NOTAS SOBRE INFÂNCIA E TECNOLOGIAS DIGITAIS: censura e participação social

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Uma das principais inquietações do grupo social adulto sobre o bem-estar e desenvolvimento saudável das crianças é sua relação cada vez mais próxima com as tecnologias digitais, amplamente apropriadas como contextos lúdicos. Tais inquietações são colocadas de maneira dicotômica e contraditória, sobretudo no que concerne aos potenciais benefícios/prejuízos ao desenvolvimento infantil que seu uso contínuo pode vir a acarretar. As opiniões se dividem entre aqueles que defendem as tecnologias digitais como ferramentas do futuro que irão preparar as crianças para as profissões da nova era digital e aqueles que argumentam sobre os perigos tidos como inerentes a este contexto, tais como o sedentarismo, o empobrecimento da rede social (Marsh, 2010), o pretenso poder viciante dos jogos eletrônicos ou a possível influência para o surgimento de comportamentos violentos a partir dos conteúdos dos mesmos (Narine & Grimes, 2009).

Estas controvérsias preocupam o público leigo que se depara com um universo de opiniões “especializadas”, altamente difundidas pela grande mídia e pelo discurso hegemônico de áreas dedicadas ao estudo da infância como a educação, a sociologia da infância e a psicologia do desenvolvimento. Argumentos estreitos e representações exageradas sobre a interação da criança com as tecnologias digitais (Narine & Grimes, 2009) fornecem poucos elementos e evidências empíricas que possam esclarecer como este fenômeno ocorre a partir da perspectiva dos atores envolvidos – as próprias crianças. Assistimos, com frequência, a uma enxurrada de certezas, prognósticos negativos e previsões com escassas aberturas para novos questionamentos. Desta forma, as iniciativas ainda bastante recentes de investigação das relações entre crianças e tecnologias digitais costumam encontrar uma série de barreiras ao propor novas formas de se olhar este fenômeno.

Seja de defesa ou rechaço, a série de opiniões e inquietações que envolvem esta temática ilustra o tradicional hábito de pensar as crianças como seres passivos, destinatários da ação dos adultos, sem vontade, sem opinião e sem voz válida (Sarmento, 2004, 2005). Na perspectiva sociológica tradicional, as crianças são reconhecidamente seres que não trabalham, não têm acesso direto ao mercado, não se casam, não votam, não são eleitas, não tomam decisões pessoais e coletivas de relevância, não são puníveis por crimes (Sarmento, 2005). Dessa forma, o grupo social da infância não é reconhecido a partir de um conjunto de características que o autonomizam pela diferença de suas formas de compreensão e de ação no mundo, nem tampouco pela especificidade das condições materiais de existência das populações mais jovens, mas sim pelas marcas de uma ausência múltipla e diversificada, o que Sarmento (2004, 2005) denominou ‘negatividade constituinte’.

Os critérios utilizados na definição de cidadania e sociabilidade abrangem ações restritas ao mundo do adulto – versão humana tradicionalmente considerada pronta, terminada, em termos de desenvolvimento cognitivo e psicológico – relegando ao grupo infantil a condição de não-adulto, portanto formado por seres inacabados, cognitivamente incompetentes e inaptos à participação social e política. Consequentemente, “ser social” torna-se um conceito que se aproxima de “ser adulto” e nesse sentido, a negatividade que constitui o conceito de infância restringe qualquer possibilidade de protagonismo na co-construção da sua própria cultura. Resguardada por argumentos jurídicos de vulnerabilidade estrutural e necessidade de proteção legal e tutela por parte dos adultos, a criança é tradicionalmente excluída da participação social pela sua condição de não-ser. Esta exclusão abrange as mais diversas esferas da sociedade, e num momento cultural como este, marcado pela presença massiva das tecnologias digitais no cotidiano, as restrições e censuras estabelecidas às crianças se ampliam para as suas possibilidades de participação nas redes sociais digitais, consideradas inadequadas ao público infantil por uma série de argumentos protetivos, entre eles, o tipo de informação circulada.

Se levarmos em consideração que as redes sociais digitais se constituem como ambiências de circulação, de troca de informações e de interações sociais diversas, e que as crianças – a despeito da consideração adulta sobre sua inabilidade social – são seres ativos, políticos e aptos à participação social (Sarmento, 2005), não é de se estranhar que estas encontrem meios próprios de contornar as regras de censura que as impedem adentrar estes locais considerados eminentemente adultos e assim reivindicar sua participação social, ainda que clandestinamente. Neste sentido, é crescente a quantidade de crianças que possuem perfis em redes sociais digitais, com ou sem anuência dos seus pais, utilizando falsas datas de nascimento e estratégias diversas de trânsito nestas ambiências. Isto abre espaço para uma ampla discussão sobre participação social da infância, censura, controle e poder sobre a informação.

Pesquisas recentes abordaram as estratégias clandestinas de participação social utilizadas pelos grupos infantis por meio da inserção em redes sociais digitais e outras ambiências consideradas restritas ao universo adulto através das micro-ações de “enganar” (Barra & Sarmento, 2008) e de “burlar” (Becker, 2013). Elementos extremamente importantes da cultura de pares, estas ações englobam as estratégias usadas pelas crianças para desafiar e burlar as regras estabelecidas com vistas a atender seus interesses lúdicos, entre elas a alteração da data de nascimento para a produção de perfis e participação em redes sociais e emails, a utilização de códigos linguísticos de interação compartilhados entre os pares com vistas a despistar a fiscalização adulta sobre o conteúdo circulado nas conversas e as estratégias compartilhadas para acessar estas ambiências desviando-se da censura direta, como o acesso na casa de um amigo e/ou o apagamento do histórico de navegação (Becker, 2013).

Estas ações de burlar e desafiar a autoridade adulta são descritas por Corsaro e Eder (2001) como um dos elementos principais da cultura de pares, através do qual as crianças adquirem controle, ainda que relativo, sobre suas próprias vidas, diferenciando-se do grupo social adulto. Segundo estes autores, visando atender seus interesses, as crianças tendem a produzir um amplo conjunto de rotinas e práticas inovadoras que tendem indiretamente a desafiar e contornar a autoridade adulta imposta. Tais subterfúgios, denominados por Corsaro e Eder (2011) como ‘ajustes secundários’, costumam ser usados pelas crianças desde muito cedo para atender seus interesses próprios sem a necessidade de entrar em confronto direto com a autoridade adulta, e portanto, evitando o perigo da punição.

A ação enganar/burlar remete ainda a uma discussão de ordem sociopolítica. Refletindo sobre o papel das mídias eletrônicas na infância, Buckingham (2000) adverte que a existência de censura a estes ambientes faz parte das estratégias adultas institucionalizadas direcionadas à exclusão da criança da participação social no mundo considerado adulto. Para este autor, o que preocupa de fato são as crianças que ‘cruzam as fronteiras’ que separam adultos e crianças e o acesso à informação adulta, o qual seria considerado um potencial fator de perigo. Nesta perspectiva, estes comportamentos precoces intensificariam a patrulhada linha divisória entre adultos e crianças no lar, na escola e na ampla arena da cultura pública.

Este processo, segundo Buckingham (2000) envolve a exclusão das crianças daquilo que é considerado o mundo adulto, sobretudo nos campos da violência e da sexualidade, da economia e da política. Com isto, as tecnologias digitais amplificariam as inquietações adultas e incendiariam os discursos sobre censura e necessidade de proteção, sobretudo devido ao fato delas representarem uma das fontes primárias de conhecimento sobre tais assuntos e serem consideradas, portanto, responsáveis diretas pelo crescente apagamento das fronteiras entre infância e idade adulta, gerando um certo abalo na autoridade destes últimos. A equação acesso/controle da informação sob o argumento protetivo parece estar mais presente quanto mais diluída nos discursos dedicados a refletir sobre as preocupações que as relações entre crianças e tecnologias digitais podem suscitar ao seu desenvolvimento. Buckingham (2000) acredita que tanto em relação às mídias como aos outros campos sociais, os dilemas fundamentais estão relacionados diretamente com acesso e controle da informação.

Ao criarem estratégias para burlar as regras de censura estabelecidas, as crianças tornam possível sua participação nos espaços sociais que os adultos frequentam e que a princípio lhes são proibidos. Nesse sentido, cabe-nos refletir sobre estas estratégias infantis de manejo de informação e participação na sociedade, que tem se configurado de uma maneira cada vez mais abrangente pelas interações estabelecidas nas ambiências digitais. A este respeito, Sarmento (2005) ressalta que as formas de participação social das crianças e adolescentes na cultura contemporânea se concretizam em boa parte por meio das tecnologias de informação e comunicação. Mensagens por celular, sites de conversação na internet, redes sociais digitais, são algumas das tecnologias citadas pelo autor, que segundo ele se configuram como processos de construção de uma vontade coletiva organizada num sentido lúdico e político.

Buckingham (2000) chama atenção para o fato das mídias eletrônicas inaugurarem uma era em que a possibilidade de controle e censura absoluta tendem ao seu desaparecimento, embora outras formas de controle e censura possam emergir. E apesar de considerar que a ‘liberação total do controle’ se caracterize por um tipo de romantismo muito parecido com os argumentos radicalmente protecionistas, este autor entende que as tecnologias digitais têm um papel cada vez mais significativo na definição das experiências culturais da infância contemporânea e, dessa forma, torna-se infértil a tentativa de exclusão das crianças dessas mídias e do que elas representam, ou o confinamento das crianças a materiais que os adultos julguem bom para elas. A tentativa de proteger o grupo infantil restringindo o acesso às mídias estaria assim destinada ao fracasso. Ao contrário, seria preciso encontrar formas de preparar as crianças para lidar com essas experiências, fomentando suas participações efetivas na sociedade e ao fazê-las, parar de defini-las simplesmente em termos do que lhes falta, mas de encontrar modos de mobilização das suas vozes e de suas opiniões ativas em decisões políticas coletivas que lhes dizem respeito diretamente.

Não existem, no entanto, fórmulas prontas para lidar com este impasse gerado entre a necessidade de proteção da infância e sua exclusão absoluta da vida social. O que tem ficado evidente através da ação enganar/burlar é o papel ativo das crianças como agentes sociais, por reivindicarem participação social por meio destas no acesso às redes sociais digitais, ainda que de forma clandestina ou disfarçada. Este fato demonstra que as estratégias adultas de controle e censura utilizadas não estão sendo de fato efetivas e torna-se urgente uma profunda revisão do que se entende por proteção ativa das crianças a aspectos nocivos ao seu desenvolvimento em detrimento da exclusão pela censura, da necessidade de participação social e da equação acesso/controle de informação.

REFERÊNCIAS

BARRA, S. M., & SARMENTO, M. J. Os saberes das crianças e as interações na rede. ZeroSeis, periódicos UFSC. ISSN 1980 – 4512, 2008.

BECKER, B. L. Brincando na Web: atividades lúdicas desenvolvidas por crianças de cinco a 12 anos na internet. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal da Bahia/UBFA, Salvador, BA, 2013.

BUCKINGHAM, D. Crescer na Era das Mídias Digitais. São Paulo: Edições Loyola, 2000.

MARSH, J. Young children?s play in online virtual worlds. Journal of Early Childhood Research, 8 (1), 23-39, 2010.Doi: 10.1177/1476718X09345406.

NARINE, N., & GRIMES, S. M. The Turbulent Rise of the “Child Gamer”: Public Fears and Corporate Promises in Cinematic and Promotional Depictions of Children’s Digital Play. Communication, Culture & Critique, 2(3), 319-338, 2009. Doi:10.1111/j.1753-9137.2009.01040.

SARMENTO, M. J. As culturas da infância nas encruzilhadas da segunda modernidade. In: Sarmento, M. J.; Cerizara, A. B. Crianças e miúdos: perspectivas sócio pedagógicas da infância e da educação. Porto: ASA., 2004.

SARMENTO, M. J. Gerações e Alteridade: interrogações a partir da sociologia da infância. In. Educ. Soc., Campinas, vol. 26, n. 91, p. 361-378., 2005.

Bianca Becker

Bianca Becker é psicóloga. Doutoranda e Mestre em Psicologia do Desenvolvimento, linha de pesquisa Infância e Contextos Culturais, pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia – PPGPSI, da Universidade Federal da Bahia/UFBA. Membro do Grupo de Pesquisa em Interações Sociais, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS) e do Grupo de Pesquisa em Brincadeiras e Contextos Culturais (PPGPSI/UFBA). Desenvolve pesquisa sobre a brincadeira como fenômeno do desenvolvimento e prática/produto cultural em seus diversos contextos; com foco especial às relações lúdicas de crianças e adolescentes com as tecnologias digitais.

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