do seu sentimento, nem muito menos da sua causa. Rio apenas do contraste entre o que acreditou-se um dia e do que hoje a internet é de fato. Pelo menos dentro daquilo que observo e acredito.

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