No Sense of Place – Capítulo 4

4 – Why Roles Change When Media Change

Meyrowitz parte da ideia básica de que nos dividimos em distintos grupos e que, para cada um desses grupos, há diversas formas de acesso situações ou sistemas de informação. Historicamente, crianças ou mulheres são exemplos desse tipo de segregação. Entretanto, o que surge como problema é a manifestação de novos arranjos sociais tendo em vista a utilização de novos meios de comunicação eletrônicos. Em suas palavras, “ao transformarem os tipos de situações aos quais cada categoria social tem acesso, os novos meios podem mudar nossas concepções de uma grama gama de papeis sociais” (p. 52).
Como não seria possível analisar todo e qualquer papel e suas mudanças individualmente, o capítulo baseia as discussões em 3 grandes “categorias de papeis”: a) papeis de afiliação (identidade de gru-po); b) papeis de transição (socialização); c) papeis de autoridade (hierarquia). Essa escolha se deu porque, para o autor, elas cobrem todas as linhas de ação da vida social. Além disso, o capítulo é uma continuidade do tópico anterior, quando se tratava de sistemas de informação, realizando uma ligação entre os recursos de cada papel e as expectativas em relação às informações que lhes cabem.
Papeis, então, são definidos em relação àquilo que as pessoas sabem uma em relação às outras. Desse modo, cada uma das três categorias é vista tendo por base três outras variáveis: a) acesso relativo à informação; b) distinções entre palco e bastidor; c) acesso a locações físicas. Explicando como cada um desses papeis dialogam com essas variáveis, Meyrowitz buscará mostrar “como a estrutura de papeis sociais é suscetível a mudanças decorrentes do uso de meios de comunicação” (p. 53), deline-ando os mecanismos ou processos pelos quais temos mudanças comportamentais decorrentes de transformações midiáticas.
Gruoup identity: shared but secret in-formation
“Our” experience vs. “Their” Experience
Um grupo é definido e mantido coeso pelas infor-mações que os membros possuem acerca dele e que não são compartilhadas para outros grupos. Há aí uma questão de manutenção de barreiras, por vezes simbólicas, e uma noção de alteridade (otherness). “For a group to be an ‘us,’ there must also be a ‘them.’
“Any commom experience, information, or role that separates two or more people from others will give ghem a sense of commom identity” (p. 54): as questões identitárias, assim, são relativas e móveis. Meyrowitz dá o exemplo de pessoas que nasceram em NY ou Georgia, as quais podem se enxergar, a depender do contexto, como pertencentes a um mesmo grupo (americanos, quando em solo estran-geiro) ou de grupos distintos (nascidos em lugares diferentes, quando em solo americano).
A identidade, assim, tem a ver não só com o que pensamos ser, mas também onde nós estamos e com quem. Essa é uma questão de definição de situação, portanto (p. 54). Um problema que surge com novos meios, assim, é a questão sobre “quem compartilha informação social e com quem” (p. 54).
Backstage Teaming
O compartilhamento de experiências também tem a ver com as distinções entre os palcos e os bastidores possíveis. “Members of the same group tend to share the same roles or to foster the same perfor-mance” (p. 55). Aqui temos a ideia de “equipe” (Goffman) a dar base para essa compreensão. Os membros de uma dada equipe se distinguem dos de outras a partir de suas perspectivas e das informa-ções que possuem daquela situação/performance.
Essa noção, vale lembrar, pode ser aplicada também àqueles grupos cujos membros não se encontram no mesmo palco ao mesmo tempo. A performance tocada pode ser relativa à uma conjuntura de comunidade, não apenas às situações presencialmente definidas. Meyrowitz dá o exemplo de padres, mas a mesma coisa pode ser pensada em relação aos médicos, já citados anteriormente.
Mais uma vez, a dificuldade atual é pensar na estabilidade de palcos e papeis tendo em vista o rearranjo das fronteiras informacionais entre os grupos e os indivíduos. “(…) a change in media may rearrange a society’s group identities by offering new ways of revealing or hiding the backstage behaviors of many groups” (p. 56).
“Our” Place vs. “Their” Place
Aqui o autor fala das implicações dos meios eletrô-nicos em relação às definições de identidade terri-torial. Uma vez que as identidades dos grupos li-dam com a formatação de territórios, é possível que haja dificuldades ou facilitações em relação às dis-tinções entre quem está dentro e quem está fora dos territórios. Em suas palavras, “os meios eletrônicos podem borrar as distinções prévias dos grupos ao permitirem fugas informacionais” (p. 56).
Role Transitions: Controlled Access to group information
We’ll tell you when you’re older
O processo de socialização, para o autor, é basica-mente um processo de aquisição de informações “compartilhadas mas especiais”, as quais fazem referência à definição do grupo. Aqui ele vai tratar, portanto, das estratégias utilizadas para manter in-formações guardadas e para se criar pontos de aces-so a elas.
A proteção do grupo entra como um elemento im-portante, e a socialização se torna um processo de meio-termo entre o “estar fora” e o “sentir-se dentro”. “To protect the group, socialization periods tend to become much more than ‘educational’ experiences” (p. 58), e espera-se que essa fase gere mu-danças nas pessoas em provação, e não que seja uma mera coletânea de dados.
Essa mudança é, em geral, tida como algo que se passa dentro do indivíduo, e não quanto às amarras, laços ou relações com o grupo em sim. Assim, as variáveis da situação que possibilitam a mudança continuam invisíveis . Se a mudança é tida como interna ao indivíduo, nenhuma alteração do que lhe é externo ou próprio do grupo é enxergado (o que nos leva à continuidade daquela teatralidade real).
Ele frisa que até os ritos relativos a fases biológicas podem não corresponder com as ocorrências que se dão conosco de fato, citando as diferenças entre as puberdades fisiológica e social (vann Gennep, p. 59).
Peeking behind the curtain
Novamente, trata-se da possibilidade de novos meios borrarem as fronteiras entre os grupos ou entre palco e bastidor. De fato, parte-se da premissa de que lentidão e dificuldade de socialização são pontos estratégicos de se lidar com o acesso às in-formações de status ou papeis privilegiados.
“Quanto mais um meio tende a permitir acesso a áreas de bastidor, mais fases lentas e sequenciadas de socialização vão existir” (p. 60). Ou seja, dá-se justamente o contrário do que podemos pensar em relação aos novos meios (pelo menos hipotetica-mente): quanto mais acessos a informações especí-ficas, mais estratégias criamos para dificultar o acesso a elas pelos out-groups.
Place and promotion
Diz respeito às estratégias espaciais/físicas para delimitar zonas de pertencimento ou acesso a in-formações específicas. O exemplo dado é do debut social, que indicava, tempos atrás, acessos a a prá-ticas antes indisponíveis à moça: antes disso, ela não poderia ter um encontro.
Tais mudanças são acompanhadas de outras altera-ções no comportamento ou nos elementos identifi-cadores. “The changes in status that come with physical relocation are reinforced and given physi-cal reality by new forms of dress, new names, new activities and games, new appropriate gestures and postures” (p. 60-1).
Quanto mais um meio promove a relação entre iso-lamento físico e informacional, mais há suporte da separação entre as pessoas em termos de posições sociais. Quanto mais um meio permite acesso a informações sem que determinados lugares sejam deixados (ou não sejam quebradas velhos laços), mais ele favorece a homogeneidade entre as fases de socialização.
Authority: Mystery and Mystification
Hierarquia e sua manutenção tem muito a ver com os padrões de comunicação em dadas situações, o que nos leva à criação e manutenção de palcos es-pecíficas para cada uma das ocasiões. A autoridade, assim, é uma performance, e se refere à “habilidade de ganhar a confiança e obediência de outros” (p. 62). O poder está relacionado à capacidade de inti-midação, mas autoridade, não.
Exclusive access to knowledge
Diz respeito à manutenção e exibição de altos status por meio do controle de conhecimento, habilidades e experiência relevante àquele papel. Em geral, para os papeis e grupos, há elementos codificados que sustentam a autoridade de um indivíduo (ou do grupo). Há bons exemplos em relação ao conhecimento necessário para se curar uma pessoa (ser médico) ou consertar um carro (mecânico). Ambas as profissões possuem seus livros-codex, que criam labirintos de dados codificados.
Hiding the existence of a backstage
Nesse caso, tanto médicos quanto mecânicos bus-carão realizar ações que mascarem os códigos, ou ao menos tentarão não demonstrar “falhas” no seu conhecimento – como ler os livros ou manuais na frente dos clientes/pacientes. O segredo para a au-toridade está na capacidade de esconder o tempo gasto para o acúmulo daquele conhecimento: “The greater the ability to hide the time and effort needed to maintain a high status role or rest from it, the reater one’s seeming power and omnipotence” (p. 64).
O mesmo irá se dar em relação a vários outros pon-tos, como as fraquezas ou excentricidades. Há um papel a ser tocado por quem busca autoridade, e é necessário esconder o que não se deve mostrar, a depender o palco e do público.
Mantém-se a autoridade com meios que separem o perfil público, projetado, da identidade, que fica resguardada. “The reliance of authority on privacy suggests that hierarchies are usually supported by media tgat foster a clear distinction between leaders’ personal behabios and public actions” (p. 66)
Places of authority
A questão anterior se liga a essa por meio da forma-tação de territórios ou zonas de acesso. A autorida-de encontra base não na inexistência de regiões de fundo, mas em sua invisibilidade. Quanto mais alto o nível hierárquico, mais inacessbilidade aos basti-dores é necessária para a manutenção daquela en-cenação.
No entanto, Meyrowitz frisa que, mesmo com a dimensão territorial, é necessária uma dimensão informacional para a manutenção daquele status ou papel. Curiosamente, entretanto, nada é falado em relação às posses e acessos simbólicos, que podem ser alocados como informações. Talvez se dê pelo fato de o próprio processo de chegar lá é que im-porte, nem tanto o valor que os signos carreguem consigo…

Parte 2 – From print situations to electronics situations

Os meios aqui são vistos como um conjunto social dotado de poderes de exclusão e conjunção. Ou seja, podem unir ou dividir pessoas de maneiras di-versas.
O foco dessa parte se dá em relação ao modo como os novos meios podem reestruturar situações soci-ais. Há um olhar na metáfora de paredes levantadas ou derrubadas, que podem, igualmente, unir ou se-parar indivíduos e grupos. Nesse sentido, levanta Meyrowitz, é necessário se perguntar (p.69): Quem tem acesso às informações? Quais são as barreiras demográficas ou culturais para esses acessos? Que tipos de informações estão disponíveis?
Há 3 questões que irão nortear essa parte (p. 70):
1) até que ponto os meios tendem a dividir ou unir diferentes tipos de pessoas?
2) até que ponto os meios podem dar vazão a dis-tinções entre situações formais e informais?
3) até que ponto os meios podem contribuir ou di-rimir o elo entre as situações sociais e as localiza-ções físicas?

Texto: Paulo Victor Sousa

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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