No Sense of Place: Capítulo 15

Capítulo 15 – Where have we been, where are we going?

Em continuidade à discussão construída anteriormente, Meyrowitz defende dois argumentos centrais no capítulo em questão. O primeiro deles aponta para o fato de que os papeis sociais assumidos ao curso da vida cotidiana só podem ser compreendidos efetivamente se as situações sociais forem contempladas – tais situações, importante ressaltar, estão atreladas a locais físicos. O segundo argumento que conduz este capítulo promulga que os comportamentos sociais possuem íntima relação com padrões de fluxo de informação.

Neste sentido, o autor apresenta um breve resgate histórico acerca das transformações sociais a partir da segunda metade do século XX. Em suma, são apresentados diversos exemplos que ilustram a forma como a alteração no “sentido de lugar” engendrou variados fenômenos de ordem social. A maior visibilidade dada pelas mídias eletrônicas – o que, na perspectiva deste volume de Meyrowitz, corresponde principalmente à televisão – às questões étnico-raciais, de gênero e relacionadas aos direitos da infância contribuíram para alterações da “realidade social”. Assim, as relações entre indivíduos sofrem influências do influxo destas temáticas na tessitura social.

Assim, a maior atenção às “minorias” – alcunhadas desta forma não pela quantidade de pessoas que as constitui, mas pelo menor poder exercido sobre o corpo social, ressalta Meyrowitz – acabaram por gerar aberturas a situações que, antes da amplitude de difusão de informações desta natureza, eram suprimidas. Então as transformações do “sentido de lugar” – sense of place, originalmente – orbitam em torno das questões acima. O autor apresenta então dois sentidos para aquilo que é compreendido em seu texto enquanto “sentido” e “lugar”. Desta forma, “sentido” corresponde tanto ao aparato perceptor dos indivíduos – ou seja, os cinco sentidos – quanto ao fato de algo possuir “lógica” – a coerência, a validade de pensamentos e discursos. “Lugar”, neste trabalho de Meyrowitz aponta para o lugar físico em si mesmo e, noutro viés, à posição social ocupada pelos indivíduos organizados em coletivos. Portanto, o autor observa um processo de evolução da mídia, na medida em que diversas alterações na “lógica” de ordem social pela reestruturação da relação entre espaços físicos e sociais – “lugares”. Ou seja, segundo ele, o processo de transmissão e recepção de informações pode contribuir a reordenação da conjuntura social vigente.

Deste modo, já em 1985 – data da primeira edição de No sense of place –, Meyrowitz já observava a necessidade de integrar idiossincrasias como forma de avançar em termos de organização social, não mais abordando esta conjuntura mais ampla enquanto uma massa homogênea. Assim, a combinação de diferentes condutas e formas de interação possibilita a emergência de comportamentos em “regiões de meio”, onde se preza justamente uma não polarização de posições, mas uma postura mais neutra, que abarque distintos modos de pensar e agir em uma sociedade.

Apesar de tais transformações, alguns padrões de ordem social permanecem em vigência. Assim, a hierarquia e papeis sociais, cenários e fases de socialização respeitam normas anteriores, incorporados pelos indivíduos e fornecedores de moldes. Estar em conjunto com outros indivíduos de maneira aceitável implica na assimilação e reiteração de padrões de comportamentos, por mais que estes estejam suscetíveis às alterações já citadas.

Em tópico nomeado Order, not chaos, Meyrowitz reforça e aprofunda as posições acima apresentadas. Complementa sua argumentação analisando algumas convenções como constructos sociais. A compreensão do que constitui família, infância e casamento, por exemplo, não são, em si, “naturais”, mas produtos de um desenvolvimento social em constante movimento. Assim, o entendimento do que é a criança, a mulher, o negro e diversas outras identidades sociais são fortemente influenciadas pela mídia. A maior abertura à discussão de tais questões relaciona-se a diminuição da distância entre hierarquias. Se as barreiras que distinguiam figuras de maior hierarquia do restante da população eram bastante definidas na imprensa do século XVI, nosso tempo apresenta uma proximidade entre indivíduos de diferentes “castas”, através do maior acesso a informações. Resulta daí uma percepção menos “mistificada” de figuras sociais de maior destaque e, por conseguinte, uma configuração aparentemente mais plana do todo social. Em suma, é através do diluição da fronteira entre público e privado e do maior acesso às informações que este processo de “desmistificação”. Os líderes são figuras públicas, vigiadas por uma estrutura midiática e social. Ainda acerca disto, Meyrowitz destaca a emergência do risco quando se perde a habilidade de monitorar aqueles que nos monitoram. Reitera sua postura afirmando que a população continua menos influente, mas mais atenta às coisas que não sabem e não podem fazer. Por fim, propõe que vivemos uma revolução política que tem transformado a estrutura de governo representacional em administradores, onde os atuais líderes são mais “humanos”, justamente pela facilidade no acesso a informações a eles relacionadas.

Posteriormente, no texto, Meyrowitz discute uma série de transformações na mídia. Tratando particularmente do computador pessoal – reforçamos que a primeira edição deste livro data de 1985 –, o autor aborda este meio como imbricação entre TV e o livro impresso, onde emerge um conjunto de efeitos sobre as identidades de grupos, suas formas de socialização e organização hierárquica. A democratização das informações contribuiu para a dissipação do poder – onde situa os hackers como importantes autores neste processo. Além disso, o desenvolvimento de novas competências e habilidades e a característica do ser multitasking constituem aquilo que o autor nomeia de “especialista em generalidades”.

Adicionalmente a tais efeitos, a integração e convergência de mídias contribuem a uma menor diferenciação entre “aqui” e “lá” – novamente, transformações no sense of place –, entre transmissores e receptores de informações. Por fim, o autor reforça a ideia de que nascemos em um mundo físico e social, no qual a mídia nos afeta, moldando o tipo de interação que ocorre entre as camadas sociais e as instituições. Interessa a Meyrowitz, portanto, perceber como a mídia atua nesta ampla rede de influências que concatena questões de poder e ordenamento social.

Texto: Felippe Thomaz

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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