No Sense of Place – Capítulo 2

2.  Media and behavior: a missing link

Meyrowitz começa apontando que a tradição de pesquisas em comunicação sempre esteve centrada nas mensagens decorrentes dos meios. A propaganda no rádio poderia ter o mesmo efeito se fosse utilizada a mesma mensagem em um meio diferente. Ainda, os modelos de compreensão estão baseados em uma resposta a um estímulo: as mensagens vão afetar de maneira uniforme pessoas diversas, no geral.

Pesquisas atuais, como a de usos e gratificações, vão questionar essa passividade do público que as teorias anteriores acreditavam. Pessoas são conscientes na seleção de mensagens que pretendem ser abastecidos cotidianamente. Numa relação de troca, os indivíduos dependem da mídia, que ao mesmo tempo precisam compreender o público a se adequar considerando as mudanças no perfil de sua audiência e nos anseios decorrentes dessas mudanças. O problema dessa compreensão, de acordo com Meyrowitz, é de que ainda está focado na mensagem, ignorando naturezas particulares de mídias diferentes.

Os meios de comunicação sempre foram vistos como um modo de transmissão de mensagens neutro. A exemplo das pesquisas ignoram de que maneira a televisão altera a relação das pessoas em uma casa.

Dois pontos importantes precisam então ser considerados: (1) Como alterações nas mídias alteram os ambientes sociais; e (2) Que efeitos uma mudança nos ambientes sociais pode causar no comportamento dos indivíduos. Para tanto, o trabalho de Meyrowitz está ancorado em duas bases teóricas: (1) A teoria das mídias, principalmente a partir do trabalho de McLuhan; e (2) o “situacionismo”, baseado no estudo sobre de que forma os comportamentos mudam considerando as situações sociais.

Media as cultural environments

Nesse tópico, a primeira consideração importante é a de que os meios de comunicação não são apenas o canal que liga dois ambientes diferentes na transmissão de informações, mas um ambiente por si só.

Harold Adams Innis foi o primeiro a perceber essa questão, ao apontar diferenças no controle da audiência. E McLuhan avançou nessa perspectiva adicionando a ideia de que os meios atuam no corpo do indivíduo, afetando os estímulos sensoriais para uma determinada mensagem a partir do modo como esses canais servem como extensões do corpo em co-presença física.

McLuhan apresentou três momentos históricos: a era da oralidade, da impressão e da eletrônica. Cada era repercute no modo de pensar e de se expressar dos indivíduos.
Sensores eletrônicos, por exemplo, repercutem no modo como voltamos a uma ideia de encontros numa aldeia, embora numa escala global; criamos uma aproximação, ao passo que em outros parâmetros. Já Walter Ong vai dizer que estaríamos numa segunda oralidade em virtude da mídia eletrônica em uma sociedade letrada.

Teóricos da mídia entendem que os canais de comunicação não moldam a cultura e a personalidade, mas mudanças nos canais de comunicação podem ser importantes para mudanças sociais importantes. Nessa perspectiva, é importante pensar: de que forma a escrita difundida pela prensa mudou a sociedade europeia renascentista.

As novas mídias não vão acabar com as anteriores, mas reconfigurar os modos de comunicação destas. Um novo ambiente surge a partir da junção dessas mídias – a nova e a anterior. Richard Grusin contribui nessa discussão adicionando o termo remediação, ao falar da atualização que os novos meios trazem para os antigos.

Segundo Meyrowitz, o grande problema do trabalho do McLuhan foi da sua teoria ter criado um “deserto”, e não uma corrente de estudos. Isto porque ao longo do tempo foi difícil se integrar a outras pesquisas, embora os pesquisadores reconheçam as afirmações desse importante teórico do campo da comunicação.

A questão que continuaria não respondida seria como tecnologias que criaram novas conexões entre pessoas e lugares podem afetar em mudanças estruturais da sociedade e dos comportamentos sociais. A resposta, para Meyrowitz, poderia estar na ideia de desconexão – a separação da situação social da interação – que as mídias são capazes na formatação da realidade social.

Situations and behavior

Meyrowitz começa este tópico falando que as regras em cada situação decorrem de critérios objetivos e subjetivos, de modo que conseguimos apontar quando algo está fora de sintonia com a situação social. A definição da situação é o conceito utilizado para o estudo das dinâmicas complexas dos encontros e das regras que governam os mesmos.

Ao passo em que vamos ficando mais velhos, começamos a dominar melhor as várias definições da situação da sociedade, mesmo que inconscientemente. Situações com o tempo passam a ser percebidas como convencionalizadas e finitas em número, facilitando evitar que se estabelece uma interação imprópria. Nesse sentido, cada situação possui uma agenda, que precisa ser compreendida.

Temos basicamente três tipos de comportamento situacionais: (1) comportamentos que sempre ocorrem; (2) comportamentos que nunca ocorrem; e (3) comportamentos que alguns momentos ocorrem. Precisamos, dessa forma, sempre considerarmos esse cenário impreciso para conseguirmos obter uma melhor definição da situação. Focamos no que decidimos fazer nos limites que das decisões que as situações impõem para nós. A liberdade individual então está na escolha de algumas opções disponíveis na definição da situação, e não na total liberdade para se fazer o que preferir. E apenas as pessoas em posição de poder são capazes de criar uma nova definição da situação.

Tendemos então a procurar controlar a situação, de modo a nos servir para o exercício da performance. Mesmo aqueles que procuram aventuras novas, diferentes, não vão conseguir escolher algo que fuja totalmente ao seu controle. Pesquisas nessa área vão apontar que tanto competência quanto habilidades estariam mais baseadas em uma situação do que algo inerente ao indivíduo.

A situação social, mais do que individual, se desenvolveu como um campo para a psicologia. Goffman esteve preocupado com esse campo, ao pensar o indivíduo em sociedade, utilizando sempre a metáfora do drama. Nesse ponto é que precisamos saber as situações: se são formais ou informais, felizes ou tristes, assim como os papeis dos envolvidos. O próprio ato de fazer nada já demonstra uma ação.

Para Goffman, cada envolvimento do indivíduo é uma performance; ou seja, um comportamento escolhido que é planejado, mesmo que inconscientemente. Nesse processo, duas regiões podem ser percebidas na performance: a de frente e a de fundo. Esta última pode, à primeira vista, parecer mais autêntica do que a região de frente, ao compormos uma relação de “falsidade” associada a um papel desempenhado.

Meyrowitz passa então a falar de um conceito importante no trabalho de Goffman, referente ao gerenciamento de impressões, que é comum a cada indivíduo, pois cada um ao exercer uma performance irá considerar a impressão que queira causar nesse outro. O que tornaria alguém desonesto não é o exercício da performance, mas sim a atitude do indivíduo perante os próprios papeis construídos por ele. Isto porque o comportamento do indivíduo está baseado em personalidades que adquirimos, como máscaras. Quanto mais assumimos essa máscara, mais nos tornamos reais tanto para audiência quanto para nós mesmos.

A crítica de Meyrowitz ao trabalho de Goffman reside no fato de que suas análises das situações sociais estão relacionadas a situações pontuais, com uma certa linearidade – por se tratar apenas do face-a-face. O referido autor não conseguiu, dessa forma, desenvolver um modelo considerando cenários múltiplos.

The theoretical gap: Media and Situations

Meyrowitz conclui o capítulo apontando uma relação em comum das duas correntes: teóricos da mídia e situacionistas estavam analisando padrões de acesso. Situacionistas sugerem como ações são baseadas no conhecimento que temos daqueles que as recebem, e teóricos da mídia sugerem que as novas mídias estariam alterando os padrões de ação.

Vitor Braga

Jornalista, professor da Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia.

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