O bom artista copia, o grande artista rouba

Numa grande coincidência, estava assistindo hoje Piratas do Vale do Silício (1999) e leio agora a notícia que será lançado no Brasil o livro Os Heróis da revolução, que tem a mesma temática: um relato da vida de personagens fundamentais para o entendimento do contexto contemporâneo das interações mediada por computador. São aqueles que assumiram riscos, quebraram regras e influenciaram acima de tudo práticas sociais através da implantação da computação pessoal.

No que consta na sinopse da obra, Os Heróis da revolução passa pela invenção dos computadores pessoais e pelo surgimento dos games até a era das mídias sociais, com Bill Gates, Steve Jobs, Steve Wozniac e Mark Zuckerberg como protagonistas. O autor, Steven Levy – editor sênior da revista Wired e autor de seis livros –, procura abordar como a mente desses programadores, inventores e pesquisadores, a maioria deles jovens em laboratórios universitários ou em suas residências, encontraram soluções inusitadas e nada ortodoxas para os problemas da computação.

Daí para o que temos contato atualmente – para o que é tão mundano, natural em nossa vivência cotidiana – a tecnologia deu grandes saltos, um após o outro, atuando em diversas áreas: profissional, pessoal, social e governamental.

Importante perceber como a história desses personagens sempre esteve envolvida não apenas na intenção em mudar conceitos de uso da computação, mas na capacidade deles se apoderarem de algo para desenvolver uma nova tecnologia – isto pressupõe copiar a tecnologia de empresas concorrentes, até se infiltrando para conseguir certas informações restritas. Dessa forma, o tal heroísmo deve ser menos romantizado, menos purificado, visto que a história se mistura entre mocinhos e vilões: novos softwares e hardwares foram desenvolvidos em detrimento de alguns agentes que ficaram esquecidos por essa prática de copiar projetos em desenvolvimento.

Mas o pioneirismo ficou garantido aos que primeiro colocaram seus produtos no mercado. Como disse Picasso – boa referência do diretor Martyn Burke para construção do seu argumento sobre essa prática – “O bom artista copia, o grande artista rouba ideias”. Nesse ritmo, Jobs e Wozniac roubaram/copiaram as ideias da Xerox, e Gates deu o troco na Apple.

Ao mesmo tempo que gerou inúmeros conflitos entre os jovens empresários, a arte de copiar fez com que a tecnologia avançasse em uma velocidade ainda maior, pois possibilitou que houvesse um mal desejado compartilhamento de informações úteis entre programadores da época. Porém, quando voltarmos a falar do assunto daqui a um bom tempo, o suficiente para fazer parte dos livros de história escolares, os fins justificarão os meios, ou será realmente lembrado que façamos certas ressalvas? Afinal, é melhor ser pirata do que entrar para a marinha…

Vitor Braga

Jornalista, professor da Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia.

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