Novas Relações, Novos “Eus”

BAYM, NANCY. New Relationship, New Selves. In:Personal Connections in the Digital Age. Malden. Polity Press, 2010.

Nancy Baym inicia o capítulo com o exemplo de Tom, seu colega de mestrado. Em um primeiro caso, Tom assume uma identidade falsa para fazer uma pesquisa em um serviço de bate-papo. No segundo caso, ele se apresenta com sua verdadeira identidade e se envolve com uma mulher que viria a ser sua esposa. A história de Tom engloba tanto o potencial utópico da internet nas nossas relações, quanto as nossas preocupações comuns sobre confiança e perigos ao conhecermos pessoas online.

“A internet tem sido descrita como capaz de criar vínculos e conexões legítimas entre pessoas, mas também tem sido acusada de levar as pessoas a mentir sobre si mesmas, vitimizar mulheres e crianças, ou afastar as pessoas das relações que elas deveriam alimentar com suas famílias” p.100

Este capítulo foco no contato inicial com pessoas desconhecidas na internet.  Primeiro, a autora trata das maneiras como as pessoas formam relações online, depois discute questões relacionadas a identidade, refletindo sobre o força das pessoas de moldar suas auto-apresentações e se elas estão mais inclinadas a ser honestas ou falsas. Finalmente, ela retorna para a discussão da autenticidade dessas novas relações.

Novas relações online

A internet possibilita a construção de relações que transcendem o espaço físico. Compartilhar a mesma localidade sempre foi um pré-requisito para conhecer pessoas. A possibilidade de novas relações se ampliou significativamente. Nancy Baym cita diversos estudos onde são descritos a formação de novas relações através da net. No caso de seu estudo, r.a.t.s., as pessoas construíam relações durante suas conversas sobre novelas.

O autora Haythornthwaite cunhou o termo laço latente (nó latente) para se referir as relações dentro de um círculo social que são estruturalmente possibilitadas, mas que ainda não foram ativadas. Ao tornar os amigos dos amigos visíveis, por exemplo, e em alguns casos, oferencendo sugestões automáticas de laços latentes, a arquitetura das redes sociais facilita a conversão de laços latentes em relacionamentos.

Independetemente do meio, as pessoas estão intrínsecamente motivadas a reduzir suas incertezas sobre outros e a encontrar afinidades com elas (Walther, 1992). Segundo Walther, quanto mais demorada for a interação, ou quanto maiores forem as expectativas dos participantes em torno da interação continuada, mais verdadeira ela será (Walther 1994).

Na internet, nós tendemos a conhecer pessoas que compartilham interesses semelhantes em vez de pessoas que estão no mesmo espaço físico. Isso resulta na formação de relações que de outra maneira não existiriam. A internet reduz o risco de comunicação. O anonimato das interações online torna as pessoas mais dispostas a disponibilizar informações sobre si e formar novas relações. Ao substituir interesses e outros fatores pelo espaço compartilhado, as relações mediadas desafiam muito do que tomamos como dado na formação de relações humanas ao longo da história. 103

As relações mediadas também desafiam o nosso entendimento convencional sobre a construção de relações porque costumamos no relacionar com pessoas através de sinais não-verbais. Uma forma de driblar essa carência é através do uso, em meios baseados em textos, de recursos textuais que expressam emoção. Emoctions, pontuação e letras maiúsculas. Além de fotos e vídeos em plataformas multimedia.

Outra descomforto social na formação de relações online é que essas relações são comumente entre pessoas que não teriam tantas chances de se conhecer e formar relações offline. As novas mídias tornam mais fáceis a formação de “relações puras”, em que a própria relação é o único ganho, em vez de servir como meio de manter uma ordem social. 104

Amizades entre homens e mulheres são mais comuns em contextos online. A autora cita vários estudos onde isto é constatado. Em um estudo sobre MOOs, Parks & Roberts (1990) concluíram que amizades entre pessoas de gêneros diferentes são mais comuns em MOOs do que face a face. Relações que transcendem barreiras de idade também parecem ser mais comuns na net.

Identidade

Muitos teóricos perceberam que as mídias digitais, especialmente a internet, pertubam a noção, existente em várias culturas, na qual cada um tem direito a um “self”. As mídias digitais parecem separar nossos “eus” dos nossos corpos, levando a identidades desimcorporadas que só existem através de ações e de palavras. Isso abre espaço para possibilidades de exploração e fraudes. Ainda assim, diversos estudos tem observado que, mesmo em ambientes propícios a uma auto-apresentação fantasiosa, a maioria das pessoas não tendem a criar identidades completamente fraudulentas de si.105

A multiplicidade de identidades é potencializada pela internet mas não é nada novo. Teóricos que discutem identidade, como Goffman (1959) há muito argumentam que os “eus” assumem diversos papéis na vida cotidiana e não pode ser entendido adequadamente como um eu unificado. Teóricos contemporâneos tem visto o “self”vcomo flexível e múltiplo, assumindo diferentes personagens em diferentes contextos.

Finkenauer, Engles, Meeus,e Oosterwegel, por exemplo, definiram identidade como a representação de “um aspecto do eu que é acessível  e saliente em um contexto particular e que interagem com o ambiente” . Turkle se utiliza de uma metáfora das janelas para falar sobre identidades contemporâneas. “A pratica cotidiana  caracterizada pelas janelas é aquela de um eu descentrado que existe em diferentes mundos, que assume vários papéis ao mesmo tempo”. 107

Pistas e competências

Assim como nas relações face a face, nos buscamos gerenciar as impressões que as pessoas tem de nós durantes as interações online. “A nossa habilidade de construir uma identidade online, seja autêntica ou manipuladora é limitada e viabilizada pela ferramentas de comunicação, suas possibilidades, a plataforma disponibiliza um recurso e nós o gerenciamos estrategicamente. 108

Identidade pessoal
Diferentes mecanismo para a construção de identidade de acordo com as plataformas. Em MOO’s através de fantasias, armas e níveis de habilidade. No caso de mídias textuais, o uso da linguagem escrita é a mais importante e poderosa força na formação de  impressões quando comparado com interações face a face. Seu gerenciamento estratégico é essencial ao moldar as impressões que os outros tem de nós. Uma das características de sites de redes sociais, por exemplo, é que elas permitem auto-apresentações através de categorias pré-determinadas de construção de identidades. Algo que pode ser chamado de categorização do “eu”.

Identidade Social

Mesmo as identidades online estão referenciadas em identidades de terceiros. Identidades individuais estão imersas em identidades sociais. Nós construímos auto-representações ao nos conectar com outros. Os outros também contribuem para uma base de dados online de informações nossas.

Honestidade

Embora persista uma noção de que as pessoas não podem ser dignas de confiança online, é difícil criar um “self” online que se afaste muito de suas identidades encorpadas. Novas pessoas são contactadas principalmente através de laços latentes e portanto são passíveis de maior confiança. Em geral, a ideia que anonimato promove a mentira não possui evidências empíricas. 115 A autora cita pesquisas em que há altos níveis de informações pessoais honestas. É verdade que poucas pistas sociais torna a mentira mais fácil, mas a separação no tempo e no espaço também removem pressões sociais para se mentir. Um sendo de segurança pode estimular informações honestas. 116

A maior parte das mentiras contadas online são manipulações estratégicas de pequenas. Em geral, as ideias que são importantes para relações tradicionais, como confiança, honestidade e comprometimento também são online. 117

Assim como pistas sociais reduzidas  e a distância podem encorajar alguns a ser mais honestos online removendo o risco social ao revelar verdades, o design de uma tecnologia e suas possibilidades também podem estimular mentiras.

Autenticidade e relacionamentos

Em ambientes mediadas, onde há tantos espaços em branco para preencher, as pessoas fazem maior uso de pequenas pistas do que face a face.

Nós também deixamos escapar muitas pistas sem intenção (Goffman, 1959) 119. Dificuldades com ortografia, por exemplo, que seriam pouco relevantes em encontros face-a face tornam-se altamente significativas na construção de identidades em mídias textuais.

Nós sempre formamos impressões que transcendem as nossas intenções de auto-representação. Em ambientes onde as pistas sociais são reduzidas, pequenas informações sobre nós, podem se tornar bastante influentes.

Lineu Oliveira

Licenciado em História (FFCH/UFBA), especialista em Relações Internacionais (EAD/UFBA) e mestrando pelo Programa de Comunicação e Cultura Contemporâneas (FACOM/UFBA). Desenvolvendo pesquisa sobre compartilhamento de filmes em comunidades privadas BitTorrent na linha de pesquisa em Cibercultura. Bolsista Capes e membro do GITS.

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