Neurônios eletrônicos, companheiros de silício

Temos assistido a grandes avanços tecnológicos na corrida para construção de robôs inteligentes e sociáveis, previstos para diferentes fins como cuidar de idosos, auxiliar crianças, exercer tarefas domésticas ou simplesmente “fazerem companhia”. Além da aura de mistério e magia que sempre circunda as criações tecnológicas e as inovações científicas, é interessante retomar as reflexões de Sherry Turkle sobre o que estas inovações dizem não sobre as máquinas, mas sobre nós mesmos. O que significa, do ponto de vista cultural e psicológico, as mudanças em nossa percepção sobre o que consideramos ser capaz de ser sociável, o que consideramos companhia e quais critérios usamos para definir um ser (ou objeto) como inteligente.

Especialmente em seu livro Alone Together, Turkle nos desafia a pensar em como nós temos mudado nossas expectativas, tanto em relação às máquinas quanto a nós mesmos. Muitos exemplos interessantes estão no cinema e na literatura, como o recente filme Ela, ficção na qual há programas de computador integrados à rede com algorítimos complexos o suficiente para serem singulares e desenvolverem relações sociais e até amorosas. Outros exemplos, porém, estão disponíveis em projetos bastante reais e em políticas públicas oficiais como os projetos para desenvolvimento de robôs acompanhantes na União Europeia (accompanyproject.eu). Nestes projetos a pretensão é desenvolver robôs capazes de oferecer assistência física, social e cognitiva aos idosos de maneira motivante. Como apontado por Turkle, a própria dinâmica de desenvolvimento destes robôs, os desafios que os programadores se colocam, os limites apontados, a abordagem midiática e a avaliação dos usuários são elementos muito ricos para pensar nas mudanças em curso na concepção de sociabilidade.

Além dos robôs sociáveis que poderão cuidar da população idosa do continente europeu, a comunidade europeia também está investindo em um enorme e ambicioso projeto para simular um cérebro humano computacionalmente. O projeto pretende não apenas avançar nas explicações e curas para diversas doenças neurológicas, mas também desenvolver novas máquinas e chips capazes de simular o funcionamento de neurônios e do cérebro em computadores mais inteligentes. O Human Brain Project é um curioso exemplo de fusão das expectativas e dos desafios que a cruzada científica se coloca: para conhecer melhor e simular o cérebro humano é preciso de máquinas superpotentes ainda não disponíveis, mas que os cientistas pretendem criar usando nerônios eletrônicos, chips e placas neuromórficas que simulem sinapses em circuitos eletrônicos.

Silicon neurons

Seguindo as reflexões de Turkle, realmente parece importante pensar sobre nossas novas expectativas em relação aos diferentes momentos do ciclo da vida, à noção de amizade, de compartilhamento, de intimidade. Talvez mais urgente do que criar máquinas capazes de cuidar de humanos, cabe investigar o que os humanos estão deixando de ser capazes de fazer e o que estamos deixando de cuidar em nossas relações. Estas reflexões podem servir não apenas aos discursos reacionários e “anti-tecnológicos”, mas principalmente para que possamos diversificar as apropriações sociais da potência que conseguimos sintetizar nas/com as diferentes tecnologias.

Rodrigo Nejm

É psicólogo pela Universidade Estadual Paulista UNESP/Assis-SP, doutorando em psicologia social no Programa de Pós Graduação da UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Realizou intercâmbio acadêmico na graduação para estudar “Médiation Culturelle et Communication” na Université Charles de Gaulle Lille 3, França. Atualmente é psicólogo e diretor de educação na ONG Safernet Brasil, responsável pela criação de materiais pedagógicos, pesquisas e campanhas educativas sobre Direitos Humanos e governança da Internet no Brasil. Tem interesse de pesquisa nas interfaces da psicologia com a comunicação, privacidade e sociabilidade de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

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