Notas sobre as conversações em dispositivos comunicacionais móveis

por Marcel Ayres

A conversação é considerada, para alguns pesquisadores, como uma das atividades mais básicas da relação humana (SACKS, SCHEGLOFF e JEFERSON, 1974). Ela pode ser compreendida como um contexto compartilhado no qual os participantes negociam e legitimam os enunciados uns dos outros em um fluxo de interações. Para Berger e Luckman (1966), o ato de conversar pode ser entendido como um veículo importante nas sociedades, pois contribui para os processos de construção de identidade, do conhecimento e, de forma mais ampla, para a construção da realidade. Entretanto, assim como outros fenômenos sociais, a conversação não está alheia aos tensionamentos provenientes de fatores culturais, situacionais e materiais que podem, em maior ou menor grau, contribuir para a emergência de rupturas e continuidades.

No cenário atual, permeado por um panorama crescente de tecnologias da informação e da comunicação (TICs), as conversas não podem ser compreendidas apenas a partir das trocas sociais face a face em presença física imediata. A mediação tecnológica não é uma novidade nas interações humanas, contudo, a mobilidade proporcionada pelos aparelhos celulares e smartphones estão expandindo essas relações e, consequentemente, a conversação no tempo-espaço – seja por meio de ligações, mensagens de texto, áudio, fotos, vídeos ao vivo, emojis, as conversas estão, a cada dia, conquistando novos terrenos para (co)existir.

Entre os dispositivos e aplicativos usados na atualidade, destacamos os Mobile Instant Messaging (MIM), como por exemplo o WhatsApp e o Facebook Messenger, que figuram entre os aplicativos mais utilizados para conversações em dispositivos móveis no mundo. Segundo dados divulgados pelo Facebook, em fevereiro de 2018, o WhatsApp alcançou o marco de 1.5 bilhões de usuários ativos no mês e cerca de 60 bilhões de mensagens enviadas todos os dias. No Brasil, segundo dados do IBOPE, o aplicativo é o mais utilizado no país. Com base neste uso crescente das tecnologias digitais para a realização de conversações, diferentes campos do conhecimento (exemplos: comunicação, psicologia, sociologia, direito, pedagogia, entre outros) estão ampliando sua atenção e esforços no desenvolvimento de pesquisas quantitativas e qualitativas que permitam compreender os usos e apropriações das TICs móveis no cotidiano.

Em estudos recentes produzidos por pesquisadores do GITS/UFBA (AYRES, 2016; AYRES, RIBEIRO, 2015; 2018; SOBRINHO, AYRES, RIBEIRO, 2018), buscou-se a compreensão de diferentes facetas das interações mediadas por dispositivos móveis a partir da realização entrevistas e análises qualitativas, com destaque para a observação de fenômenos como: as Representações de Si e o Gerenciamento de Impressões (GOFFMAN, 1985) no WhatsApp; a percepção da privacidade e seus desdobramentos nas performances interacionais via dispositivos móveis; e as percepções em torno da Presença Social nas interações mediadas por aparelhos celulares e smartphones.

Abaixo, fizemos notas em torno de alguns dos achados identificados nestes estudos e que serão desenvolvidos, posteriormente, em novas pesquisas do grupo:

1. Percebemos que, a depender do dispositivo e/ou aplicativo utilizado pelo indivíduo, as apropriações dos recursos existentes no aparato no momento da conversação estão associadas não apenas ao conhecimento do seu funcionamento técnico, mas variam, também, com base em aspectos como: a situação social e a narrativa que desejam construir sobre si. Em alguns casos analisados, observou-se a ocorrência de uma multiplicidade de regiões interacionais, nas quais os usuários passam a gerenciar suas representações a fim de estabelecer uma coerência expressiva para diferentes plateias.

2. Outro ponto identificado foi um tensionamento entre a acessbilidade dos interlocutores nos dispositivos e aplicativos móveis e a disponibilidade social para conversações. Embora os usuários levantem como pontos positivos aspectos como fácil acesso e rapidez na hora de contatar outras pessoas, paralelamente, apontam como aspectos negativos a dificuldade em gerir a demanda constante de interações e as expectativas de feedbacks.

3. Observamos, também, a predileção pelo uso da modalidade textual nas interações via dispositivos móveis entre os jovens. Entretanto, os relatos que analisamos em nossa amostra apontam dificuldades enfrentadas no cotidiano para interpretar os aspectos não-verbais da comunicação. Como consequências, verifica-se a ocorrência de ruídos comunicacionais, incoerências expressivas e de quebras de expectativas nos fluxos conversacionais.

4. Por fim, verificamos que a percepção que os indivíduos possuem do status de privacidade, em conjunto com a situação social, o espaço interacional (físico e digital), o dispositivo ou aplicativo utilizado e o grau de intimidade com outros interlocutores, destacam-se como fatores de influência no modo como se dá a performance dos indivíduos durante as conversações, assim como as respectivas escolhas que fazem dos recursos linguístico-comunicacionais no processo.

Referências

AYRES, M.; RIBEIRO, J. C.; A Representação de si em interações sociais mediadas por instant messengers: o caso WhatsApp. In: XXXVIII CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, Rio de Janeiro, 2015. Anais… Disponível em: <http://portalintercom.org.br/anais/nacional2015/resumos/R10-0273-1.pdf>. Acesso em: 01 out. 2017.

AYRES, M. Comunicação em aplicativos móveis de instant messengers: usos e apropriações do WhatsApp entre jovens universitários. 2016. 147 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Cultura Contemporâneas) – Universidade Federal da Bahia, Salvador-BA. Disponível em:< http://poscom.tempsite.ws/wp-content/uploads/2011/05/DISSERTAÇÃO_MESTRADO_MARCEL-AYRES-2.pdf>. Acesso em: 01 jun. 2018.

AYRES, M.; RIBEIRO, J. A dimensão informacional na regulação do contexto de privacidade em interações sociais mediadas por dispositivos móveis celulares. In: Revista Intercom – RBCC, São Paulo, v.41, n.1, p.81-97, jan./abr. 2018. Disponível em:< http://www.scielo.br/pdf/interc/v41n1/1809-5844-interc-41-1-0081.pdf>. Acesso em: 01 jun. 2018.

BERGER, P. L.; LUCKMANN, T. A Construção Social da Realidade: tratado de sociologia do conhecimento. Petropolis, RJ. Vozes, 1966.

GOFFMAN, E. A Representação do Eu na Vida Cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1985.

SACKS, H.; SCHEGLOFF, E.; & JEFFERSON, G. A simplest systematics for the organization of turn-talking for conversation. In: Language. No 50, p.696-735, 1974.

SOBRINHO, L. B.; AYRES, M; RIBEIRO, J. Percepções sobre a Presença Social em interações mediadas por dispositivos de comunicação móveis. In: Revista Intexto, Porto Alegre, UFRGS. Online First. 2018. Disponível em: < http://seer.ufrgs.br/index.php/intexto/article/view/77250/47833>. Acesso em: 01 jun. 2018.

Marcel Ayres

Doutorando na linha de Cibercultura na Póscom - UFBA. Especialista em Marketing pela FGV. Pesquisador no Grupo de Pequisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade [Gits - UFBA]. Consultor de Marketing Digital e Inteligência de Negócios na Hackel.

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